Colunistas Junior Ramalho
00/00/0000 “CADÊ O ANÚNCIO QUE ESTAVA AQUI?”

Quanto mais o mundo digital avança, mais temos presenciado a profecia, - da qual eu mesmo sempre fiz de tudo para refutar - de que os meios de comunicação impressos estão caminhando ou para a migração para portais de notícias na internet, ou para a extinção, pura e simples. Quando se vê criancinhas, no sentido exato da palavra, e praticamente toda a chamada terceira idade manuseando seus smartphones cada vez com mais desenvoltura, sinto que realmente estamos perto do fim dos jornais impressos. Apesar de assumir meu saudosismo e ser um dos poucos que ainda mantém o hábito de abrir, quase como um ritual, seu jornal de preferência, reconheço que a globalização e a agilidade que o mundo atual nos impõe, está levando o jornalismo para mudanças estruturais e culturais, sem volta.

Na verdade, minha constatação, quase melancólica, e pouco substanciada de novidade, - já que esta pedra vem sendo cantada há muito tempo pelos mais céticos - não é voltada apenas por motivos lúdicos na área jornalística dos jornais e revistas, mas, principalmente, por estar presenciando a minha área, publicidade e propaganda, ser transformada, também, numa outra coisa que passa longe da sedução que sempre arrebatou o encantamento dos consumidores através de anúncios que, além de cumprirem as suas missões técnicas e mercadológicas de venda dos produtos, chegavam a esbarrar em pura arte. Onde foram parar aquelas peças publicitárias impressas que nos emocionava ou, no mínimo, atraía pela inteligência das “sacadas”, esmero das ilustrações e fluidez dos textos?

Com raras exceções, os anunciantes têm migrado os seus investimentos para as mídias sociais, blogs e portais dos grandes e tradicionais veículos e até dos mais modernos. Qual o problema em se acompanhar a modernidade e a instantaneidade na comunicação? – A própria atividade publicitária, que está em vias de tornar-se mera formatação de links para sites, sem qualquer preocupação com o detalhamento técnico. Isso, com certeza, faz com que os departamentos de criação e, consequentemente, os criativos, passem a agir e pensar apenas em encontrar estratégias para aumentar “curtidas” ou fazer o consumidor pegar o seu cartão de crédito e comprar algo rapidamente, apenas com fotos feitas não obrigatoriamente por profissionais; textos rasos e direção de arte quase nenhuma. É só fotinho, preço e formulário.

Recentemente, almoçando com um antigo colega do mercado, tive o desprazer de ouvir o seguinte relato: “Fui prospectar um cliente de médio porte, da área de varejo e, antes que eu pudesse começar a expor o planejamento estratégico e apresentar os layouts das peças, o cliente já foi dizendo: não, não, essa parte aí da criação já tem um rapaz que tira as fotos dos produtos e ele mesmo já coloca na internet, com os preços. Só estou precisando é de uma “musiquinha” para colocar no Youtube”. E o pior: o tal rapaz que já fazia o serviço, sequer fotógrafo profissional era e nem tão pouco tinha um estúdio ou mínima produção. Sacava o celular, batia umas “chapas” e corria para o computador. Isso é publicidade?

Nesta toada, muito em breve vamos ter apenas “bureaus” de mídia digital atuando no mercado. E os recém-formados, iludidos, profissionais de propaganda, serão transformados em robozinhos colocando mensagens secas e sem a menor inspiração na internet. Amargura? Também, afinal, é triste ver uma das profissões mais almejadas, na sua essência, virar tão pouco à vista dos próprios anunciantes. Não é bom para ninguém. Tenho convicção de que a quase decretação da falência dos grandes veículos, notadamente os impressos, mas com forte tendência de se estender para a mídia eletrônica, vai arrastar a propaganda, verdadeira, para o mesmo caminho. Afinal, já tem Spotify para ouvir música; Netflix para filmes e séries; Portais para notícias... Te cuida mídia eletrônica! Mas continuo apostando que dá pra se entregar à mídia digital, sem deixar de ter o prazer de abrir um bom jornal ou bela revista, como esta aqui.

 

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COLUNISTA
Junior Ramalho
Propaganda & Marketing - Sócio-Diretor da Pódio Propaganda e Marketing, responsável pelas áreas de Criação e Planejamento.
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