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00/00/0000 Pepper cai no Choro
Reco do Bandolim
Reco do Bandolim

Henrique Lima Santos Filho é o caçula de cinco irmãos. Todos chegaram a Brasília em 1963, acompanhando o pai, deputado de esquerda eleito pela Bahia. Na adolescência tocava guitarra, a palhetada mais rápida do Centro Oeste, que lhe valeu o apelido de Jimi-Reco, numa referência ao Jimi Hendrix do rock pesado. Bastou assistir a um show do Armandinho Macedo, nas férias de verão em Salvador, para ele mudar de instrumento e de gosto musical. Hoje é o famoso Reco do Bandolim, presidente do Clube do Choro, cidadão honorário de Brasília.

Quando Brasília ainda era considerada a capital do rock, Reco do Bandolim era guitarrista do grupo Carência Afetiva. Sobre esse assunto, Reco sugere que as pessoas façam uma revisão histórica para compreender por que Brasília transformou-se na Capital Brasileira do Rock. \"1969, aconteceu na pequena cidade de Bethel (EUA) o festival de Woodstock. O festival era uma espécie de manifesto a favor da paz, contra a guerra do Vietnã, pela liberação sexual e das drogas. Naquela fase, vários países da América do Sul amargavam ditaduras, inclusive o Brasil. Nossos melhores autores estavam sob censura. E a linguagem do rock, com suas guitarras distorcidas, a bateria estridente, se adequava perfeitamente aos ideais da juventude, que buscava uma expressão mais contundente para fazer seu protesto. Aquilo caía como uma luva. Então os americanos disseminaram a linguagem do rock magistralmente por todo o mundo, inclusive no Brasil. Some-se a isso o fato de Brasília sediar todas as representações diplomáticas, com os filhos dos embaixadores, vindos de diferentes países, inteiramente familiarizados com a linguagem. Aí está a explicação para que Brasília tenha se tornado a capital do rock num momento histórico determinado. Bem, a partir do instante em que experimentamos o processo da redemocratização, tivemos a obrigação de fazer uma revisão nisso tudo. Saber de onde viemos e pra onde vamos. Continuo gostando do rock, tango, fado, jazz. Mas daí tornar a capital do meu País como a capital do rock vai longa distância. Pra dizer o mínimo, uma atitude ingênua. Deixo no ar uma questão: Sabe quado Nova Iorque será considerada a capital do samba... Eu mesmo respondo: jamais. Porque os americanos tem uma noção muito aguda da importância da cultura para a afirmação de seu país. Acho que as pessoas não avaliam o esforço, a luta para que hoje Brasília seja considerada a capital do choro”, completa Reco.

Nos anos 70, Reco do Bandolim foi apresentado ao choro. No final de um show de Moraes Moreira e Armandinho Macedo em Salvador, escutou pela primeira vez o choro Noites Cariocas, de Jacob do Bandolim. Dali em diante, nunca mais pegou numa guitarra e começou a aprender a tocar bandolim. Porém, se viu em uma situação difícil, pois em Brasília não existia nenhuma escola de choro. Depois de muita dedicação – cerca de 14 horas por dia –, Reco do Bandolim aprendeu a tocar o tão sonhado instrumento. “Minha mãe é testemunha, aprendi [a tocar] só de ouvir chorinho, não sei ler partitura até hoje, e me envergonho disso, pois \"tenho uma escola fundada por mim\", se diverte com a situação.

O Clube do Choro começou em uma sede bem precária. Tudo acontecia num vestiário abandonado no Centro de Convenções; em meio a banheiros e pias desativados, os amantes do choro se encontravam para tocar e tomar cerveja. “Mesmo depois de instaurado o estatuto do clube, tudo era muito amador, qualquer um podia tocar e se divertir”, comenta. Famílias prestigiavam as apresentações de pessoas famosas da cidade que passavam por ali. “Quem tocava choro naquela época não queria saber de dinheiro, queria apenas fartura, tinha que ter comida e bebida”, completa Reco.

Depois de certo tempo, as pessoas deixaram de participar das apresentações porque, como não havia ensaio, os shows eram repetitivos. Após sucessivos roubos, o Clube do Choro ficou fechado durante 10 anos. Ao receber a notícia de que o clube seria despejado de sua sede, Reco se candidatou e foi eleito Presidente do Clube do Choro de Brasília. Logo que assumiu já teve que expulsar 3 famílias de mendigos que viviam no local e, a fim de fazer o show de inauguração e reverter a verba para arrumar o clube, teve que tirar dinheiro do próprio bolso para pagar as passagens dos músicos e hospedagem em hotéis.

“Chamei meus amigos Raphael Rabello e Armandinho Macedo, que estavam no auge de suas carreiras, aluguei a sala Villa Lobos, vendi mil e trezentos ingressos de mão em mão e eles vieram para o show”, conta Reco. Desse dia em diante, o Clube do Choro entrou em um processo de crescimento, e se mantém até hoje. A Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello, inaugurada em 1998, começou com 23 alunos e hoje conta com mais de 1.100. A nova sede do clube foi projetada pelo arquiteto Oscar Niemayer (oferecida de presente a Reco) e reúne, no novíssimo ESPAÇO CULTURAL DO CHORO, o Clube, a Escola e um Centro de Referência e Memória do Choro.

Em 2013 o Clube do Choro vai homenagear Baden Powell, um dos maiores compositores e violonistas da MPB (Música Popular Brasileira). O público terá a oportunidade de ouvir novas interpretações e arranjos para as melodias e harmonias produzidas por Baden. A estimativa é de que mais de 50 mil espectadores assistam, de março a dezembro de 2013, a 120 espetáculos protagonizados pelos maiores instrumentistas do País.

Com projetos em parceria com o Banco do Brasil, Reco do Bandolim pretende realizar grandes shows no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Belo Horizonte, além de Brasília. O 1º Festival Internacional de Choro traz artistas de várias partes do mundo, como Japão e Paris, para tocar no país de origem. “A ideia é colocar o choro junto com os grandes festivais de verão que já existem na Europa e no mundo”, conclui Reco. Para a Copa do Mundo do Brasil, o Clube do Choro, juntamente com o Ministério dos Esportes e o Ministério do Turismo, está gravando um CD com todas as músicas que exaltam o Brasil: Aquarela do Brasil e Brasileirinho estão no repertório selecionado. O grupo vai visitar 18 países, divulgar a cultura brasileira e convidar outros povos a vir conhecer nosso país, sobretudo na Copa das Confederações e na Copa do Mundo de 2014.

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BASTIDORES

(por Reco do Bandolim)

 

Amigos, amigos; negócios à parte

O Raphael Rabello viria ao show, mas apenas se sua esposa viesse junto com ele. Depois mudou de ideia e disse que viria com a sua filha, que estaria fazendo aniversário no mesmo dia do show. Fiz a mudança da passagem e as reservas no hotel. No dia da apresentação, Raphael não chegou no horário marcado. Liguei para sua esposa no Rio e ela disse que Raphael estava muito chateado porque a passagem da filha não havia chegado. Finalizou dizendo que achava que Raphael não viajaria para Brasília. Fui ao balcão da companhia aérea e constatei que a alteração na passagem realmente não havia sido feita, apesar de ter sido por mim solicitada. Pois bem, pela amizade e apesar de estar vindo tocar sem cobrança de cachê, para reerguer o Clube, Raphael comprou a passagem da filha e embarcou para Brasília. Armandinho desembarcou e seguimos juntos para o hotel, pensando em como faríamos para contornar o assunto. Qual não foi nossa surpresa ao chegar no Eron: lá estava o Raphael, no canto, encostado no violão e com uma cara de réu olhando pra mim. Ele falou assim: “Reco, você é um ótimo bandolinista, mas é um péssimo produtor”. Justifica-se: como o voo não chegou no horário, além da passagem a reserva do hotel tinha caído.

Homenagem ao amigo

Depois de um grave acidente de carro em que quase perdeu o braço, Raphael Rabello precisou de uma transfusão de sangue. Nessa ocasião, foi contaminado com o vírus da AIDS. Depois do episódio do aeroporto e do hotel, Raphael foi a um almoço em minha casa, quando, afinal, tive a oportunidade de demonstrar, com documentos, que, de fato, havia solicitado sim a mudança na passagem aérea em favor de sua filha além da reserva no hotel. Lembro, com muita emoção, diante de minha mulher, Cida, Armandinho e Ângela Nou, suas últimas palavras: “Reco, eu te amo”, e me tascou um beijo. Senti muito a morte dele e coloquei o nome da escola de Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello.

Mudança de hábitos

Tocamos no primeiro dia de show lá em Beijing; quando acabou a apresentação, a gente agradecia, agradecia e as pessoas aplaudiam de pé, uma coisa de louco, e agradecia, mandava beijos e as pessoas continuavam a aplaudir. No fim do show descobri que os chineses não pedem bis para os artistas, pois acreditam que o trabalho já foi realizado. No segundo dia fomos para Xangai. No meio do show a plateia começou a bater palmas no ritmo da música e pude perceber que o vice-cônsul da China achou estranha aquela atitude. No final pediram bis três vezes. Tempos depois o mesmo vice-cônsul escreveu uma carta ao Itamaraty dizendo que o Reco do Bandolim junto com o chorinho mudaram os hábitos dos chineses.

Casos e acasos

Elizeth Cardoso era uma mulher extraordinária, artista genial e, como se fosse pouco, dona de um corpo escultural. Elizeth costumava frequentar um restaurante no Leme, sempre muito bem acompanhada: Vinicius de Moraes, Ary Barroso, Antônio Maria. Até hoje muitos comentam a propósito da predileção de Vinicius pelo artigo feminino. Mas não era simples assim. Vinicius gostava mesmo da poesia, dos amigos, da noite, das mulheres, da música, da boemia. Era a soma de todas essas coisas que fazia a personalidade de nosso poetinha. Contam que, nesses encontros, Vinicius gostava de prestigiar Elizeth, uma morena pra ninguém botar defeito, fazendo certos elogios que, ao longo do tempo, foram se tornando mais contundentes. E, Elizeth, apesar de fã de carteirinha do Vina, não exatamente correspondia àquele tipo de sentimento. Elizeth queria mesmo ser amiga e fã. Certa vez foi pedir conselhos para Antônio Maria, o melhor amigo de Vinicius, porque, afinal de contas, aquilo estava tomando corpo, saindo de controle. Vinicius não podia ver Elizeth que pegava no seu braço e dizia: “Elizetinha, você está tão bonitinha”, etc, etc.

Foi aí que Antônio Maria, conhecedor profundo daquela alma maravilhosa, cochichou no ouvido de Elizeth duas ou três palavrinhas mágicas.

Semana seguinte, todos ali reunidos no Leme quando – e como era de se esperar – Vinicius parte para uma das melhores cantoras que este País já produziu: Elizetinha... Sem aviso prévio, Elizeth levantou-se, pegou firme no braço de Vinicius e disparou: “Vinicius, o que você quer comigo? Quer ir pra cama? Pois vamos imediatamente. Agora tem o seguinte: gosto de fazer muuuuito e direito. Vamos embora...” Ao que nosso poetinha, inteiramente intimidado, passou a repetir: “Que é isso Elizetinha, o que é isso Elizetinha, o que é isso Elizetinha?” E nunca mais tocou no assunto.

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