Destaque Entrevistas
00/00/0000 Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay
(Fotos: Arquivo)
(Fotos: Arquivo)

Ele já defendeu réus em importantes processos levados ao tribunal e é conhecido por livrar políticos da cadeia. Requisitado também por artistas, a honorários que custam caro, confidencia que cuida de muitas causas sem cobrar um centavo. Aos 53 anos de idade e 33 anos de carreira na advocacia criminal, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, afirma que não conhece o caminho do presídio e que todos têm direito de defesa. Mineiro de Patos de Minas, chegou a Brasília na década de 70 para estudar direito na UnB. Ele diz que advogar é seu vício. Nas poucas vezes em que acusou, ao invés de defender, foi no julgamento da gangue de meninos condenados por espancar até a morte Marco Antônio Velasco, em 1993. Recentemente, ganhou os holofotes ao trabalhar na defesa do marqueteiro Duda Mendonça, no julgamento do Mensalão, e do ex-senador Demóstenes Torres. Também representou a atriz Carolina Dieckmann no caso que investigou o vazamento de fotos íntimas da artista na internet. Hoje, Kakay defende o doleiro Fayed Traboulsi, um dos acusados pela Operação Miqueias, da Polícia Federal contra lavagem de dinheiro, e Adriana Villela, suspeita de ser mandante do triplo assassinato na 113 Sul.
 
Você conduziu diversas causas que tiveram grande repercussão na mídia. Considera que elas foram as mais importantes da sua carreira de advogado criminalista?
Não. Na verdade a grande causa do advogado criminal é a causa em que ele está atuando. Essa é a mais importante. O fato de estar na mídia é uma coisa negativa até, porque dificulta muito a condução do processo. Hoje nós temos o que chamamos de mídia opressiva, que faz um pré-julgamento dos casos. Eu não posso considerar que o caso mais importante é o caso que está no Jornal Nacional. Até porque eu, como advogado criminal, em muitas vezes, estou mexendo com a hipótese do cliente ser preso, apesar de raramente clientes meus terem sido presos. Eu sou advogado do Fayed Traboulsi. Quando aceitei o caso, ele disse que queria falar comigo. Fui visitá-lo na Papuda, mas não sabia o caminho de lá. A felicidade do advogado criminal é quando ele não sabe o caminho do presídio. É claro que os casos de mídia são casos que há um desgaste maior. O advogado criminal tem uma vaidade muito exacerbada. A gente tem que saber lidar com isso. Tem que ter cuidado para que a vaidade não atrapalhe na condução do processo. Já aconteceu de eu estar trabalhando em dois casos ao mesmo tempo, e por conta deles apareci dando entrevista duas vezes no Jornal Nacional no mesmo dia. E quem advoga para uma pessoa que é muito exposta, a tendência é que o caso peça também uma condução mais delicada. Porque os juízes são humanos, são pessoas como nós, e às vezes são também muito influenciados pela mídia.
 
Foi o que aconteceu no caso da Carolina Dieckmann? Além disso, na mesma época você era o responsável pelo processo do ex-senador Demóstenes Torres, acusado de envolvimento com Carlinhos Cachoeira, caso que também ganhou os holofotes dos jornais.
Naquele período específico, teve semana em que apareci oito dias seguidos no Jornal Nacional. É claro que é uma exposição que nem sempre é positiva. No caso da Carolina Dieckmann, eu brinco que foi uma exposição positiva porque ela é uma pessoa querida, uma artista. Mas minha regra não é essa. Minha regra é advogar para quem está sendo exposto de forma negativa na mídia. E nós temos hoje no Brasil um fenômeno que preocupa muito, que é uma tentativa de criminalizar a postura do advogado. O advogado é muitas vezes confundido com o cliente, e às vezes confundido até pelo crime pelo qual o cliente é acusado. O Mensalão é um caso típico. Tenho amigos que advogaram no caso que foram advertidos na rua durante o julgamento. Uma confusão absolutamente absurda. Imagine um cara exercendo a sua função, exercendo o direito de alguém e aí essa pessoa depois é criminalizada por fazer valer esse direito. É muito difícil você lidar com casos que estão expostos. Às vezes um cliente me fala: eu estou muito exposto e quero contratar um assessor de imprensa. Eu falo: olha, um bom assessor de imprensa é aquele que te tira da mídia. Quando você sai da mídia, tem condições de levar o processo de uma forma mais técnica.
 
Um caso atrapalhou o outro?
São duas coisas distintas. No caso da Carolina, como era uma causa simpática, eu tinha o público favorável. Eu estava defendendo uma atriz. Ela não foi uma exposição que prejudicou. Agora, paralelamente, na época, estava defendendo um caso em que a mídia já tinha condenado o Demóstenes. Nós temos uma tese do Demóstenes que é uma tese imperdível. Tenho plena convicção de que o Supremo vai anular o processo dele. Ele estava sendo investigado como senador da República por um juiz de primeiro grau e por um promotor que não tinha competência pra isso. Estavam investigando o Cachoeira e apareceu o Demóstenes. Tinham que mandar o caso para o STF, eles não mandaram porque não queriam perder o grande caso da vida deles e fizeram uma irrealidade ao fazer essa investigação. Eu só não consegui na época uma liminar para o processo porque a pressão da mídia era muito grande. Hoje, a pessoa mais importante do processo penal passou a ser o policial que ouve as gravações e que faz a interpretação que quer fazer. Aí depois, você tem a polícia que usa só aquilo que interessa a ela e que vaza as conversas de forma criminosa e calejada. Então todos os dias você tinha a polícia vazando um pedaço das gravações de Demóstenes.
 
Então, como os advogados criminais têm lidado com o avanço da tecnologia, das ferramentas na internet? Hoje qualquer um pode postar o que quiser na rede. Isso pode atrapalhar alguns casos “famosos”?
Depende muito do caso. O caso da Carolina Dieckmann é um exemplo interessante. Ela falou: “Kakay, eu quero é chegar aos culpados. Eu quero provar que eu não fui leviana, tenho filhos, quero provar que eu tinha essas imagens só pra mim e meu marido. Não quero indenização”. Então, foi uma questão muito pontual. Naquele mesmo dia, eu peguei os dois sites que estavam hospedando as imagens dela, fiz uma notificação pela internet dizendo que as imagens eram criminosas e que deveriam ser retiradas. Se você quer ganhar uma causa, você tem que ter um bom direito, um bom advogado técnico e, se a causa tiver visibilidade, você tem que contratar uma assessoria de mídia sobre esse aspecto. Ou você tira da mídia, que é o ideal, ou você tem que falar com a mídia. Não tem outro jeito. Muitas vezes se perde uma causa pela má interpretação que a mídia faz. Nós vivemos hoje num mundo midiático com uma série de riscos. Essa mídia agressiva é extremamente perigosa. Ela condena, ela destrói imagens, ela destrói pessoas. E é uma mídia sem rosto, onde você não consegue responsabilizar ninguém. É muito grave isso.

Uma das suas causas mais recentes é a do marqueteiro Duda Mendonça no julgamento do Mensalão. Ele foi absolvido. Qual foi a estratégia de defesa?
Esse caso do Mensalão, acompanho desde o início. Fiz vários amigos ali. Até no começo, o Zé Dirceu me chamou pra advogar pra ele, mas como eu achei que o caso ia politizar, eu indiquei um advogado que fosse ligado ao PSBD. Eu previa que haveria essa politização do caso, não tanto, mas eu previa. E depois peguei o caso do Duda, que era uma acusação de lavagem de dinheiro, de evasão de divisas. Felizmente conseguimos absolvê-lo. A defesa do Duda foi 100% técnica. Para nós, advogados do Duda, pouco importava se existia Mensalão, se não existia Mensalão. Nós tínhamos uma defesa que conseguimos fazer. O supremo analisou, concordou com ela e absolveu o Duda. Agora, dizem que os grandes processos fazem um mal enorme para o tribunal. Tem uma bandeira que venho levantando desde o início do julgamento do Mensalão. Eu acho que a TV Justiça é um grande avanço em alguns casos, para tornar mais transparente o judiciário. Mas, num processo criminal, não poderia haver transmissão ao vivo. É um absurdo. É uma espetacularização do processo. Nós ficamos cinco meses no ar e de uma forma totalmente exposta. De um ministro sendo aplaudido num bar e outros sendo vaiados. Essa não é a função do Supremo. O ministro tem que se fazer respeitar junto a seus pares, sobre seus votos que vão ficar pro resto da vida nos anais do Supremo Tribunal Federal. Entendo que essa superexposição viciou o processo e influenciou sem a menor sombra de dúvida no julgamento do Mensalão. Os ministros são humanos, não são semideuses.

\"\"\"\"

Kakay em ação (Fotos: Arquivo pessoal)

O julgamento do Mensalão terá agora uma segunda parte, depois que foram aprovados os recursos de 12 condenados. Como você avalia a posição dos ministros nesse que será um julgamento histórico do STF?
Não me sensibiliza essa história de votar pra população. O ministro José Roberto Barroso foi muito preciso quando falou: “eu não voto para o jornal de amanhã, sou um escravo da constituição e da lei”. E eu também sou. Se você fizer um processo penal com os olhos da opinião pública, é um escárnio, é um atentado ao estado democrático do direito. Aquela imagem da Justiça na frente do supremo com os olhos vendados significa que o poder judiciário não pode olhar para um lado e pro outro. Ele tem que ter independência e julgar o processo sem ver quem está sendo julgado. O que se está se propondo no Brasil, hoje, é que você tire a venda e coloque alguma coisa pra escutar melhor.
 
Você é um advogado que faz questão de se aprofundar no caso, na vida do cliente, não é?
Tenho um escritório pequeno. A cada trinta casos eu pego um. Geralmente me entrego para o caso completamente. Discutimos todas as peças. E inevitavelmente, num processo criminal, você se aproxima do cliente. Eu não admito um advogado que defende uma causa tecnicamente e fala mal do cliente num bar. Eu viro amigo até dos meus clientes, na maioria das vezes, porque é um momento muito intenso na vida da pessoa. Você tem que ter ouvidos pra escutar, tem que ter tempo pra escutar. Você está lidando com aquilo que as pessoas têm de mais caro, que é a hipótese de perder a liberdade, a exposição da honra, da vida íntima. Minha vida inteira eu fiz e faço com tesão, com paixão, e nessa hora você se aproxima mesmo das pessoas, de todos eles.
 
Hoje, você atende quantos processos no seu escritório?

Como o judiciário é muito lento, cuido de um número razoável de processos porque tenho processos de 10 anos, de 15 anos e tal. Pego muito poucos processos. Por exemplo, nesse caso do Fayed, simplesmente consegui soltar meu cliente em 10 dias. Todo mundo dizia: “ele vai ficar preso um ano, vai ficar preso seis meses”. Mas encontramos uma questão técnica... Hoje, os grandes processos, na maioria das vezes, têm uma visão puramente técnica. Eu só pego processo se eu acho que tenho defesa técnica.
 
Quem é a equipe que trabalha com você?
Tem a Rebeca, que é minha sócia há muitos anos. Está comigo há 20 anos. Tem o Pedro e o Marcelo, que são dois meninos geniais, com muita competência também. Trabalham comigo há uns cinco, seis anos. E agora tem a Lili, que começou a trabalhar no caso da Adriana Villela. Eu não quero crescer o escritório. Estou até quebrando a área física dele, mas pra ter mais espaço, mais conforto. Não vou contratar mais ninguém, meu escritório é muito pequeno.

Você comentou o caso da Adriana Villela. Sei que cuida desse caso sem cobrar honorário, de graça.
Pelo seguinte: eu acompanhava esse caso pela imprensa. Respeitava muito o pai dela e fui procurado por uma série de advogados amigos da família, que são meu amigos, e me pediram pra que eu desse uma olhada no processo. Talvez o caso seja a maior injustiça que eu tenha presenciado. Nós entramos no caso porque realmente é um escândalo. Não existe contra ela um fiapo de indício. Não é prova não, não existem indícios. É o caso que mais mobilizou o escritório nos últimos tempos. Pra mim é muito mais importante conseguir provar a inocência dessa menina do que qualquer outra coisa. Eu tenho absoluta convicção. Nos autos não existe nenhum indício contra ela. O que existe aí é uma vaidade interna da polícia. Teve até pedido de prisão de uma das delegadas. A vaidade é tanto da polícia como do Ministério Público, de não voltar atrás depois que divulgamos a falta de indícios.
 
Em uma entrevista, você afirma que já livrou da condenação uma pessoa que havia lhe confidenciado que era culpada. Ele era acusado de ter matado a esposa...
Veja só. Eu não sou juiz, nem Deus. Eu não julgo. Sou um advogado criminal. Se tenho uma defesa técnica, vou usar essa defesa. Minha visão do processo é sempre uma visão processual. Quando uma pessoa chega ao meu escritório, muitas vezes ela fala: “fiz tal coisa e meu processo é esse aqui”. Eu vou estudar pra ver se tem uma defesa técnica, se tiver eu vou pegar. Eu não critico quem advoga, mas eu não advogo nem estupro, nem tráfico, porque são casos que realmente eu não teria condições de me entregar totalmente ao processo. Agora, se a pessoa chega e me diz o que fez, me diz o que aconteceu, e consigo encontrar uma defesa técnica, advogo com a maior tranquilidade. Acho que todo mundo tem direito à defesa e o direito deve ser exercido de forma plena e absolutamente ampla. É o que eu procuro fazer.
 
Porque essa decisão de às vezes pegar casos sem cobrar nada?
Eu tenho muitos casos que eu não cobro, muito mais do que as pessoas imaginam. Recentemente, um amigo me colocou um problema que a empregada dele estava passando, que era uma questão gravíssima. Então o escritório começou a advogar pra ela. Fui procurado por esses meninos que estavam sendo processados por causa das manifestações populares. Achei que era um abuso por parte da polícia, por parte da imprensa. Também advogo pra eles de graça. Advoguei naquele caso de estudantes da UnB que foram processados por um professor. Eles me procuraram. Os honorários deles na época deram 2,7 mil reais. Eu peguei aquele dinheiro, convidei todo mundo da UnB e fomos pra um bar tomar chopp. Falei: “olha, nós temos dois mil e setecentos reais de chopp e caipirosca aqui pra tomar.” E bebemos os honorários. Eu tenho muito mais de advocacia gratuita do que as pessoas pensam.
 
E o futuro, pretende continuar como advogado criminal?
Eu sou muito procurado por grupos distintos daqui de Brasília pra entrar pra política. Mas não tenho nenhum interesse, nenhuma vontade de entrar numa dessa. E como advogado, sem faltar modéstia, consegui espaço pra falar, o que é muito mais importante do que ocupar qualquer cargo. Não tenho nenhum interesse em atuar fora da advocacia. Briguei até pela plenária do supremo. Tinha três vagas lá, e como eu era muito amigo de todos do governo, dos ministros, do presidente, vieram brincar comigo e me perguntaram se eu tinha interesse no Supremo. Eu falei que não, que o cargo que eu aceitaria é o de ex-ministro do Supremo [risos]. Eu quero é advogar. Continuar fazendo o que faço.

DEIXE UM COMENTÁRIO
TAGS
ÚLTIMAS NOTÍCIAS