Colunistas Fernando Cabral
31/03/2016 Em banho-maria

Fogo brando e água em temperatura constante. O banho-maria é uma técnica de cocção utilizada em alguns preparos e como forma de manutenção de determinados pratos em temperatura adequada para o consumo. Seria ótimo se o banho-maria fosse importante e conhecido principalmente para os bufês de restaurantes. Mas não, o mais importante banho-maria da atualidade é o estado da economia brasileira.

 

Morna, sem movimento. Nem quente e nem fria. Assim anda (ou não) a economia. Em funcionamento, claro, mas quase parando. Outras expressões poderiam ser mais bonitas para classificar o momento: letargia, inércia, sono profundo.

 

Este estado de coisas está desencadeando um perigoso processo de deterioração da sociedade. Começa com o desemprego: empresas encolhem e demitem. Empresas fecham e demitem. Demitidos não encontram novas vagas. FGTS acaba, a grana da recisão míngua, contas atrasam, faltam alimentos nas despensas das casas, faltam opções de vida. Gente sem dinheiro e sem ter o que fazer. Consequência infelizmente natural: aumento da criminalidade. É perceptível pela imprensa que a violência está crescendo, mesmo que as estatísticas tentem desmentir. A sensação de insegurança intensificou-se. Velhos e manjados golpes estão voltando e novos golpezinhos estão surgindo, basta observar atentamente à sua volta. É a parte da população de índole duvidosa tentando se virar.

 

Faturamento das empresas em queda. Arrecadação em queda. Menos dinheiro nos cofres públicos. (Se com dinheiro a incompetência na gestão pública é grande, imagine com menos dinheiro!) Piora a situação da saúde. Piora a situação da educação. Piora a situação da infraestrutura. A sociedade dá passos para trás.

 

E a grande maioria dos políticos? Brigando entre si. Tentando garantir seus mandatos do presente ou do futuro. Estão como dentro de um octógono que não tem alambrados e sim espessas paredes. Dentro desse fechado ringue não conseguem olhar para fora, nem ouvir o que acontece além do mundinho deles. As câmeras parecem escondidas num lamentável big brother em que a audiência é a população atônita. As partes digladiam na tentativa de matar uns aos outros. Não basta vencer, tem de matar oponentes até não sobrarem os contra. Só que nos octógonos profissionais existem líderes. Tanto entre os que organizam as lutas quanto entre os que delas participam. Mas no Brasil do banho-maria não aparecem mais líderes. Alguns sumiram, apagaram-lhes as chamas. Outros sucumbiram. Uns estão presos, ou deveriam estar. Outros não passam de líderes de meia tigela, que se autointitulam como tais, mas não têm nenhum liderado.

 

Seria interessante que essa coluna, além de ficar comparando a situação do momento a bufê de restaurante ou luta livre apresentasse reais soluções para o impasse em que vivemos. Mas qual solução apresentar? Dizer que é preciso em primeiro lugar melhorar a educação para que todo o resto possa melhorar dentro de algumas décadas é fácil. Mas como? Quem poderá dar os primeiros passos? Que situação triste essa em que nos encontramos! Se o governo que está aí continuar, será o caos. Se cair, será o caos. Se o partido que está no poder virar oposição, será o caos. Se a oposição virar poder, será o caos. Se forem convocadas eleições gerais, pela falta de líderes, será o caos. Se não houver eleições, será o caos.

 

 

É preciso que os pseudo-líderes de plantão – são os que temos para o momento – entendam que o banho-maria não pode ficar ligado para sempre. A “coisa” resseca, estraga. Alguém tem que assumir a responsabilidade do diálogo. Alguém tem que pular fora do octógono, desligar o banho-maria, ligar as bocas do fogão, juntar as panelas e unir as poucas forças que restam para salvar o Brasil. 

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COLUNISTA
Fernando Cabral
Desabafo de um Empresário - Formado em Publicidade e Propaganda, já trabalhou em rádio, Tv e jornal. Consultor de Marketing e professor de Comunicação.
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