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00/00/0000 Em busca da pimenta perfeita
PARECE INOFENSIVA: MUDA DA CAROLINA REAPER, PIMENTA QUE ENTROU NO GUINNESS NO INÃ?CIO DESTE ANO POR SER CONSIDERADA A MAIS ARDIDA DO MUNDO (FOTO: REVISTA GALILEU)
PARECE INOFENSIVA: MUDA DA CAROLINA REAPER, PIMENTA QUE ENTROU NO GUINNESS NO INÃ?CIO DESTE ANO POR SER CONSIDERADA A MAIS ARDIDA DO MUNDO (FOTO: REVISTA GALILEU)

É como se o inferno estivesse concentrado na boca. Depois de morder um pequeno pedaço da pimenta bhutjolokia os olhos ficam vermelhos, o alto da cabeça começa a formigar, os lábios adormecem, a respiração acelera e até pensar fica mais difícil. O simples contato com a pele do rosto basta para uma experiência traumática que dura horas, envolve uma série de banhos e faz a pessoa se perguntar se é preciso ir ao hospital para acabar com aquela sensação.

Considerada a quinta mais forte do mundo, a bhutjolokia é resultado de uma corrida que ganhou força nos últimos tempos: a busca pela pimenta mais ardida. O recorde mundial foi quebrado no início deste ano, quando o americano Ed Currie criou a Carolina Reaper. Reconhecida pelo livro Guinness dos recordes, ela tem 2,2 milhões de unidades na escala de Scoville, que mede o ardor das pimentas. O Brasil entrou nessa disputa em março, com a jandaia laranja e a juruti. Criadas no laboratório da Embrapa Hortaliças em Brasília, elas têm entre 200 e 300 mil unidades de Scoville e ocupam o décimo lugar no ranking.

As duas espécies brasileiras são um exemplo de como a ciência tem sido usada para tornar as pimentas mais picantes ou para melhorá-las. Ambas são derivadas da habanero, uma espécie da América Central que chega a 500 mil unidades de Scoville. O processo de cruzamento de espécies de cada uma levou oito anos, custou até R$ 2 milhões em desenvolvimento e incluiu, além do processo tradicional de seleção de sementes, a análise de DNA e o uso da cromatografia líquida de alta eficiência, técnica que utiliza a pressão para identificar os componentes de uma pimenta. Apesar de importante, a ardência nem sempre é o objetivo principal dos estudos. “Um dos nossos focos é melhorar o teor de vitamina C e criar tipos mais resistentes a doenças”, diz Francisco Reifschneider, pesquisador da Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias. “O aroma é outra área que estamos desenvolvendo porque vem crescendo o interesse por pimentas mais cheirosas.”

Cruzar espécies para melhorá-las não é uma novidade. Estima-se que a humanidade selecione as mais favoráveis para replantar desde o início da agricultura, há cerca de 10 mil anos. No caso da pimenta, botânicos especulam que as mais ardidas surgiram na Bolívia e no sudeste do Brasil antes da chegada dos europeus à América do Sul. Os colonizadores portugueses e espanhóis se encarregaram de disseminá-las pelo mundo, criando espécies em todos os continentes de acordo com o clima, o solo e outros fatores. Por centenas de anos, a seleção foi feita separando as melhores espécies de pimentas para plantar, o que criava características mais favoráveis a cada nova geração. “Se alguém quiser uma pimenta mais ardida pode criar híbridos com duas pimentas superquentes e depois fazer seleções”, afirma Paul Bosland, diretor do The Chile PepperInstitute, da Universidade do Novo México, nos Estados Unidos. “Depois de várias gerações é possível ter uma pimenta mais forte.”

Fonte: Revista Galileu 

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