Colunistas Junior Ramalho
16/12/2015 Enquanto isso, no interior...

Ao mesmo tempo em que testemunhamos recentemente grandes espetáculos da tecnologia em prol do marketing para campanhas eleitorais, como as que elegeram Obama presidente dos Estados Unidos ou Haddad prefeito de São Paulo – com orçamentos estratosféricos –, as campanhas municipais no interior do país continuam a nos brindar com estratégias que são verdadeiras pérolas do marketing político.

O mais intrigante é que tais “ferramentas” são utilizadas de forma praticamente idêntica por candidatos a prefeito e a vereador em localidades que vão desde o extremo norte até a mais sulista das culturas. E não só nas ações, mas nos comportamentos também.


Principalmente em cidadezinhas que não possuem repetidoras locais de televisão para utilização do horário gratuito, é como se houvesse uma espécie de “manual caipira” de ações de marketing, que se repete a cada pleito, e que marketeiro algum, vindo de fora, consegue macular.


A “época da política”, como é chamada, sem dúvida é o maior evento social da grande maioria dos municípios com menos de 25 mil eleitores ao longo dos 90 dias finais da campanha. Uma brilhante festa permanente, envolvendo as áreas urbanas, as zonas rurais e as currutelas, onde dia de comício ou visita de candidatos é tido quase como um dia santo pelos habitantes.
Mas, a despeito de toda a tradição, a tecnologia também chegou ao interior, obviamente, através da internet que globaliza o mundo. No caso, as redes sociais também são os grandes instrumentos para se arrebanhar votos do público mais antenado e da juventude.


Quase ninguém faz “sites” ou “blogs”, mas página oficial no Facebook virou sagrada. Estaria tudo muito bem, caso a “linha do tempo” dos candidatos não se transformasse numa verdadeira baixaria: logo abaixo do tradicional texto de “bom dia, amigos eleitores, guerreiros pelo desenvolvimento desta cidade...” não viessem “posts” do tipo “Coisa feia, hein!? Passou a noite toda “torando” a vereadora do outro lado, dentro do carro, no meio da braqueara, e agora vem dar uma de santinho”.  E não adianta criar grupos virtuais alternativos para este tipo de embate. Só tem graça no perfil oficial do candidato. Claro que sempre sobra para o marketeiro decidir se apaga, responde, ataca ou deixa falar...


Dia de comício, então, é a glória. Momento em que os quase sempre desafortunados candidatos a vereador, ávidos por espaço para expor suas ideias, se deleitam preparando textos quilométricos e escolhendo a indumentária mais adequada ao seu perfil para se apresentar aos eleitores. Foi num desses eventos que, apesar de todo o cuidado do marketing para orientar as dezenas de candidatos da coligação, ocorreu um dos fatos mais hilários da minha trajetória nesta área.


Palco montado e decorado; som testado; mestre de cerimônia pronto para soltar o jingle e iniciar a chamada para compor o palanque. Por ordem alfabética, para não causar ciumeira, lá vai a candidata que só estava ali para compor a chapa e cumprir a cota de mulheres exigida pela lei eleitoral, deslumbrantemente paramentada, subindo as escadas rumo à sua primeira aparição pública. O marketeiro, atrás do palco, organizando a fila e recebendo as autoridades convidadas e dando os últimos toques para o candidato a prefeito.

Antes que o locutor pudesse chamar o candidato com a letra “b”, gritos eufóricos, gargalhadas e frases maldosas, como: “Tá eleita, vadia...”; “É isso que o povo quer...”; “Ganhou meu voto, piranha...”, sem contar algumas ainda mais explícitas, ecoaram à frente ao palanque.


Seguindo a orientação do marketeiro, segundo ela própria, evitou vestidos curtos ou decotes cavados e escolheu um modelito mais comportado. Um vestido longo, branco de tecido leve e, para não “marcar”, optou por dispensar as roupas de baixo. Não deu outra. Cheguei esbaforido junto ao povo para averiguar o que se passava e lá estava a candidata acenando para o público, bem além de onde era a área demarcada, com a sua genitália toda à mostra, por conta do enorme refletor de led que alguém resolveu improvisar, proporcionando toda a transparência necessária para levar o povo à loucura e o marketeiro à loucura. Por motivos diferentes, é claro!


Tudo foi parcialmente resolvido, quando uma voluntária de bom coração resolveu correr em casa e pegar um calçolão preto para emprestar à pobre candidata, que aos prantos se recusava a voltar ao palco para discursar. Cabaninha feita, ela socou aquela peça por baixo do vestidão e, quando foi convocada para falar, vieram as vaias, tão intensas, que levaram a mulher ao choro compulsivo e a retirar-se, para sempre, da vida política.

Ah, campanha no interior... tantos “causos”; tanto aprendizado; tantas peripécias!


Mas só para não deixar passar batido, tem também aquela do “traíra”, personagem tradicional, sempre presente em qualquer campanha política, mas que no interior ganha proporções ainda mais destacadas, pela forma de agir.


Num belo dia, já quase final de campanha, adentra o comitê e, sem bater na porta, invade uma reunião da cúpula do candidato, um cidadão conhecido na região, pelos seus variados tipos de negócio.  “Bão, pessoal? E aí, vamos pras cabeça? Quero mil voto de frente, hein!” e sem se fazer de rogado, foi logo pedindo em tom de cochicho: libera uns trezentos litros de gás aí que eu vou amanhã, cedim, caçar uns votos pra nóis da turma do adversário, lá na zona rural”.


Num só gesto, todos olharam para o coordenador financeiro, que, diante do silêncio dos demais e do tamanho da família do pedinte, sacou seu bloco de ticket do posto de gasolina e mandou ver: “Taí, cumpadi... manda ver, contamos com o seu apoio”. Mal virou as costas e o celular do “correligionário” toca alto. Nada demais, se o toque em MP3 que se ouviu não fosse o do “grito de guerra”, seguido pelo jingle do adversário. Constrangimento geral e, antes de devolver o vale-combustível, ainda disse o cara-de-pau: “Esse aparei é da minha muié...”


Casos como estes são até corriqueiros, numa campanha municipal do interior, sem deixar de lado as folclóricas apostas com dinheiro vivo depositado na mão do tabelião; as festas de “aniversário” para burlar a lei eleitoral; os “papéis” apócrifos, depositados na calada da noite nas caixinhas de correspondência... Tudo isso e muito mais fazem dessas campanhas uma delícia, principalmente, quando se ganha. Para quem tiver a oportunidade, eu recomendo.

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COLUNISTA
Junior Ramalho
Propaganda & Marketing - Sócio-Diretor da Pódio Propaganda e Marketing, responsável pelas áreas de Criação e Planejamento.
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