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05/06/2019 correio Braziliense Cidade que acolhe: Taguatinga comemora 61 anos nesta quarta-feira Conheça as boas lembranças de taguatinguenses que mantêm o orgulho de viver em um dos principais centros urbanos do Distrito Federal, criado por brasileiros sonhadores em busca de uma vida melhor
A história de Taguatinga é um grande mosaico de histórias de pessoas que saíram de outras cidades para fazer parte da construção da nova capital. À época, a decisão era ficar por um tempo. Com o decorrer dos anos, passaram a constituir família, fizeram amigos e, agora, não trocam a região por nada. Nesta quarta-feira (5/6), a cidade completa 61 anos e, apesar de ter mudado ao longo das mais de seis décadas de existência, algumas tradições são mantidas. Outros costumes, no entanto, permanecem apenas na memória.
 
Fundada em 5 de junho de 1958, em terras do município de Luziânia (GO), na propriedade de uma fazenda que deu seu nome, Taguatinga é um dos maiores centros urbanos do Distrito Federal e carrega histórias marcantes dos primeiros moradores e dos nascidos na cidade.
 

Wellington Neves: ''Gosto muito daqui. Tem de tudo e é muito bacana''(foto: Vinícius Cardoso Vieira/CB/D.A. Press)
O comerciante Wellington Neves, 55, nasceu, em 1964, no Hospital São Vicente de Paula, o atual HPAP. Os anos se passaram, ele se casou e, mesmo assim, nunca pensou em sair da cidade. “Gosto muito daqui. Tem de tudo e é muito bacana. Minha esposa também ama a cidade. Não temos motivos para ir embora”, destaca. Desde que os pais saíram de Minas Gerais para formar família na nova capital do país, o candango mora no mesmo local, QNE 20.
 
Há três anos, os vizinhos, amigos mais próximos e antigos na região se reúnem para o encontro dos pioneiros. “A gente lembra das coisas que vivemos, de como nossa cidade era antes e como vivemos hoje. As coisas mudaram, mas o amor de todos pela cidade continua. É algo impressionante”, ressalta.

Dos lugares que frequentava na juventude, as principais e melhores lembranças são do Clube Primavera. “Na época, meu pai tinha uma fábrica de tijolos. E os títulos dos clubes eram muito caros. Como a gente tinha o desejo de frequentar aquele lugar tão lindo e falado, meu pai decidiu comprar títulos em troca de tijolos. Por sorte, o clube ainda estava com obras de ampliação, ele fazia essas trocas e a gente passou frequentá-lo”.
 
Embora a história pessoal se misture com a de Taguatinga, o destino ainda levou Wellington para um dos lugares memoráveis da cidade. Hoje, ele trabalha na primeira banca de revista da região, construída por dona Corina, localizada em frente onde era o Bar Estrela, outro ponto badalado da região nas décadas passadas. “Ouvi muito falar da dona Corina. Infelizmente, não cheguei a conhecê-la, mas sei de sua importância para a cidade. O Bar Estrela é conhecido até pelos mais jovens. Ficava próximo ao cruzamento do centro de Taguatinga. Era, realmente, um point dos jovens da época”.
 

Barracos


Geraldo Pereira: "Tinha muitos barracos espalhados, poeira para todos os lados"(foto: Vinícius Cardoso Vieira/CB/D.A. Press)
O microempresário Geraldo Pereira, 81 anos, chegou a Taguatinga em 31 de janeiro de 1959. Para ele, aquela virada do ano ganhou um gosto especial: o início de uma nova vida. Mesmo após 60 anos, as lembranças permanecem frescas na memória do pioneiro. “Lembro-me como se fosse hoje. Tinha muitos barracos espalhados, poeira para todos os lados. Parecia um verdadeiro brejo”, conta.
 
Geraldo morou de 1962 a 2015 na mesma residência. Hoje, está na vizinha Águas Claras. Mas o carinho e a gratidão por Taguatinga permanecem. Tanto que o comércio do qual é proprietário, um armarinho, fica na Praça do DI, em Taguatinga Norte.  “Só não digo que sinto saudades porque estou aqui todos os dias. Tudo mudou do início da cidade para hoje em dia. Antes a gente podia andar sozinho nas ruas e até tarde, sem hora para voltar para casa. Não acontecia, não tinha risco nenhum”, lembra. Agora, virou cidade grande, com todos os problemas recorrentes.

Um dos lugares que mais marcou o microempresário na época da juventude foi o Clube dos 200, em Taguatinga Sul. O extinto local era palco das principais festas e eventos da região. Recebeu shows, bailes de carnaval e até desfiles importantes. “Era um bom lugar para dança”, relata.

Na Comercial Norte havia a primeira farmácia de Taguatinga, a Virgem da Vitória. Ela continua no mesmo lugar desde a fundação, em 1959. Apesar de os fundadores terem falecido há mais de 30 anos, o nome da loja ainda é forte na região. O empresário Marcos Silveira, 52, ressalta que o estabelecimento é um ponto de referência na cidade. “Ninguém conhece essa travessia aqui pelo nome, mas quando se fala o nome da farmácia, todo mundo sabe onde é”, conta.


Primeiras casas

 
Entre idas e voltas, Célia Matsunaga continua morando na cidade onde cresceu. Filha de imigrante japonês, ela se mudou de Araçatuba (SP) para Taguatinga com apenas 1 ano. “Só tinha três casas em toda Taguatinga Sul. Quatro, com a minha”, recorda-se a professora universitária, que morou numa casa de madeira situada onde, hoje, fica o Alameda Shopping. Sem ter onde brincar na região quase virgem, divertia-se nas calhas destinadas à construção de esgoto. “Tudo era barro”, conta a pioneira aos risos. Depois de adulta, viveu em outras localidades do DF. Mas voltou para Taguatinga. “Minha família tem um vínculo muito forte com a cidade”, garante.

Assim como Célia, Regina de Oliveira morou numa residência de madeira. “Raras não eram de madeira”, assegura. Os pais dela, nordestinos, se mudaram para lá em busca de oportunidades. “Eles queriam melhorar a vida. E a cidade estava apenas começando”, lembra. Atual moradora da Asa Sul, a assistente administrativa de 57 anos guarda a cidade onde nasceu com carinho na memória. Suas lembranças mais doces estão nas sessões de Tarzan no Cine Lara e no Cine Rex; nos bailes do Clube dos 200 e nas descidas no carrinho de rolimã pelos asfaltos recém-construídos da então jovem Taguatinga.


Regina de Oliveira gosta das feiras na Praça do Bicalho e na do Cine Rex(foto: Arquivo Pessoal)
Muito ligada à cidade, Regina visita Taguatinga sempre nos fins de semana. Alterna entre a Vila Matias, aos sábados, e a Praça do Bicalho, aos domingos. São dias de feira livre. “Se eu não for num dia, vou no outro”, explica. Para ela, a cidade ficou muito forte comercialmente e mantém um pouco a calma do passado. “Não acho que mudou de forma negativa. Sinto certa nostalgia, é claro. Sinto falta dos lugares da minha infância que não existem mais. Mas é uma cidade que continua muito interessante. Principalmente do ponto de vista comercial”, observa.

Convivência


Luciana Ribeiro: evento para presentear os artistas e a comunidade(foto: Caroline Cintra/CB/D.A Press)
Nascida e criada em 1980, a produtora Luciana Ribeiro, 39, é mais uma apaixonada por Taguatinga. Quando se fala o nome da cidade, logo ela lembra da infância e adolescência na Praça do DI, onde morou por muitos anos com os pais. Os passeios com os amigos da escola e de vizinhança pelo local ainda lhe arrancam sorrisos e suspiros. “Até hoje tenho fotos de lá. Na época de estudante, a gente ia para a praça, tocava violão e comia o cachorro-quente do Léo. Não tem como esquecer”, destaca.

Hoje, seu lugar preferido é o Taguaparque, no Pistão Norte. “Quando estava mais livre, caminhava lá todos os dias. É um lugar que enriquece a convivência entre as pessoas que moram em Taguatinga. Eu amo essa cidade”.
O carinho é tamanho que a produtora está organizando uma feira cultural. O Domingo Bom! será lançado no dia 16, no Taguaparque. O intuito é que o evento seja realizado no segundo domingo de cada mês, com a exposição de obras de artistas da cidade, piquenique, barraquinhas diversas e food trucks. O lançamento do projeto no mês de aniversário da cidade é proposital. “É uma forma de presentear Taguatinga e os artistas daqui. A ideia é dar espaço para eles, sem cobrar nada”, disse.

A cultura em primeiro lugar

Jaile de Assis Ricardo faz parte daquele seleto grupo de empreendedores taguatinguenses preocupados com a comunidade que o cerca e, principalmente, com a cultura. Conhecido como Kareka, ele mora em Brasília desde 1969 e é proprietário do tradicional Kareka’s Bar, na Comercial Norte (QND 14).

 

 


Jaile Ricardo: "É necessário que a arte seja orgânica, que faça parte do cotidiano dos taguatinguenses". Na foto acima, Luiz Melodia, em 1982, visitando o tradicional bar. Imagem clicada pelo fotógrafo taguatinguense Ivaldo Cavalcante, da Galeria Olho de Águia(foto: Vinicius Cardoso Vieira/CB/D.A Press)

 

 

 
Pelo local passaram e passam artistas dos mais variados gêneros, da MPB ao rock. Nomes como Vander Lee, João Suplicy, Paulinho Pedra Azul, Nasi, Jorge Mautner e Nelson Jacobina se misturam com gente de casa, que mantém carreira consolidada nas noites da cidade. De Gerson Deveras a Bruno Z, Branco Seixas, Ellen Oléria, Alexandre Partes, Beto Sampaio e Paulo Verissimo, para citar alguns dos que marcaram presença no palco do lugar. Duas gerações de fregueses, pelo menos, convivem no amplo espaço para shows — a casa tem agenda cheia todos os meses.
 
Como era a cena cultural de Taguatinga nos anos 1970?
Muito mais pulsante, apesar dos poucos equipamentos e espaços à disposição. A galera literalmente botava a arte na rua. Os grupos de artistas ocupavam toda a cidade, independentemente do local, de coretos a praças. Mesmo sem recursos, se fazia muita coisa.
 
O que mudou para os dias de hoje?
Hoje, as informações circulam mais, porém, há poucas ocupações de praças, por exemplo. A arte precisa chegar às pessoas não só pela internet, é necessário que ela seja orgânica, que faça parte do cotidiano dos taguatinguenses. É importante também a ampliação de políticas públicas que alcancem a população e que façam circular renda na região.
 
É verdade que a cidade teve um dos primeiros grupos teatrais do DF?
Sim. Conversando com o ator e produtor Bené Setenta (Manuel Benevides Filho), ele enfatizou que o grupo Grutta foi o primeiro da capital. Os atores chegaram a encenar a peça Morte e Vida Severina no Teatro Nacional. Com essa peça, fizeram uma excursão por alguns estados.
 
Na época das festas do então Clube dos 200, quais eram as bandas que animavam os bailes?
Todas as bandas da cidade, como Raulino e seus Big Boys, além do Élson 7. Até o movimento da black music, os caras dançavam divinamente bem. A Sarro Disco Show era quem dominava as picapes das domingueiras. Os Pholhas também fizeram um show marcante no Clube dos 200.
 
A diversidade e a resistência cultural são marcas de Taguatinga desde o começo. O que a cidade precisa hoje para se consolidar como polo cultural?
Precisamos de possibilidades culturais, com um calendário anual de atividades para ocupar espaços como o Teatro da Praça, as salas do Sesc e do Sesi e o Taguaparque, que é um espaço excelente de multiatividades. Mas o principal é a presença efetiva da comunidade. Que ela entenda que cultura é afirmação de identidade, de pertencimento.

Memória de um pioneiro

Getúlio Romão: imagens de uma história que recomeça a cada dia(foto: Vinícius Cardoso Vieira/CB/D.A. Press)
 
“Minha raiz em Taguatinga está muito profunda. Jamais vou mudar, jamais sairei daqui”. A frase é do pioneiro Getúlio Romão. Apaixonado pela cidade, o fotógrafo e corretor de imóveis lançou um livro em homenagem aos 58 anos de Taguatinga, em 2016. Na obra Retratos e memórias, ele expõe 770 imagens da cidade desde o começo. De 1963 a 1975, Romão foi fotógrafo do Correio Braziliense, onde era setorista de Taguatinga.

“Eu me tornei o fotógrafo da cidade para o jornal. Vinha todos os dias para cá e sempre tinha história nova para contar. Fotografei bailes, festas de carnaval, momentos bons da cidade. Mas registrei também problemas que a região enfrentou e ainda enfrenta nos dias de hoje”, destaca Romão.

Em seu escritório, o amor pela cidade está revelado nas inúmeras fotografias espalhadas nas paredes, mesas e álbuns montados por ele mesmo. No ano passado, em homenagem aos 60 anos de Taguatinga, fez um álbum de fotos de antes e depois de pontos importantes da cidade, como as avenidas comerciais Norte e Sul, a via Hélio Prates, a Praça do Relógio, entre outros.

O pioneiro chegou à cidade em 1960. Veio com a família, de Minas Gerais, em um ônibus próprio. O mais velho de seis filhos começou a trabalhar com o pai aos 10 anos. A vinda para a capital surgiu de um convite do amigo da família José Gonçalves Coelho, que mais tarde se tornou administrador de Taguatinga e presidente da Associação Comercial e Industrial da cidade (Acit). Romão cursou o antigo segundo grau no Centro de Ensino Médio Ave Branca (Cemab) e graduou-se em arquitetura na Universidade de Brasília (UnB), no entanto não chegou a seguir carreira. A fotografia tornou-se uma das suas grandes paixões.

A ideia de colocar os registros do desenvolvimento da cidade em um livro foi da amiga e também pioneira Cléia Gerin. “Ela me convenceu a escrever uma obra que expusesse a minha experiência como fotógrafo e testemunha no desenvolvimento da cidade que ajudei a construir”, relata.

Inspiração

A professora aposentada Cléia Gerin, 68, é idealizadora e administradora do grupo Pioneiros de Taguatinga no Facebook. Ela conta que leu um livro sobre personalidades da região e, quando percebeu a quantidade de pessoas que fizeram história, decidiu criar o grupo, em 2011. Além da história, ao terminar a leitura da obra, uma surpresa. “Hoje, são milhares de pessoas participando”, afirma.

Para Romão, o apoio da amiga o inspirou a escrever mais quatro volumes de Retratos e memórias. A próxima obra deve ser publicada ano que vem, com a história dos clubes sociais de Taguatinga. “São espaços que fazem parte da nossa história. Tenho muitos registros de todos eles. Espero viver bastante para completar essas obras”.

Histórias de Romão 

Avenida comercial
1966 —  À época, tinha em mim a vontade de registrar o desenvolvimento da cidade a cada instante. A Avenida Comercial Norte, ainda engatinhando, era a única opção de comércio da cidade.
 
Carnaval Clube dos 200
1973 — Depois que comecei a registrar momentos com as mais diversas lentes de minha câmera Pentax, não parei mais. Cobrir as festas sociais em clubes era, para mim, motivo de muita satisfação. Eternizei, nos salões da cidade, a alegria de amigos e amigas.
 
Clube Primavera
1984 – Acompanhei e registrei o surgimento dos quatro grandes clubes da cidade. O Primavera era um dos mais badalados. Nos dias de sol, lá estava eu clicando o encontro da sociedade de Taguatinga. Assim como vi seu nascimento e apogeu, também presenciei e registrei o seu declínio.

Programe-se

O aniversário de Taguatinga é nesta quarta-feira (5/6), mas as comemorações ocorrerão durante todo o mês. Moradores da cidade poderão celebrar com várias atividades comemorativas programadas, como Pentecostes, Noite Sertaneja, evento do Meio Ambiente e Show da banda Natiruts. Confira a programação completa:

Nesta quarta-feira (5/6):
 
9h — Solenidade em frente à Administração Regional de Taguatinga
 
20h30 — Bate-papo com Marcos Martins (diretor e produtor cultural) no Kareka’s Bar (QND 14, Comercial Norte)
 
21h —  Aniversário de Taguá 61 (Mesa de petiscos) no Kareka’s Bar
 
21h30 —  Forró com Rene Bomfim e Caco de Cuia, com participação especial: Natinho e Diró Nolasco no Kareka’s Bar
 
Nesta quinta-feira (6/6):
 
21h — Documentário Poesia do barro e show Cantorias com Paulo Matrikó no Kareka’s Bar
 
Sexta-feira (7/6): 
 
19h — Pentecostes no Taguaparque
 
Sábado (8/6):
 
19h — Noite Sertaneja —  Lions Brasília, Taguatinga (AE QNG)
 
Quinta-feira (13/6):
 
19h —  Posse do Conselho de Mulheres Cristãs do Brasil no Supremum Event Center
 
Sábado (15/6):
 
19h — Entrega do parquinho no Taguaparque pelo Sabin
 
Domingo (16/6):
 
9h —  Passeio de motociclistas com plantio de Ipês no Pistão Norte
 
10h —  Domingo Bom! Feira, Cultura e Piquenique no Taguaparque
 
Sábado (29/6):
 
16h30 — Show do Natiruts no Taguaparque
 
Domingo (30/6):
 
9h às 12h e 16h às 22h — Encerramento das comemorações do aniversário e dia cultural no Taguaparque 
 
*Estagiários sob supervisão de José Carlos Vieira

 

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