Colunistas Junior Ramalho
16/12/2015 Cartas Marcadas

É notório que os processos licitatórios governamentais para compra de produtos ou prestação de serviços são repletos de vícios, em todas as áreas. Mas, no caso da publicidade e propaganda, esta distorção é ainda mais evidente e capaz de produzir resultados insólitos, em face da subjetividade que norteia os critérios de avaliação dos itens dos editais. Membros das comissões julgadoras têm muito mais liberdade e respaldo para simplesmente “gostar” mais de uma ideia do que outra e, assim, atribuir pontuações extremamente destoantes sobre a mesma peça ou estratégia criativa, por exemplo.

Não vai aqui nenhum tipo de moralismo ou rebeldia gratuita, muito pelo contrário. Sempre fui favorável ao fato de que agências de propaganda que ralaram e investiram tempo e dinheiro em políticos quando ainda eram inexpressivos nas suas bases, colham os frutos e os acompanhem quando galgam cargos nos primeiros escalões de governos municipais, estaduais ou federais.

Só não concordo é com a hipocrisia de se realizar todo um processo envolvendo elevadas quantias e, principalmente, a imagem de outras empresas que acabam participando apenas como coadjuvantes e muitas vezes se expõem ao ridículo. Por mim, cada presidente de estatal, ministro ou similares deveria logo indicar as suas agências de confiança e predileção, submetidas a um rigoroso sistema de fiscalização e auditoria. Pronto. Muita gente apregoa que esse tipo de seleção tiraria a oportunidade de as agências disputarem democraticamente um espaço ao sol. Mas que espaço é esse se, na grande maioria das vezes, não vão ganhar nada mesmo?

Não faz muito tempo, quando integrantes do mercado publicitário, inclusive gestores de conceituadas agências do país, sentavam-se em restaurantes chiques da cidade para realizar “bolões”, com direito a apostas e tudo mais, para ver quem acertava quais as agências que seriam vencedoras de determinados órgãos e empresas do governo. Quase sempre dava empate, tal a obviedade dos futuros resultados dos certames: bastava ver de que cidade, estado ou partido político era o Presidente da Empresa, para rastrear os seus laços com determinas agências.

Tal era a precisão, que muitos foram os casos em que agências que sabiam que, apesar de possuírem melhor estrutura e capacidade, iriam perder para agências desconhecidas e com insignificante participação no mercado, faziam publicar nos classificados dos principais jornais de SP e RJ – com o nítido intuito de tentar “melar” o processo – o resultado do certame através de códigos, no mesmo dia da abertura dos envelopes. E não é que acertavam?

Teve situação ainda mais hilária. Na noite da véspera de uma concorrência para uma importante conta de governo, foram flagrados sentados à mesa, bem no fundo de um restaurante de Brasília, os donos de uma agência carioca, juntamente com os donos de uma agência local, com a qual seria realizado um consórcio, brindando com champanhe de primeira ao sucesso do projeto, antes mesmo de entregarem as propostas. Concordo que poderia ser apenas uma inocente confraternização entre parceiros, vislumbrando a possibilidade de um grande negócio, caso não estivessem definindo, sem a menor precaução, o nome do profissional que iria atender o cliente. Ah, também participava da confraternização o publicitário e servidor público, em cargo de confiança, que era ordenador de despesa da verba a ser licitada no dia seguinte. Adivinha quem ganhou?

E o tanto de agências com dezenas de prêmios internacionais de criação, que tiraram nota 2 nas suas estratégias criativas em concorrências? Não estavam num bom dia, com certeza.
Abram seus jogos, por favor!

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COLUNISTA
Junior Ramalho
Propaganda & Marketing - Sócio-Diretor da Pódio Propaganda e Marketing, responsável pelas áreas de Criação e Planejamento.
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