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Henrique Almeida (Foto: Pedro Wolff)
Henrique Almeida (Foto: Pedro Wolff)

Provavelmente o pôquer é o jogo de cartas mais popular do mundo. Injustamente ou justamente, é chamado de “o jogo da trapaça”. Em Brasília existem estabelecimentos onde ele pode ser jogado sem problema com as autoridades. A entrevista da Revista Pepper deste mês é com o empresário Henrique Almeida, 28 anos. Ele é um dos proprietários do clube de pôquer NL Texas Clube e conta sobre sua atividade.

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(Foto: Pedro Wolff)

Revista Pepper – A primeira coisa que vem à cabeça quando se pensa em uma casa onde ocorre pôquer é de que se trata de um estabelecimento ilegal. Afinal, ele é um jogo de azar?

Henrique Almeida – Eu uso o termo para descrever o esporte como um “jogo da mente”. Porque ele requer habilidades e não depende exclusivamente da sorte. Há um sem número de pesquisas acadêmicas que provam que ele é um jogo de habilidades. A própria Unicamp, em São Paulo, tem uma aula optativa de Fundamentos do Pôquer para os alunos de ciências aplicadas. Muito mais que a própria sorte, o jogo depende de estratégia, psicologia e majoritariamente de probabilidade. Sorte também existe, mas não é prioritária. Nós trabalhamos da mesma maneira que um campeonato de xadrez, onde pessoas disputam entre si e no final há uma premiação em dinheiro. No sistema de campeonato, não há apostas em dinheiro. O concorrente paga uma inscrição e recebe um número de fichas. 
 
R.P.E como foi para você e seus sócios explicar isso para as autoridades para poder gerir um clube onde se promove um jogo de cartas que envolve dinheiro?

H.A. – Antes de abrir a casa, a Federação Brasiliense de Pôquer (FBP) e demais interessados realizaram um trabalho de pesquisa que durou cerca de seis meses. O resultado é uma compilação de mais de 200 páginas de pesquisas acadêmicas que provam que o jogo não é de azar, mas sim de habilidades. Apresentamos esse “dossiê” para as autoridades e obtivemos alvará. Esta compilação nos serve como um meio de proteção contra eventuais insinuações.

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(Henrique Almeida, 28 anos Foto: Pedro Wolff)

R.P. – Você garante a legalidade do jogo. Mas por que mesmo assim ele é estigmatizado pela sociedade?
 
H.A. – O esporte é muito antigo. São comuns nas famílias histórias onde nossas bisavós contam sobre um tio que perdeu casa, família e tudo na jogatina. Antigamente realmente o pôquer era obscuro. Era jogado em casas fechadas, aonde as pessoas iam perdendo dinheiro sem controle e acabavam gerando dividendos que poderiam deslanchar em coisas piores. Hoje as coisas são diferentes, pois uma empresa gerencia e tudo é transparente. E é impossível perder uma casa ou carro porque as únicas apostas são em fichas.
 
R.P. – Mas isso não impede uma pessoa de vender seu carro para poder pagar fichas. Há relatos das extintas casas de bingo de pessoas que tiveram que ir para clínicas de reabilitação por conta do vício.

 
H.A. – Vamos por partes para não sermos injustos. No bingo você não tem controle algum do que será sorteado. No pôquer estilo Texas Hold\'em, por exemplo, você recebe duas cartas. E geralmente, em 80% das vezes, as pessoas não concluem todas as rodadas. Você tem controle do jogo e não depende exclusivamente da sorte, mas da sua habilidade de fazer o outro desistir. Porém como quaisquer outras atividades do gênero têm que ter cuidado para não viciar e deve ter auto bom senso para saber jogar de maneira salutar.

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(Foto: Henrique Almeida)

R.P. – Hoje no Brasil é possível uma pessoa viver só de pôquer? Se sim, quanto se ganha em média?

H.A. – No Brasil esse número vai à casa das centenas e em Brasília creio ser algo em torno de 20 pessoas que vivem exclusivamente da atividade. Mas jogam a maioria das vezes pela internet. Quanto ao valor é difícil mensurar. Mas tirando a média anual, um jogador deve receber entre R$ 80 mil e R$ 1 milhão. Falando em valores, nossos torneios podem dar como premiação de R$ 20 mil a R$ 120 mil. Mas esses valores são diluídos em até 30 pessoas.

R.P. – Como são os torneios e quais os mecanismos antitrapaça para resguardar os participantes?


A.H. – Bom, há os torneios amadores e os que são classificatórios para os maiores. Os torneios profissionais duram cerca de três dias com 8 horas/dia, com quatro intervalos de 20 minutos. No torneio não pode haver falhas; logo, quando se está com as cartas nas mãos não pode falar para induzir jogadas, estando sujeito a penalizações. Os baralhos são padrão e deslacrados na hora. O crupiê, ou banqueiro do jogo, abre o baralho na mesa para todos conferirem que o jogo está completo. Depois é embaralhado. Caso alguém desconfie de carta marcada, pode pedir para trocar o baralho. Além das câmeras de monitoramento, o próprio crupiê é um fiscal antitrapaça. Para reforçar a vigilância, o diretor do torneio fica andando entre as mesas procurando eventuais situações estranhas e resolvendo questões imediatas.
 
R.P. – Como o crupiê deve embaralhar as cartas?

H.A. – O padrão para embaralhar e não deixar o baralho viciado é fazer três vezes o embaralhamento tradicional de dividir o baralho nas duas mãos e com o polegar unir os dois montes. Seguido de três cortes, mais duas embaralhadas, para enfim realizar o corte seco. E de duas em duas rodadas o embaralhamento é outro. Todas as cartas são espalhadas em cima da mesa e com as duas mãos misturam-se as cartas.
 
R.P. – Na sua definição, o que é uma poker face?

H.A. – É quando você faz uma aposta e entre as probabilidades tem que reparar como a pessoa se porta diante das ações ocorridas na mesa. Poker face é a falta de expressão que o jogador faz para não passar nenhuma informação acerca da sua mão. Sobre o tema, há um livro de um campeão da modalidade que conta como as pessoas devem se portar. Ele ensina como avaliar as fraquezas e vantagens dos jogadores analisando, entre outras coisas, a maneira como as pessoas jogam as fichas e sua maneira de sentar.

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(Foto: Henrique Almeida)

R.P. – Com anos de NL Texas Clube, os frequentadores já devem ter uma familiaridade com o jogo e entre eles mesmos. Quais termos eles utilizam entre si?

H.A. – Essa é até engraçada, mas com a familiaridade no jogo, várias mãos já ganharam apelidos. Quando se tem um rei e um valete, a mão se chama “fundador”, devido às iniciais do Juscelino Kubitschek. Um dez e três é o nosso querido “Zagalo”. Nove e três se chama “Chuck Norris” porque somente ele iria ganhar. Dois noves é “Ronaldo”. Quando as cartas são dois e três, o nome da mão é “Nelson Ned”. E, por fim, dois reis na mão é um “barbudo”.

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(Foto: Henrique Almeida)

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