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00/00/0000 Em prol da adrenalina e do cinema local

Pioneiro nas “atividades dublísticas” em Brasília e entusiasta do cinema local, Zé Ricardo organizava pegas na cidade nos idos de 1980. Por ironia do destino, de tanto fugir das autoridades, um dia um policial veio lhe pedir para que ele ensinasse à corporação técnicas de pilotagem. De fujão para exemplo, este homem foi construindo sua carreira de dublê. Hoje, seus 41 anos pesam, e vê-se na hora de passar adiante tudo o que desenvolveu nesta vida. Os pré-requisitos para quem quiser aprender, segundo ele, não dependem de biótipo, basta ter coragem, ser audaz e não tomar remédios controlados.

Revista Pepper Zé Ricardo, conte-nos um pouco como foram os primeiros passos na sua vida para poder hoje trabalhar como dublê profissional.
Zé Ricardo – Estou profissionalmente no ramo há 21 anos. Mas, desde os 12 anos, eu junto com os moleques da rua pegávamos tijolos e madeiras e ficávamos saltando de bicicleta de lugares cada vez mais altos. E eu sempre queria pular mais alto que eles. No início dos meus 20 anos, antes de me casar, fui para São Paulo fazer um curso de dublê, mas voltei no primeiro dia porque achei aquela coisa muito teatral. Então, comecei a desenvolver uma técnica própria, e fui muito abrangente sem me especializar unicamente em um segmento como, por exemplo, atropelamento, corpo em chamas, Le Parkour e salto em altura ou em velocidade. Além da minha especialidade, que é a pilotagem de carro e moto.

R.P - E como você se inseriu no cinema de Brasília?
Z.R - O meu primeiro trabalho foi por acaso, com o mítico Afonso Brazza. Estava com meus amigos andando de bicicleta quando vimos uma movimentação. E ele nos convidou para pularmos de bicicleta de uma altura de dois metros. O primeiro trabalho como dublê profissional foi em um curta chamado Dez reais, em 1996. Nele, fui 18 vezes atropelado e cheguei a quebrar três para-brisas. Na época, inexperiente, eu aceitei o trabalho sem cobrar por take. No filme ainda fizemos umas cenas de cavalo de pau. Aos poucos o negócio de dublê deslanchou no boca a boca e hoje a grande maioria das produções de Brasília é a minha equipe que faz. Ainda tive a experiência de trabalhar em São Paulo na idade de 24 anos. Foi em uma empresa de um amigo e atuei em programas como Turma do Didi, Linha Direta, telenovelas e comerciais. Mas, como eles pagavam muito mal, eu voltei para Brasília e fundei a Dublê Car.

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R.P - Fale da sua relação com veículos automotores e como começaram suas aulas de pilotagem para as forças policiais.
Z.R - Como cheguei a citar na pergunta anterior, foi com a Dublê Car. Quando voltei de Sampa transformei minha empresa de restauração de carros antigos e criei esta empresa. Mas as aulas para a polícia vieram porque eu organizava pegas em Brasília e fui criando fama. Participava em todos os picos da época, como por exemplo no balão do aeroporto, 312 e 15 Norte, viaduto de Taguatinga. E foram anos fugindo da polícia até sob bala. Era assim, a placa do meu carro era anotada e eu deixava escondido na casa da minha tia. “Os homem” batiam na minha casa e não dava nada, porque não tinha nenhum carro. Daí eu saía de moto e dessa maneira eu ficava revezando entre os veículos. Fiquei “invicto” por cerca de quatro anos. Graças a Deus a casa não caiu. Mas aí tive que amenizar nos pegas porque o quadro se reverteu. Um policial do Bope me convidou para lecionar. E juntos desenvolvemos técnicas de pilotagem. Primeiro foi para o Grupo Tático de Ações Motociclísticas (GTAM), depois Patamo e hoje atendo ao COT, Rotam, Bope e ao 1º Batalhão da Força Nacional.
 
R.P - Onde você mais se arriscou aqui em Brasília? Quais os danos físicos obtidos nesse trabalho?
Z.R - No filme Ratão eu saltei com um Opala de um viaduto com oito metros de altura no início do eixinho norte, a 80 km/h e atingi uma distância horizontal no ar de 25 metros. Sempre me perguntam, mas não machuquei nada grave. Só fiquei com a coluna doendo por conta do efeito-chicote que minha cabeça fez, e tive hemorragia interna branda. Por conta disso eu fiquei dois dias evacuando sangue, pois, segundo o médico, eu sofri um princípio de esmagamento e microveias estouraram dentro de mim. Mas nada grave. No filme A noite por testemunha, que conta a história do índio Galdino, desenvolvi uma técnica própria, junto com um professor de química da UnB, para atear fogo no meu corpo. Essa necessidade veio porque pelo método convencional usamos um macacão de amianto, mas era tão volumoso que eu nem fechava os braços. Daí, desenvolvemos um gel à base de nitrogênio sem álcool a 6°C negativos. Durante as filmagens eu fiquei que nem uma múmia. Com três camadas de atadura. Quase tive uma hipotermia porque colocamos o gel até quase a pele aliado ao frio de uma madrugada na W3 Sul. E o momento que ateava fogo, por incrível que pareça, era a hora do alívio. E teve outra, não podia sujar o set. O método convencional seria com extintor de incêndio. Comigo foi com uma piscina de criança atrás da parada de ônibus. Nessa brincadeira fiquei quatro vezes em chamas.

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R.P - E quanto aos atropelamentos? Fale um pouco sobre eles.
Z.R - Antes eu fazia atropelamentos a 70 km/h com carros de até 45° de inclinação no para-brisa. Hoje não faço “nem a pau” a essa velocidade, meu limite é 40 km/h. A razão é que já tenho 41 anos e tenho quatro filhos para criar. Sobre o assunto, uma vez me machuquei, durante as filmagens de Deus. Eu estava fantasiado de frango e panfletava no sinal. A máscara do frango bloqueou parte da minha visão e eu entrei no tempo errado, e voei dois metros para cima. Mas o importante foi que eu fiz do jeito que o diretor queria, deixando-o satisfeito.

R.P - E como você faz para pular de carros em alta velocidade? Que tipo de blindagem você usa?
Z.R - Eu utilizo apenas um macacão de couro, uma bota de motocross e luvas. Nem capacete eu uso. Por que estabilizo o meu corpo na queda e depois realizo um rolamento. Por isso minha pele não queima no asfalto. Mas sim... estou estudando colocar algumas proteções de ferro para poder despejar gasolina na pista e com o atrito acender o fogo.

R.P - E como fica o medo, nervosismo nesse ramo profissional tão extremo?
Z.R - Em relação ao medo, eu lhe respondo que hoje está sem graça fazer essas coisas. Porque a experiência me faz realizar de maneira segura. Antes, brincávamos que éramos a equipe dos 100: Sem dinheiro, sem condições e sem medo de acelerar. Hoje a coisa é mais monótona.

R.P - E como é a técnica com caixas de papelão que você desenvolveu para pular de grandes alturas?
Z.R - O tradicional manda realizar a queda com um colchão de ar caríssimo. Mas para baratear os custos fizemos um cálculo de física que envolve a minha massa e aceleração na queda para dispormos caixas de papelão ocas a fim de amortecer o impacto. Com 60 caixas de papelão amarradas e montadas em uma lona, eu já pulei do terraço de um prédio de seis andares. Esse barateamento é uma forma de eu me enraizar no cinema de Brasília, além disso, eu chego mesmo até a financiar os mesmos.

R.P - Mas você nunca se machucou, por isso não tem medo? E não faz uso de medicação no pós-performances?
Z.R - Te asseguro que, trabalhando como dublê, nunca me machuquei severamente. Mas aprendendo a empinar moto e fazendo pega, entre outros, já sofri um traumatismo craniano, várias fraturas, microfissuras e tenho cinco parafusos espalhados pelo corpo. Na hora a gente se arrepende, mas depois fica bem e esquece o arrependimento em prol da adrenalina e do cinema local. Mas não sou de ferro, após o trabalho de dublê costumo tomar muito Dorflex e Torcilax

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R.P - Você disse que hoje só realiza atropelamentos a 40 km/h. Essa cautela com a idade avançando está chegando a outras performances?
Z.R - Quanto aos atropelamentos sim, mas estou com necessidade do “algo mais”, e botei na minha cabeça que quero bater recordes. Eu comecei pelo de saltar de um veículo em movimento, que era de 187 km/h. Eu bati e pulei a 240 km/h e depois em 2011 bati novamente pulando de um veículo a 260 km/h.

R.P - Esses recordes estão registrados?
Z.R - Ainda não porque o problema são os custos. Para homologar no Ranking Brasil o valor é de R$ 6 mil e no Guiness custa R$ 19 mil. Logo quero fazer um grande feito para fazer a homologação, estou com um projeto de pular de um monomotor a 400 km/h. Tenho uma meta mais audaciosa que é pular da ponte JK com um carro, fazer um cogumelo de fogo e me atirar no lago. Mas é um projeto que requer maior planejamento envolvendo mergulhadores e um tubo de oxigênio.

R.P - Onde seria esse salto no asfalto a partir de um monomotor?
Z.R - Estou com um projeto de criar em breve um Centro de Treinamento em Planaltina de Goiás com uma pista particular de 2,6 mil metros. Lá eu farei a minha escola de dublês, porque o cinema de Brasília chegou a um patamar nas produções que requer a formação desses profissionais. Lá também terá um estande de tiros subterrâneos para a polícia treinar tiros com fuzil. Meu intuito é esse, trabalhar na formação de novos profissionais e colaborar na segurança pública, visando à otimização das viaturas policiais.

R.P - Por fim, o que você realiza com efeitos especiais?
Z.R - Todo tipo de maquiagem, explosões, tiros de festim, vidro cenográfico, entre outros. Minha meta é minimizar majoritariamente os custos cobrados em outras praças.

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