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00/00/0000 Brancura tóxica: A Costa do Marfim proibiu cremes branqueadores para a pele

Clareamento da pele é um grande negócio na África. Na Nigéria, 77% das mulheresusam produtos de clareamento, mas isso também faz parte dos regimes de beleza em Togo, África do Sul, Senegal e Mali, onde 59, 35, 27 e 25% das mulheres, respectivamente, usam esses produtos.

Mas apesar de sua popularidade, muitos dos cremes de clareamento da pele contêm ingredientes que podem até matar. Com isso em mente, a Costa do Marfim proibiu cremes contendo cortisona, hidroquinona (em concentração maior de 2%), mercúrio ou vitamina A e seus derivados. Segundo as autoridades da Costa do Marfim, os riscos de saúde associados a esses cremes podem incluir aumento do risco de diabetes, hipertensão e câncer de pele, o que, devido a sua popularidade, pode transformar uma tendência de beleza em crise de saúde pública.

\"O número de pessoas mostrando efeitos colaterais causados por esses medicamentos é muito alto\", disse a autoridade farmacêutica local Christian Doudouko para oGuardian.

Produtos de clareamento da pele são imensamente populares também na Ásia, com o maior mercado global sendo a Índia, onde mais de 60% das mulheres (e um número crescente de homens) consumiram 233 toneladas métricas desses produtos, incluindo para clareamento vaginal, em 2012. Naquele ano, o mercado de mais de US$ 400 milhões dos clareadores vendeu mais que a Coca-Cola. E a tendência está crescendo no mundo todo – a uma taxa de 20% por ano na Índia e números similares em outros países.

Na Ásia, a preferência por pele clara e produtos de clareamento data de centenas a milhares de anos atrás, e é atribuída a ligação entre pele mais branca a riqueza e luxo (o que permite que a pessoa fique fora do sol). Na África, no entanto, se a prática tem raízes antigas elas são desconhecidas. Psicólogos locais descrevem a tendência como uma expressão de ódio a si mesmo e sentimento de inferioridade vindo das atitudes raciais coloniais, reforçadas por estereótipos globais e locais na mídia e propaganda agressiva da indústria de cosméticos, que associa saúde e status a pele mais clara.

\"Negros são vistos como perigosos\", disse Jackson Marcelle, uma cabeleireira congolesa que vive na África do Sul e que usa cremes de clareamento regularmente, aBBC em 2013 sobre esses estereótipos. \"É por isso que não gosto de parecer negra. As pessoas me tratam melhor agora que pareço branca.\"

A maioria dos produtos de branqueamento de grandes empresas globais, se usados com moderação, parecem ser segurosEsses cremes usam compostos testadoscomo arbutin, ácido kójico, niacinamida, ácido retinoico (derivado de vitaminas ou coisas como uva ursina e alcaçuz) para inibir a produção de melanina ou tirar camadas de pele mais escura, revelando um tom natural mais claro.

Mas muitos produtos feitos por empresas menores (e pirateados de grandes empresas de cosméticos) usam ingredientes proibidos na Costa do Marfim, produtos que tendem a ser mais baratos e efetivos, apesar de estarem ligados a problemas graves de saúde. Cortisona e esteroides similares podem deixar a pele mais fina, atrasam a cicatrização de ferimentos, causam hipertensão, criam problemas de açúcar no sangue, levam a estrias ou suprimem a produção de esteroides naturais. A hidroquinona, apesar de ser usada em altas concentrações para tratar eczema, psoríase e vitiligo, pode levar de vermelhidão e irritação a mudança permanente da cor da pele ou câncer de pele se usada sem supervisão médica. Mercúrio, um bloqueador de melanina especialmente comum, é facilmente absorvido pela pele, levando a danos cerebrais, falha de órgãos e uma variedade de cânceres se usado por longos períodos de tempo. E um novo produto, ainda não proibido na Costa do Marfim mas cada vez mais popular na Índia, a glutationa (geralmente usada por pacientes passando por quimioterapia), é associado a transtornos de tiroide e rins e necrose da pele, entre outros problemas de saúde.

Devido a falta de pesquisa sobre produtos de clareamento da pele, e a variabilidadeextrema entre os próprios produtos, é difícil fazer declarações definitivas sobre a escala dos riscos impostos por esses cremes. No entanto, na Índia, um estudo de 2014 do Centro pela Ciência e Meio Ambiente local descobriu que pelo menos 44% dos produtos nas prateleiras do país contêm materiais perigosos (32 deles continham níveis tóxicos de mercúrio). Um caso de envenenamento de 2002 em Hong Kong revelou que esses produtos contêm de 9 mil a 65 mil vezes a dose aceitáveis de mercúrio. E uma entrevista da BBC de 2000 com dermatologistas descobriu que alguns acreditam que metade de seus pacientes sofrem de problemas de pele relacionados a cremes clareadores, os quais eles usam de um a dois recipientes por dia na maior parte do corpo. Além disso, a British Skin Foundation descobriu recentemente que 16% dos dermatologistas do Reino Unido acreditam que produtos de branqueamento da pele nunca são seguros, e 80% acreditam que eles só deveriam ser usados sob supervisão médica.

Outras nações já proibiram cremes clareadores antes, incluindo Gâmbia, Gana, Quênia e África do SulEm 2006, a Agência de Alimentos e Drogas dos EUA tentou (mas não conseguiu) instituir uma proibição a todos os produtos clareadores de farmácia, mesmo aqueles com ingredientes seguros.

No entanto, essas proibições nunca foram especialmente efetivas. Na África, o mercado negro mantém um fornecimento estável de produtos de clareamento para mercados locais, visando saciar a demanda de consumidores inconscientes ou indiferentes ao perigo. E mesmo nos EUA, a enorme escala de cosméticos importados mal rotulados supera os inspetores – em 2010, o Chicago Tribune investigou 50 cremes de farmácia e vendidos online, revelando que 10% continham níveis inaceitáveis de mercúrio.

O precedente sugere que meras proibições, como a promovida pela Costa do Marfim recentemente, não serão suficientes para superar os perigos dos produtos de clareamento da pele. Os países terão que cortar a enorme demanda que incentiva a criação e importação de cosméticos baratos e perigosos. Há sinais de que tais medidas estão entrando em vigor na Índia, onde atrizes de Bollywood lançaram a campanha Dark Is Beautiful em 2013, e onde o autorregulado Conselho de Padrões de Propaganda da Índia decidiu proibir publicidade retratando pele escura como negativa ou inferior em 2014. Mas se essas medidas vão conseguir derrubar o enorme mercado de clareamento de pele da nação e se provar exportável para outras nações, como a Costa do Marfim, ainda não se sabe.

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Tradução: Marina Schnoor

 

Fonte: Vice

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