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00/00/0000 Fotógrafa mostra chinesas submissas que atavam os pés
Durante oito anos fotógrafa londrina tem buscado idosas que tiveram os pés atados na China. Divulgação/Jo Farrel
Durante oito anos fotógrafa londrina tem buscado idosas que tiveram os pés atados na China. Divulgação/Jo Farrel

A fotógrafa documentarista Jo Farrel fotografa há oito anos idosas que participaram da tradição chinesa de atar os pés. O método começou durante a dinastia Song (960 a 1279) como uma forma de mostrar que a mulher seria uma boa esposa e prestaria subserviência ao marido. Em 1911 a tradição foi proibida e as mulheres foram obrigadas a retirar as bandagens dos pés. Contudo, em algumas comunidades rurais, as filhas de camponeses ainda mantinham a tradição. Jo foi atrás das sobreviventes dessa cultura, hoje mulheres que têm entre 80 e 90 anos. Ao todo, ela entrevistou e fotografou 50 idosas nas províncias de Shandong, Yunnan e Shanxi. Algumas dessas idosas morreram nos últimos anos após serem entrevistadas pela fotógrafa. Os pés dessas senhoras, como mostra o projeto \"Living History: Bound Feet Women of China\" (História viva: Mulheres dos pés atados na China, na tradução livre), foram completamente desconfigurados, dedos foram quebrados e ligamentos rompidos. A fotógrafa pretende concluir o projeto e lançar um livro com as imagens. Para isso, ela precisa viajar por mais de um mês na China e lançou uma campanha de financiamento coletivo. Jo nasceu em Londres (Inglaterra), estudou fotografia documental e antropologia em São Francisco (Califórnia, EUA) e mora há oito anos em Hong Kong (China). Em entrevista, Jo contou que utiliza um método peculiar de fotografia que garante revelações com efeitos únicos.

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Quando você teve a ideia de fotografar chinesas de pés atados?

Eu fiz uma exposição em Londres, na galeria Hoopers , sobre o meu trabalho na China, em Cuba e no Tibet. Foi quando eu decidi focar meu trabalho em tradições que estavam desaparecendo entre as mulheres. Como estou morando em Hong Kong, quis checar se ainda existiam mulheres que viveram com os pés atados. 

Como você localizou essas mulheres?

Foi um mero acaso! Um motorista de Xangai chamado Mei Xin Wang me disse que sua avó tinha os pés atados. Foi assim que Zhang Yun Ying tornou-se a primeira a integrar o projeto. Desde então tenho encontrado essas mulheres por felizes coincidências. Uma delas era a avó de um tradutor, outras foram por meio de um menino que eu conheci em um ônibus para Pequim. Ele me disse que havia mulheres na aldeia hus com os pés atados. Uma foi indicando outra, mas também fiz muita investigação. Quando fui para a província de Yunnan fiquei horas rodando de carro até descobrir que havia três mulheres de uma aldeia em Kunming que tinham os pés atados.

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Quantas mulheres você já fotografou?

Já entrevistei e fotografei mais de 50 mulheres nos últimos oito anos. A maioria mora em diferentes vilarejos, mas consegui achar três em uma mesma aldeia.

Quanto tempo você ainda precisa para terminar o projeto?

Eu trabalho nesse projeto nos últimos oito anos e, até agora, tudo foi financiado e feito por mim mesma. Não tem sido fácil, eu trabalho apenas com fotos em preto e branco (p&b) em uma câmera de alta performance chamada 503C Hasselblad. O processo de revelaçãlo exige que eu retorne o filme da câmera para um outro tipo de rolo, escanei-os e pinte-os com uma gelatina prata em um quarto escuro. Eu espero ficar um mês em na região de Shandong, onde eu comecei o projeto, e depois disso mais um mês tralhando no processo de revelação.

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Qual é a mensagem você quer deixar para a humanidade com esse projeto?

A maioria dos livros que abordam o assunto fazem uma ligação entre os sapatos maravilhosamente bem bordados e o lado erótico da tradição. Eu quero ir além dos pés e mostrar quem são essas mulheres corajosas e deixar um registro vindouro para as gerações futuras.

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Yang Jing uma das chinesas fotografadas e Jo Farrell, em 2010.

Você expôs 24 fotos na Inglaterra, nos Estados Unidos e na China. Você percebeu alguma reação diferente sobre seu trabalho nesses países?

As fotografias são peças de arte e eu espero ter conseguido refletir a beleza e a força dessas mulheres nas minhas exposições. Eu acho que existem dois tipos de público, na verdade: um que fica horrorizado com a formação dos pés e outra que fica intrigado para saber como essas mulheres levam suas vidas.

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Durante sua jornada na China aconteceu alguma história engraçada ou estranha?

Sim! Eu fotografei os pés de uma mulher em Yunnan e entrevistei-a por uma hora, daí ela se trancou no banheiro e se recusou a sair. Duas amigas delas apareceram e tentaram convencê-la a sair do banheiro, foi quando eu percebi que elas também tinham os pés atados. Aproveitei o ensejo e pedi para fotografá-las para o meu projeto e elas toparam. Pouco tempo depois a senhora que estava no banheiro saiu e pediu para ser fotografada antes das amigas!

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Você acha que essas mulheres têm algo em comum, além da atenderem à tradição dos pés atados?

Elas passaram pela mesma dor, mesma fome, mesma revolução cultural. É como se elas tivessem crescido juntas, como se suas vidas estivessem entrelaçadas de alguma forma. 

Você acha que essa tradição pode voltar algum dia ou conhece algum lugar onde as mulheres continuam atando os pés?

Não, essa tradição nunca vai voltar. Ela era estimulada por uma antiga filosofia oriental, é um hábito muito velho. A prática começou a ser erradicada com a entrada de missionários europeus contrários ao atamento dos pés. Com a abertura da China, velhos hábitos foram deixados para trás para mostrar que há uma China moderna agora.

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Liu Shiu Ying (1926-2013) foi a única chinesa fotografada por Jo Farrel que ainda tinha o marido vivo. A imagem é de 2006.  

Qual foi o menor pé encontrado por você até agora?

Eles não são necessariamente pequenos, já que foram desamarrados. Mas alguns sequer se assemelham a pés humanos, eles não têm ligamentos ou os alguns dos dedos.

Você teve contato com as famílias dessas mulheres? Como foi isso?

Eu visitei-as todos os anos e tentava flagrar o que elas estavam fazendo.

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Você tem planos de expor no Brasil?

 Não, mas se eu tiver patrocínio para ir ao Brasil seria fantástico!

As fotos deste post foram cedidas por Jo Farrel - Reprodução proibida.

Fonte: Page Not Found 

 

 

 

 

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