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18/11/2015 Bastidores do Rock de Brasília
(foto: Marcelo Dischinger)
(foto: Marcelo Dischinger)

Em entrevista exclusiva à Revista Pepper, Loro Jones, ex-guitarrista da banda Capital Inicial, abriu o verbo. Figura conhecida em Brasília, mas nem sempre acessível, o roqueiro falou sobre seus novos projetos de trabalho e revelou: irá lançar livro intitulado “A história é outra, cumpadi” e formar banda em parceria com Kiko Zambianchi. Tudo até o fim do ano.

O livro que irá lançar fala sobre o rock dos anos 80, não é isso?
O livro, eu estou terminando, mas ainda está na fase de negociações. De definir a editora que vai fazer esse trabalho. Minha intenção é lançar até o final do ano. Mas aí, vai mudando tanta coisa... Só de sair na rua, já quero mudar algo no livro. Já cheguei a voltar no lixo, onde eu jogava as bolas de papel fora. É uma loucura. Estou falando de uma coisa que não é só da minha vida, eu acabo falando da vida dos outros também. E não quero incomodar ninguém. Falo das experiências que tive na estrada. Das amizades, das brincadeiras, do bom humor, do mau humor, das brigas. Tudo o que aconteceu durante um tempo da minha vida, eu tento colocar no livro. Sem agressividade. Embora as pessoas achem que vou jogar merda no ventilador.

Pode adiantar alguma curiosidade que você pôs no livro? Alguma história provocante?
É uma autobiografia com uma pitada de pimenta. Tem histórias que vão perturbar algumas pessoas. Por exemplo, vou falar daqueles playboys que saíram do armário. As pessoas ficam meio preocupadas porque eu vou dizer isso. Mas, ué? Tá todo mundo saindo do armário aqui, bicho. E aí você começa a perceber que o armário está cheio. Sem preconceito nenhum. Mas me assusto com uma pessoa que era metida a valentão, o malvadão, que sai do armário de um jeito... Não deixei de botar no papel. Mas não cito nome de ninguém.  Dos anos 80, falo muito das dificuldades que passamos aqui. A gente não tinha muito espaço e começamos numa época de regime militar. Fomos guerreiros mesmo. Íamos atrás, conseguíamos as coisas... Mas, na real, ninguém dava valor. No livro, eu levo isso para o lado engraçado. Com dinheiro ou sem dinheiro a gente fazia shows. Se não tinha cartaz pra divulgar, a gente pegava cartolina, cola e fazíamos em casa.

Desde quando saiu do Capital Inicial, no auge da banda, você mora numa chácara há 40 km de Brasília. Por que tomou essa decisão de mudar de vida radicalmente?
Meu filho estava com seis anos na época e eu não tinha tempo nem pra cuidar de mim. Acabava deixando ele só com a mãe. Cansei disso e falei \"thau, galera, tô saindo\". Depois de um tempo morando na chácara, acostumei a ficar sozinho. Não gosto mais de tumulto. Se eu quero tomar uma cerveja, vou num lugar mais isolado. Ou então, pego minha moto e vou voar por aí. Também tenho instrumentos espalhados pelos estúdios de ensaio daqui de Brasília pra quando fico a fim de tocar. Se não estou na chácara ou aqui, estou no Rio. Quando estava na banda, deixava de fazer um monte de coisas por causa dos compromissos. Era de aeroporto em aeroporto. Chegava numa cidade, subia no palco pra falar com a galera e acabava errando o nome da cidade. Você se dedica o tempo todo, e acaba esquecendo de você. E quando sobe à cabeça é pior. Tá ali só pelo compromisso. Sem tesão nenhum de fazer. Estar em cima do palco, olhar pro lado e ver que a pessoa que está tocando ali não está tocando de verdade, mas só esperando receber o cachê... Isso é uma coisa horrível.

Na época em que saiu do Capital Inicial, você começou um projeto com as bandas de Brasília. Deu certo? Quais são seus projetos hoje?
Eu tinha um grande amigo, que era meu sócio e parceiro de música, o Marcão Adrenalina. O projeto da gente era no começo fazer um programa de televisão. Um projeto que envolvia as bandas novas. Começamos a fazer uns testes e o Marcão faleceu. Eu acabei parando com esse projeto. Agora o conquistei de novo com outro canal de televisão. Já fiz uns cinco, seis episódios do programa, que se chama Left and Right, no canal 8 da NET. Tudo o que eu queria fazer naquela época eu estou fazendo agora.

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Loro Jones na época do Capital Inicial

E como você avalia o atual cenário musical de Brasília?
Tem muita gente boa. Tem também muita banda antiga que não teve espaço mas que continua tocando e correndo atrás. A única diferença entre a minha época e essa época das bandas novas é que hoje tem a mídia. Uma mídia muito forte. Mas as pessoas não procuram saber o que está acontecendo fora do eixo daqui. Se vai pro entorno, está acontecendo um rap aqui, um metal ali. Tá todo mundo fazendo. Mesmo tendo toda essa mídia, eles não correm atrás. Mas tem a questão do apoio também. No começo a gente toca por paixão, tesão de estar tocando. Mas se você não tem apoio de lado nenhum, vai ficar tocando na garagem a vida inteira. Cheio de ilusões, fantasias. No final, acaba frustrado porque o que queria fazer não conseguiu. Fica tocando em casa, no violãozinho, sendo que podia estar mostrando a obra dele pra todo mundo. Mas como ninguém apoia coisa nenhuma, os caras acabam abandonando e ficando lá naquela vidinha, naquele empregozinho. Todo mês aquele dinheiro caindo na conta e o lado dele artístico: deu câimbra.

Mas e a divulgação das bandas novas por meio dos investimentos do governo? Não acha que em Brasília estão dando certo os eventos gratuitos, cada vez mais presentes na cidade?
Acho que é muito dinheiro espalhado por aí, mas mal distribuído. As pessoas mandam projeto pra tal órgão, aprovam o projeto, pegam o dinheiro e fazem até um disco. Mas não existe distribuição. Saiu há pouco tempo aí, na televisão, cachês milionários pagos a pessoas que vêm tocar por meio de verbas públicas. É tudo superfaturado mesmo e isso todo mundo sabe. E tem um monte de coisa acontecendo na rua, precisando de um apoio. Tenho amigos que compõem e fazem show na Europa e que as pessoas daqui nunca nem ouviram falar. Com o Capital Inicial foi a mesma coisa, a gente teve que sair, porque aqui ninguém dava valor mesmo. Ficamos anos fora pra voltar já com uma carreira. Esses eventos de música gratuitos, o artista ganha até mais do que deveria ganhar. Mas não é só o artista que ganha. Se o cachê é de 10 mil, os 10 mil são aprovados mas a banda fica com seis mil, porque a pessoa que aprovou levou também. Teve um show gratuito que fui que tinha uma estrutura de palco linda, maravilhosa. Acho que tinha mais segurança e produção do que público. Pegam a grana, gastam com aquela porra toda mas não divulgam o evento, porque o dinheiro já está na mão. Já fui em vários, de olhar assim e falar “porra, do caralho!” Som, palco, camarim... E o público? E isso é uma coisa que incomoda. Você fica até com dó, porque os muleques estão lá tocando pra ninguém. E a maioria das vezes o que acontece é que a própria banda corre atrás pra fazer a divulgação.

E você continua tocando?
Estou com um projeto com o Kiko Zambianchi pra montar uma banda. Vamos tirar do papel agora, misturando trabalhos dele e trabalhos meus. O tecladista que vai tocar com a gente tocou comigo no acústico do Capital Inicial, que é o Aslan Gomes, um tecladista que eu gosto pra caramba. E tem o Robério Santana, que é o baixista do Camisa de Vênus. Também vai ter uma garota pra dividir vocal comigo e com o Kiko. Queremos fazer um trabalho legal e, se der certo, vai ser maravilhoso. Estamos procurando fazer uma coisa natural, nada muito radical. Outras pessoas ainda vão entrar na banda, mas por enquanto estamos vendo quem são as pessoas que vão tocar. Vamos fazer uma música legal, botar uns shows por aí e ver no que vai dar. Quero começar a tocar junto com o lançamento do livro e também pretendo lançar um DVD.

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Loro Jones e o Capital Inicial

E as músicas que vão tocar? Estão compondo canções novas?
Já tenho algumas coisas, o Kiko também tem algumas coisas. Logicamente que a gente vai usar músicas da minha época. O Kiko também vai usar dos discos antigos dele. Nesse tempo todo que estou fora do Capital, eu já criei muito, compus muito e toquei com muita gente. Agora no livro eu estou botando pra fora um monte de coisa. E com o lance do livro eu fui me tocando que tenho que botar esses projetos musicais pra fora também. Um dia, meu filho chegou e falou “pai, você é cabeça dura: qual a vantagem de ficar tocando tudo quanto é instrumento, compondo igual um doido, mas não mostrar pra ninguém?” Aí, o filho te dar uma porrada dessa na cara...

Num recente show que o Capital Inicial fez em Brasília, o público delirou quando você subiu ao palco pra tocar uma música. Já pensou em voltar pra banda? Já tiveram propostas pra voltar?
Já pensei. Dá saudade, isso com certeza. Mas acho que mudou muito a minha vida e a deles também. Fico feliz que eles estão aí numa boa. Mas imagina só, montar o Capital do jeito que saiu de Brasília, a formação original. Poderia dar muito certo como poderia dar muito errado. Todo mundo já cheio de manias. Tenho saudades, mas nunca propus nada nem eles nunca propuseram. Continuamos só na amizade.

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