Colunistas Fernando Cabral
00/00/0000 O Casal que queria jantar

Existem alguns esportes contemporâneos aos quais muitos se dedicam apenas com parca frequência, mas bastante desenvoltura. Um deles é falar mal do transporte público. À classe média e à classe alta, especialmente em Brasília, restam, dependendo da idade, a lembrança de uns bons tempos em que se andava de ônibus com razoável qualidade e o atual estágio: a janela. Não a do ônibus. Como janela, entenda-se a visão do assunto na perspectiva dos jornais, telejornais e do rádio donde se ouvem, veem ou leem as tristes notícias sobre a situação dos ônibus e do transporte público em geral.

E o jantar, o que tem a ver com isso? Resposta: se for fora de casa, muito. Se o jantar for depois de um cineminha, de um show ou de uma peça de teatro, mais ainda. Poucos ainda não passaram pelo dissabor de tentar um jantar mais tarde em Brasília e dar de cara com a porta fechada (ou com uma cara fechada) num restaurante. Invariavelmente a primeira análise é do tipo: “Não querem faturar!” “Não sabem ganhar dinheiro!”.

Mas por que será que esses empresários não sabem ganhar dinheiro? Não querem faturar? Pura preguiça! Já estão com os bolsos das dólmãs cheios de dinheiro? Não têm visão empresarial! Não entendem a demanda do mercado? Pode acontecer um ou outro caso no qual essas respostas reflitam alguma realidade, mas, na maioria das vezes, o problema está ligado ao transporte público deficiente da Capital da República, onde ou os empresários liberam cedo os funcionários que moram longe e não têm transporte próprio ou não conseguem pessoas minimamente qualificadas para trabalhar. Claro, também é um problema de custo para as empresas, afinal, uma sugestão “simples” surge com alguma frequência: basta comprar uma van e levar os funcionários em casa ao final do expediente. Comprar van, contratar motorista que vai chegar mais tarde em casa, pagar o combustível, seguro, risco sobre o patrimônio e sobre as vidas. Tudo isso para poder fazer as vezes do transporte público, obrigação do governo e dos concessionários? Injusto! Bastam a carga de taxas, impostos e os exorbitantes custos trabalhistas oriundos da setuagenária CLT. Cada um que faça a sua parte, os restaurantes servem as refeições, concessionários prestam o serviço e o governo controla o transporte público de qualidade.

Para que essa peça não caia na esparrela da “janela” do primeiro parágrafo, vale um breve aprofundamento no negócio dos outros. Falar do transporte público é falar de empresários sempre achincalhados, com seus tanques cheios de dinheiro, chamados de aproveitadores, corruptores... “coitados!” Pode não ser bem assim. Alguém já contou quantos ônibus foram depredados e incendiados somente este ano por todos os cantos do País? Alguém já observou a ação dos Black Blocs sobre os coletivos? É... pimenta nos olhos dos outros é colírio. Mais uma vez o Estado precisa agir. Isso não pode continuar. Voltando para o feijão com arroz, e a solução? Não dá pra ficar aqui defendendo os concessionários dos transportes públicos. Então eles, que realmente estão com seus tanques abarrotados de dinheiro, precisam entender que é natural existirem linhas lucrativas e outras não. Isso é necessário para que toda a população seja beneficiária. Logo, o poder concedente do Estado tem que exigir que os concessionários coloquem ônibus nas ruas em horários de pouco movimento, mesmo com linhas deficitárias para atender a quem necessita do serviço.

Acabou o filme, o show foi ótimo, a peça divertidíssima, mas... e aquele casal ali? Desanimado, com fome, resignado. É o casal que queria jantar.

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COLUNISTA
Fernando Cabral
Desabafo de um Empresário - Formado em Publicidade e Propaganda, já trabalhou em rádio, Tv e jornal. Consultor de Marketing e professor de Comunicação.
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