Colunistas Fernando Cabral
16/12/2015 Orgânicos: O elitista direito de comer bem

Alimentos orgânicos são provavelmente mais saudáveis. Alimentos orgânicos são certamente mais caros. Alimentos orgânicos são mais nutritivos? Pode ser. Alimentos convencionais são menos nutritivos? Não mesmo. Dissertar sobre orgânicos é falar para a elite, afinal não estão à disposição de todos e nunca estarão. Falar bem da alimentação orgânica é atual, politicamente correto e até chique. Questioná-la... nem tanto.

Mas o que caracteriza exatamente o produto orgânico e o convencional? No orgânico, a não utilização de agrotóxicos, adubos químicos ou substâncias sintéticas que agridam o meio ambiente. O processo produtivo deve contemplar o uso responsável do solo, da água, do ar e dos demais recursos naturais, respeitando as relações sociais e culturais. Ótimo, bonito mesmo! No convencional, a grande produção, padronização, utilização de corretivos para o solo, químicos para evitar pragas e insumos de laboratório que aumentem a produção. Bom, não é tão bonito.

É comprovado que produção orgânica não é obrigatoriamente mais cara que a convencional, mas a lei da oferta e procura e as leis reguladoras no Brasil e mundo afora encarecem o produto orgânico. Um alimento no Brasil para ser comercializado como orgânico tem que ter certificação oficial. Apenas uma dúzia de instituições no Brasil estão credenciadas a certificar que um produto é orgânico. Ou seja, é caro e demorado. Produto orgânico é, realmente, para a elite tanto no consumo quanto na produção.

Nosso planeta ultrapassou os sete bilhões de habitantes; uma grande proporção desses ainda passa fome e, pior, não há perspectiva em curto prazo de que esse flagelo termine. No Brasil, beiramos os duzentos milhões. Isso tudo significa que precisamos de muitos alimentos para atender a todas essas pessoas. Muitos mesmo.

Os alimentos que atendem e atenderão à demanda existente não podem abrir mão dos adubos químicos, dos fertilizantes, dos inseticidas, herbicidas, dos antibióticos e até dos hormônios. Nunca serão orgânicos. Portanto, não podemos demonizar esses insumos científicos que viabilizam a humanidade. É fundamental pesquisar cada vez mais para reduzir a agressividade desses produtos e aumentar a produção de alimentos de forma a não ofender ainda mais a natureza e a saúde dos indivíduos.

As barreiras aos alimentos mais saudáveis são tantas que, por exemplo, em restaurantes, assumir publicamente a venda de produtos orgânicos é uma burocracia. O consumidor final pode comprar produto orgânico na feira, levar para casa e ter a consciência tranquila de que fez sua parte, achando – em sua feliz ignorância – que está consumindo um produto mais nutritivo. No entanto, um restaurante ou bar não pode fazer o mesmo com tanta facilidade. Se um restaurante informar que as folhas (apenas as folhas) que utiliza em suas saladas são orgânicas, estará sujeito a fiscalização específica e ainda tem que comprovar a compra de fornecedores devidamente certificados. Não se pode ir ao mercadão, procurar os produtos mais frescos e naturais e colocar à venda como se fossem orgânicos, mesmo que o produtor jure de pés juntos que aquilo é orgânico. Ou seja, a burocracia brasileira, mais uma vez, dificulta a vida do empresário e ainda restringe o acesso de pequenos produtores ao mercado profissional.

Mesmo com tantos senões, dificuldades, burocracia e altos preços, não se deve desistir. Ainda vale à pena comprar um produto orgânico, nem que seja só uma pimentinha malagueta para dar mais sabor à sua refeição. Mas também vale defender a bandeira de que a produção em larga escala tem que ser incentivada a usar meios éticos e cientificamente válidos para aumentar a oferta de alimentos saudáveis e com qualidade para toda a humanidade.

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COLUNISTA
Fernando Cabral
Desabafo de um Empresário - Formado em Publicidade e Propaganda, já trabalhou em rádio, Tv e jornal. Consultor de Marketing e professor de Comunicação.
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