Colunistas Junior Ramalho
00/00/0000 Os “UBERs” da Propaganda

O país inteiro vem debatendo a legalidade dos aplicativos digitais na prestação de serviços de transporte privado, colocando de um lado a categoria dos taxistas convencionais e, do outro, os modernos condutores dos carros pretos de luxo. O motivo da polêmica, todos sabem, está no fato de os taxistas sentirem-se ameaçados pela concorrência com esta nova categoria que oferece uma série de vantagens ao consumidor final, por não precisarem se submeter a qualquer tipo de regra, fiscalização e, consequentemente, do pagamento de taxas. Já os usuários adoraram a novidade e, na grande maioria, defendem o seu direito de escolha, a despeito de não saberem se os motoristas que os atendem são profissionais e experientes. Legal ou não, parece que a carona paga veio para ficar.

Mas o que a propaganda tem a ver com isso? Basta perguntar aos donos de agências de propaganda, gráficas, produtoras de áudio e vídeo e até alguns veículos de comunicação, devidamente estabelecidos, que certamente dirão que já vêm sentindo os efeitos da concorrência com os “Ubers” da comunicação. Muitos dos serviços que antes eram prestados por uma equipe de profissionais – experientes e formados – hoje são facilmente comprados de forma virtual, sem que haja necessidade dos profissionais das áreas de atendimento, planejamento, mídia, criação e produção. Assim, as agências de propaganda que pagam os salários desses especialistas, bem como todos os impostos gerados pelos serviços, estão perdendo inúmeros tipos de serviços e fatalmente terão que enxugar as suas equipes.

Quem navega pela internet já deve ter se deparado com banners ou links oferecendo serviços de programação visual; criação de logomarca; planos de comunicação; textos; impressão de cartões de visita e folders; criação de sites e blogs, enfim, tudo em poucos cliques, sem qualquer tipo de relacionamento pessoal e “briefings” mais aprofundados. Tudo virtual, inclusive os pagamentos, e quem compra não tem a menor ideia se quem realizou o serviço tem a necessária formação ou experiência para isso. Ou seja: uma logomarca, que normalmente era concebida por um diretor de arte, hoje pode estar sendo feita por um mecânico de motos, que tem “queda para desenho”, nas horas vagas; o spot para rádio, que era roteirizado por um redator, hoje pode ser “criado” por um grupo de amigos que estudam teatro pela manhã e se reúnem para produzir propaganda durante a noite. Sem burocracia, mas também sem técnica, sem “feeling” e sem impostos, é claro. Virou um bico.

As empresas representantes de veículos de comunicação, por exemplo, estão praticamente em extinção, já que quase todo o serviço é feito por canais virtuais, diretamente entre as revistas, rádios, jornais, painéis, cinemas e os anunciantes e agências. Ninguém precisa mais se ver, interagir ou mesmo entregar um material para veiculação. Profissionais de atendimento de veículo, também, estão perdendo suas utilidades. Há quem conteste, mas a verdade, nua e crua, é esta mesma. Ninguém mais está querendo manter equipes para fazer suas representações e pagar comissões, se a coisa pode ser feita de maneira mecânica e impessoal, por alguém que entenda um pouco de informática. No máximo, um almoço entre as partes interessadas, diretamente, de vez em quando e está tudo certo.

Claro que as tecnologias são criadas para isso: facilitar, agilizar e racionalizar custos. Os novos processos de relacionamento entre cliente e consumidor são irreversíveis e necessários. Mas onde ficam as garantias de quem estudou ou se especializou para exercer uma profissão? Será que os dias das agências de propaganda tradicionais estão contados? Afinal, quem vai querer ficar pagando impostos e se registrando em órgãos, se pode faturar mais virtual e livremente? Insisto que está passando da hora de sindicatos e associações de classe da propaganda, como um todo, refletirem e tentarem encontrar caminhos para adaptação da profissão aos novos tempos. Caso contrário, em breve, vamos ter publicitário dando porrada em agenciador sem curso, nas portas dos clientes. Para andar, vou de UBER, mas propaganda, prefiro a técnica.

 

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COLUNISTA
Junior Ramalho
Propaganda & Marketing - Sócio-Diretor da Pódio Propaganda e Marketing, responsável pelas áreas de Criação e Planejamento.
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