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00/00/0000 "Os meus bares são a cara de Brasília. Esse é o motivo do meu sucesso"
Jorge Ferreira
Jorge Ferreira

Dono de 11 bares em Brasília, entre eles Bar Brahma, Bar Brasília, Mercado Municipal e Feitiço Mineiro, Jorge Ferreira é um dos maiores empresários da capital na área gastronômica. Formado em sociologia, ex-professor da PUC e mineiro de Juiz de Fora, o empresário chegou a Brasília ainda nos anos 80, segundo ele, atrás de seu grande amor (hoje, sua mulher). Figura conhecida entre políticos da antiga esquerda, ainda guarda amizades da época de militante, como o ex-presidente Lula, com quem costumava jogar bola e xadrez nos finais de semana durante os oito anos em que o líder petista morou na Granja do Torto. Nas horas vagas, investe tempo para escrever poemas e letras de músicas.


A sua história como dono de bar começou com o Feitiço Mineiro, não é isso?
Na verdade tudo começou um pouco antes. Em 1987, fiz uma sociedade com um primo meu. Mas era num empreendimento que eu não tinha muita identidade. O marco mesmo foi o Feitiço Mineiro em 1989, uma casa onde eu pude misturar a culinária, a literatura e a música. Na culinária, o Feitiço foi várias vezes premiado por diversas revistas especializadas em gastronomia. Uma boa culinária mineira. Na verdade, eu diria, uma culinária de resistência, tradicional. Na música, o Feitiço fez mais de 10 mil shows. É uma casa pequena, mas uma referência para a cidade. É preciso levar em consideração que o público daqui de Brasília é muito exigente, muito qualificado, interessado e ligado à cultura.


A partir daí, você ficou um bom tempo com o Feitiço, não é?
Fiquei naquela dobradinha, dando aula. É porque no início, o negócio com o Feitiço Mineiro era uma coisa meio amadora. O Feitiço era uma grande festa. O cliente que fazia a conta dele, ele que anotava... era uma coisa meio misturada... militância, bar e festa. Esse profissionalismo mesmo só aconteceu em 1994. Logo depois que abandonei tudo e fui fazer a campanha do Cristovam Buarque. Quando voltei, estava tudo de cabeça pra baixo. Aí pensei \"ou acabo com tudo... ou encaro”. Na época, eu era concursado pela Fundação Educacional e aí resolvi largar (o cargo de professor). E encarei. Minha esposa foi pra parte administrativa e eu pra fora, chamando, organizando. Comecei a andar mais pelo país, buscando experiências na área de restaurantes. Fui para fora do Brasil entender mais sobre cerveja. Fiz um bom trabalho de pesquisa. Não acredito em sorte, acredito em trabalho, em persistência. Os meus bares foram acontecendo porque sei que a cidade tem que ser boa: primeiro para o morador, e depois para o turista. Meus bares são um sucesso porque eles são a pegada de Brasília.


Dizem que alguns dos seus bares são bastante frequentados por políticos, principalmente por petistas.
Todos os bares de Brasília são frequentados por políticos. Aqui são quinhentos e tantos deputados, oitenta e tantos senadores, mais funcionários, ministros... Presidentes de partidos também circulam por aqui. São muitos políticos. Em todos os bares e restaurantes de Brasília frequentam políticos. Uns mais, outros menos. E nos meus bares não é diferente. Mas antes de ser dono de bar, eu tinha uma militância. Então, tem amigos que foram militantes comigo que frequantam os meus bares por amizade. Como eu já disse, os meus bares são a cara de Brasília. Estou focado no público de Brasília. Esse é o meu público. Brasília cresceu muito. Antigamente a cidade era muito calma durante o final de semana. Hoje tudo é lotado, muita gente, gente que vem de outras cidades. Gente que vem do entorno pra curtir o Plano Piloto. Temos várias opções culturais e gastronômicas. Brasília é hoje o terceiro pólo gastronômico do país. Acho que a gente tem que começar a pensar Brasília como uma cidade que todos os brasileiros deveriam conhecer.


Seus bares são temáticos, não é? Você dizendo que seus bares retratam Brasília, então quer dizer que eles retratam essa diversidade que há aqui na capital...
Como disse o Darcy Ribeiro, Brasília é um espelho quebrado, refletindo várias imagens. Você tem um cara do nordeste, um cara do norte, um cara do sul, do sudoeste... Ainda estamos em formação, e esse processo de formação é muito rico porque estamos aqui hoje dando a base, o alicerce para essa forma de se falar, de agir... Se você entender Brasília na sua magnitude vai perceber que ela é uma cidade que não permite qualquer tipo de preconceito, nenhum tipo de exclusão.
É engraçado, porque foi feita por um mineiro. Tanto que, na inauguração do Bar Brasília, um poeta fez um poema dizendo: “o Jorjão é o JK da boemia”. Isso me orgulha muito. O Juscelino foi um ídolo na minha casa. O meu pai foi amigo do Juscelino lá em Minas Gerais, quando Juscelino era governador. Eu sempre convivi com a figura desse homem fortíssimo. E tive, anos depois, o privilégio de montar o Bar Brasília, onde eu faço uma grande homenagem pra ele, para o Lúcio Costa, para o Oscar Niemeyer. É um dos bares que eu mais gosto.


O que você acha que ainda falta na noite de Brasília, na área de eventos culturais?
Acho que na área de teatro, se for comparar com Rio de Janeiro e São Paulo, Brasília está muito deficiente. Espaço tem, mas é necessária uma política direcionada para o teatro. Já na parte musical, acho que Brasília vai bem. A cidade produz vários músicos e sempre tem shows de grandes artistas. Não há um final de semana aqui que não tenha música ou boas alternativas musicais. Acho que o governo deveria transformar Brasília num centro de cultura.


E, falando sobre os clientes mais assíduos, tem muita gente fiel aos seus bares...
Tem, tem sim. Isso é muito bacana. Brasília é o seguinte: a praia nossa é o boteco. O brasiliense gosta muito do botequim. O forte aqui no Plano Piloto são os cariocas e os mineiros, não é? Dois botequeiros inveterados. E eu tenho vários clientes de dez, 15, 20 anos. E também garçons. Garçons que têm 15, 20 anos comigo. Essa cumplicidade entre o garçom e o cliente é muito legal. O que é o botequim? O botequim é a distância entre o seu trabalho e a sua casa. Fica no meio (risos). Esse é o lugar do botequim. Muita gente pensa: “Em vez de ir pra casa, eu vou para o boteco. Agora eu vou pro trabalho, então vou passar longe do boteco”. O boteco fica sempre como referência. Eu tenho muito cliente que é assim. Tenho clientes que já merecem prêmios e mais prêmios da Johnnie Walker, com certeza.


Como faz pra administrar tudo isso?
Essa parte administrativa é a minha esposa e minha irmã que organizam. Eu faço mais a parte operacional. A gente busca inovações tecnológicas. Acho que o empresário de bares e restaurantes mudou muito dos anos 90 para cá, na medida em que os importados começaram a entrar com mais intensidade.


Mudando de assunto, você lançou, recentemente, um livro de poemas. Tem algum verso inspirado em Brasília?

Tem. Tem um que se chama Kapital com “k”. Ele é totalmente Brasília. Brasília é sempre uma fonte de inspiração. Esse livro foi lançado no ano passado. A capa é do Ziraldo. Meus amigos têm sido muito generosos comigo, de estarem participando desse momento criativo da minha vida.


Outros projetos, novos bares?
Tem projetos de expansão. Tem muita gente nos convidando até para montar bares em outras praças. Antigamente, para montar um bar em Brasília você tinha que buscar inspiração em outro lugar. Hoje as pessoas vêm aqui copiar. Muita gente vem copiar o Bar Brasília, o Mercado Municipal. Nosso trabalho aqui é hoje uma referência nacional. O Mercado Municipal, por exemplo, é um projeto na área empresarial que tem me dado muita alegria. Tem outro projeto que está me encantando muito, e que estarei lançando nos próximos dias 7 e 8 de dezembro, é o  meu CD, que se chama Balé das Almas. Eu fiz a letra é o Zé Beto Corrêa, que é um músico de Belo Horizonte, está fazendo as músicas. Acho que é uma fase diferente da minha criação.

KAPITAL
As nuvens bloqueiam o sol
A cidade inicia o dia
Os homens e seus negócios
Chegam ao aeroporto.

Terno, pasta e celular
O dia a sonhar nas largas avenidas
Todos a internetar o mundo de lá
O amor de ontem deixado pela metade.

A sala fria do Ministério e suas revistas inúteis
Na memória a despedida fria no quarto ainda escuro.
A espera: água e café. Adoçante ou açúcar?
Tempo, memória, assuntos delicados.

Brasília possuída por lobos
Em breve aos seus retornos
A tarde de primavera declina
A grama seca corre pela janela do táxi.

No rodoviária, seres espalhados
Quietos de passos apressados e olhares retos
Vão para o trabalho sob um sol escaldante
De uma jornada sem termo e que não finda.

Os caminhos dos homens na capital são submersos
Para uns, palácios, honra e conforto.
Para a maioria, uma cidade inóspita, de sonhos raquíticos
Sob o lampejo de um emprego público.

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