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00/00/0000 Brasília com personalidade adquirida
Júlia Hormann (Arquivo Pessoal)
Júlia Hormann (Arquivo Pessoal)

Brasília é um mosaico de várias culturas. Hoje, florescem na cidade vários segmentos do entretenimento genuinamente locais e alguns fortemente inclinados com o ideal da ocupação do espaço público para dar vida a esta cidade monumental. A frente de umas dessas iniciativas é a publicitária Julia Hormann, 27 anos. Personagem ativa da cena brasiliense, ela apresenta um ponto de vista de como os netos dos candangos já estão praticando a cidade.

Júlia, por favor, contextualize o momento vivido pela capital da República.
Julia Hormann – Bom, podemos dizer que antes Brasília era muito “carão”. O nosso urbanismo diferenciado gerou um choque nas pessoas oriundas de diferentes lugares que aqui chegaram e começaram a conviver entre si. Não havia uma liga, um orgulho de ser daqui, pelo contrário, sempre foi um pesar em seus habitantes estarem longe de sua terra natal. Hoje a cidade vive um momento muito especial, primeiro por viver o orgulho brasiliense, seguido pelo fato de que estamos aprendendo a utilizar a cidade.

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(Arquivo Pessoal)

Fale mais sobre isso.
Dez anos atrás, as referências positivas de cidades eram São Paulo, Belo Horizonte ou Rio de Janeiro, enquanto aqui era um deserto sem nada para fazer. Hoje há uma geração de pessoas incríveis com capacidade de produção, originalidade e criatividade que estão começando a aparecer e refletir. Antes não tínhamos autoestima trabalhada e hoje começamos a nos enxergar melhor. Nesse ínterim já não precisamos buscar referências ou know-how que venham de fora. Meus eventos, por exemplo, não tiveram influências externas.

Quais os eventos que você organiza?
Picnik, Quitutes, Tutti Fruti e Zoo. O primeiro é um evento com um mercadinho de arte, moda e gastronomia de pessoas da nossa cidade. Realizado bimestralmente, sua primeira edição foi no Calçadão da Asa Norte e hoje estamos na 13ª edição. Já o Quitutes é um evento de gastronomia onde oferecemos pratos de grandes chefs e novos talentos por preços módicos, que variam entre R$ 5 e R$ 20. Este ocorre três vezes ao ano. Já o Tutti Fruti é uma festa mensal que mistura música e gastronomia. Festa temática que teve uma vez, por exemplo, como tema Alice no País das Maravilhas. Para essa festa, criamos toda uma atmosfera com comidinhas e músicas que remetiam ao universo idealizado por Lewis Carroll. É uma balada itinerante que já ocorreu na Asa Norte, Caraíva (BA), Pirenópolis (GO) e até na minha casa. Por fim, a Zoo é um convite para trazer os bichinhos de estimação. Uma feirinha para pets com show de bandas. Lá você pode encontrar comida vegana ou cup cakes para os cachorros.

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(Foto: Amanda Goes)

Podemos perceber traços comuns em seus eventos: utilização do espaço público, feirinhas e a música. Procede?
Sim. Vamos por partes. Hoje já contamos com infraestrutura própria para realizar eventos ao ar livre. E já comemoramos ter conseguido realizar eventos em locais considerados “tesouros da cidade” por nós como Funarte, Jardim Botânico e Ermida Dom Bosco. Em relação às feirinhas, gosto desse formato porque considero uma característica bem forte da cidade. A música é um fator ativo dentro do evento. Ela não é coadjuvante, pelo contrário, ela que dá a cadência do evento. Você faz uma programação musical em associação ao público presente.

Qual o público que você atinge? E quais as impressões de quem vem de fora da cidade?
Antes era considerado bastante alternativo, mas o público família está cada vez mais presente. Sobre os visitantes, posso falar que uma vez trouxemos um DJ de São Paulo que nos disse que sua cidade precisa de eventos como os nossos. Enquanto a gente pensava que Sampa estava a anos-luz da nossa frente.

Qual o tratamento dado ao lixo produzido no evento? Há preocupação com a sustentabilidade, digo, reciclagem dos resíduos sólidos e lixo tecnológico?
Sinceramente não vejo uma estrutura eficiente para reciclagem em Brasília. Mas limpamos os locais antes e depois dos eventos. No próprio Jardim Botânico tivemos receio de que o número elevado de visitantes poderia produzir algum impacto no local, mas deixamos o espaço limpo e hoje eles vivem nos convidando para voltar.

Seus eventos já geraram conflitos com certos setores da sociedade?
Já houve embate com alguns moradores do Lago Norte porque eles queriam cercar e limitar o acesso ao Calçadão da Asa Norte. Eles fizeram um abaixo-assinado e recolheram 2 mil assinaturas. Eu pedi orientação ao governo e eles me orientaram a realizar outro abaixo assinado, onde recolhemos 5 mil assinaturas. Mas sinceramente estes moradores não entenderam que não queremos badernas. Nosso evento é diurno e termina às 22h. O argumento para quem está do outro lado do lago é que perturbamos a paz do local, mas nossa festa promove meditação e esportes em geral, e o cara vem me dizer que nós somos perturbadores? Nossa política coíbe o uso de drogas e deixamos isso bem claro. Eu mesma, nem beber, bebo.

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(Foto: Amanda Goes)

Você acredita que nesses embates há um confronto entre gerações?
Continuamos descobrindo novas formas de utilizar esta cidade ampla e cheia de gramados. Sim, realmente é uma geração nova versus uma antiga que não aprova esse novo padrão de comportamento. Conflitos são naturais, mas é hora de quebrar barreiras, senão nunca conseguiremos mudar paradigmas da cidade. O calçadão foi um convite da própria administração da cidade para utilizar aquele local porque ele andava mal frequentado. E ressalto que, como você havia me perguntado, nós sempre deixamos o local limpo.

Você se considera um mecenas, ou seja, uma patrocinadora da cultura local?
De forma alguma. Eu me considero mais como um canal de distribuição. Realmente tem muita arte, mas o meu papel é montar uma infraestrutura agradável.

Em sua relação com patrocinadores, você já sentiu coagida para descaracterizar sua obra por conta de um financiamento?
Realmente houve alguns patrocinadores que tentaram mudar alguma coisa na estrutura dos nossos eventos. E já perdemos fontes de renda por conta disso. Outros patrocinadores vieram a calhar. Não vou vender meu projeto, não é assim. Queremos agregar, pois temos um público muito crítico e não podemos deixar que marcas imponham suas condições de maneira agressiva. Porque não fica alinhado conosco modificar um dos maiores prazeres das nossas vidas.

Seus eventos são como filhos?
(Rindo). O Quitutes mesmo é como um filho, que fizemos com muito carinho e ficou grande, e hoje vemos ele tomando personalidade fora do nosso controle.

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(Arquivo Pessoal)

É um trabalho remunerado ou voluntário?
Passamos dois anos gastando dinheiro e começamos sem retorno. Mas está começando a gerar um troquinho. Coisa pequena. Mas viso sim que ele se torne rentável, pois dedico muito tempo da minha vida para realizar estes eventos e é um trabalho pesado, portanto acho justo eu e equipe ganhar alguma remuneração. Mas em cima do expositor nunca, quero deixar bem claro.

Finalizando e voltando ao tema feirinhas, seus eventos são para se gastar?
Muito cuidado ao dizer isso. O Picnik mesmo, como o nome sugere, é para você deitar sua toalha e trazer seus lanchinhos de casa. Eu incentivo as pessoas a fazerem isso. E isso não confronta em nada com a ideia de trazermos chefs da cidade.

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(Foto: Amanda Goes)

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