Colunistas Junior Ramalho
16/12/2015 "Eu tô Pagando!"

De todos os setores da economia, notadamente no setor de prestação de serviços, a Publicidade é, sem dúvida, a que sofre a maior e mais indiscriminada interferência por parte dos pagantes, neste caso, chamados de clientes, ou contas. Por mais que evoluam as técnicas e os cursos superiores para formação de publicitários, para alguns anunciantes, é como se eles só contratassem esse tipo de serviço por não terem tempo para planejar, criar, veicular e avaliar suas campanhas. Afinal, eles próprios já têm sempre as melhores ideias e soluções.

E olha que isso não acontece só com os pequenos clientes, que nem deveriam ser chamados assim por terem pequenas verbas, mas acabam merecendo a alcunha, sim, pelas suas cabeças.  Estou me referindo aos anunciantes que, já na hora do briefing, saem com pérolas do tipo: “Só tenho tanto pra gastar... Vocês têm que vender tudo”; “Quero minha propaganda no mesmo estilo do Ricardo Eletro... Se vira”; “Quero uma coisa de impacto, cheia de emoção, e os meus netinhos vão sair no filme...”; “Estava pensando em algo do tipo: a gente faz aniversário, mas quem ganha o presente é você!”

O pior é que, por pura necessidade de faturar, o contato, hoje em dia promovido a gerente de contas, acaba levando esses absurdos como informações básicas para a agência trabalhar. Claro que, complementadas pelas célebres frases, estampadas nos relatórios de visita e reafirmadas nas reuniões de brainstorming: “É pra ontem... Produção bonita e barata”.

E lá vão os bravos profissionais de propaganda elaborar, “in glória”, estratégias de comunicação – quase sempre virando noites – embasadas em números ou até mesmo em feeling, para depois verem suas obras-primas transformarem-se em nada.

Para se ter uma ideia do que fazem alguns anunciantes que tratam publicidade como se estivessem pedindo pizza, certa vez, um dono de loja de móveis, ao analisar um plano de mídia, simplesmente pediu para tirar duas inserções no Jornal Nacional e “carregar” a verba na novela das 18. Motivo: este era o único horário em que daria tempo para a esposa dele sair do trabalho, pegar os filhos no colégio e, a família reunida, poder assistir ao próprio comercial, “ao vivo”. Pasmem, mas o público-alvo dava quase traço no ibope no horário que ele exigiu.

Mas eles também opinam na produção. Houve um caso em que o cliente resolveu acompanhar a gravação do seu VT numa produtora de outro estado. Chegou na noite anterior, saiu para jantar e dar uma esticada numa boate da orla. No dia seguinte, chega o cliente no local das externas, de braços dados com uma criatura de quase 1.90 m de altura e, sem o menor constrangimento, determinou ao diretor: “encaixa essa moça aí na propaganda”. Detalhe: o roteiro não previa atores, modelos e, sequer, figurantes. Foi duro criar outro ali, na hora.

E para fechar com estilo esta narrativa de apenas poucos das centenas de episódios hilários, teve o caso de uma distinta esposa de cliente que, ao ver o comercial da empresa do marido na televisão, fez questão de pessoalmente ligar para mandar tirar a campanha do ar, e querendo saber quem indicou aquela “piranha” quase sem roupa usando o produto do marido dela. O produto era uma bicicleta ergométrica para ginástica em casa. A modelo? Noiva do diretor de arte da agência. A mando do cliente, o VT virou um lettering com a foto do produto parada no canto do vídeo.

“O anúncio ficou bom, mas troca só o título, a ilustração e o slogan”. Difícil, viu?

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COLUNISTA
Junior Ramalho
Propaganda & Marketing - Sócio-Diretor da Pódio Propaganda e Marketing, responsável pelas áreas de Criação e Planejamento.
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