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00/00/0000 Preconceito no Brasil
Fotos: Arquivo Pessoal
Fotos: Arquivo Pessoal

Esta reportagem brotou de um encontro inesperado e de uma conversa informal em um restaurante de Brasília tipicamente baiano, o Manzuá. Não haveria lugar melhor. O dono desta revista me pediu uma matéria sobre racismo e preconceito com um toque apimentado. Pois bem, pimenta com o dendê da moqueca baiana tem tudo a ver, não é mesmo?

No dia seguinte, corri atrás da Universidade de Brasília. Achei um professor de Direito, mas ele furou. Fiquei chateada, mas foi por uma causa melhor, porque logo depois encontrei a coordenadora da Diretoria da Diversidade da Universidade de Brasília. Opa. Na hora pensei que não poderia ter encontrado alguém melhor para falar desse assunto.

Professora doutora em sociologia, brasileira e com muita garra no peito, Drª. Sônia Marise.

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Nosso bate-papo começou sob um céu acalorado que não sinalizava nenhum pingo de chuva, sentadas em duas cadeiras debaixo da marquise do prédio da Casa do Estudante, residência estudantil que vem sendo construída há vários anos e nunca ficou pronta – como muita coisa pública no Brasil.

– Mas então, professora, vamos começar? Preciso falar de um tema super batido. Só que eu gostaria de tratar dele sem nenhum preconceito, pode ser?!

Ela ri e me responde: claro.

– Mas antes pediria que a senhora me falasse mais da Diretoria da Diversidade.

Essa diretoria foi criada em maio de 2013. E a proposta é garantir, dentro da Universidade, um espaço respeitoso ao combate à homofobia e, fundamentalmente, garantir os direitos humanos e a condição do sujeito de ser diferente, sem transformar a diferença em desigualdade. Então, é uma diretoria que cuida da questão educativa, preventiva e que vai acolher os estudantes da diversidade. Estamos fazendo escutas para ver o nível de denúncias ou de queixas que eles têm com relação a serem diferentes. Existem denúncias de preconceito racial e intolerância à orientação sexual. O nosso trabalho é importante, porque nós somos um país preconceituoso sim. E o maior problema do nosso país é dizer que não tem preconceito. Nós temos até um pré-conceito, mas somos mais do que isso. Somos preconceituosos e transformamos, muitas vezes, a diferença em justificativa para a desigualdade.

– De onde vem essa desigualdade?

Minha leitura sociológica diria que, se a gente pegar pela literatura do século XVII, ou até antes, no século XVI até o século XVIII, nós vamos entender que somos oriundos do patriarcalismo. E o patriarcado nada mais é que uma tecnologia do poder, do poder sobre o gênero, o pátrio poder do masculino, de uma sociedade heterossexual como norma padrão. Tudo que se faz fora do padrão é errado e, portanto, você está desviado. Assim, é preciso ter punições. E aí, cada instituição cria suas formas de vigiar e punir.

– Falando da sociedade, de forma mais ampla, como a senhora vê esses abusos dentro de estádios com jogadores gays, negros, etc.

Como socióloga, eu diria que vigiar e punir não é suficiente, mas é necessário. Por outro lado, precisamos de ações educativas. Se a gente não se der conta do ponto de vista educativo, que começa na infância, de que precisamos ser solidários, até para manter a nossa própria humanidade, porque se a gente matar o outro, a gente não tem outro, e, não tendo outro, não consegue sobreviver, portanto não existe “a gente”. Nós somos o reflexo do outro, mesmo dentro do campo do vigiar e punir.

– A gente está longe?

Não sei te dizer. Eu tenho esperança. Eu sou muito utópica. Eu acredito que o fato de o tema estar dentro da escola hoje como lei já é um avanço. É obrigatório? É. Não deveria ser obrigatório, mas é o que foi possível fazer. Entre o real e o desejável, é o que está sendo possível fazer.

– No caso da torcedora gremista, muitas pessoas a colocaram como vítima na história. Por que isso aconteceu? Será que é o medo de se enxergar, porque sabe que pode passar por uma situação similar algum dia?

Com certeza. É quase uma insanidade. Acho que isso é um subdesenvolvimento, no sentido de que na sociedade desenvolvida isso não é possível. É um absurdo! Colocar o outro em xeque, em perigo. Não é possível.

– Por que “macaco” é um xingamento?

É a construção da cultura. A cultura que discrimina o outro, porque é diferente. Mas, simbolicamente, o que significa ser macaco?! É uma coisa primitiva, primeira, inferior. O mais complexo é o homem e o mais simples o macaco. Então, dentro desse contexto, chamar o outro de macaco é dizer que ele está num outro lugar, com uma distinção inferior.

– O que achou da campanha do “eu também sou macaco”, postando fotos com bananas?

Primeiro, há uma questão da massa, porque as pessoas quando estão na massa mudam seus comportamentos. Agora, toda ação corresponde a uma reação igual e contrária. Então, a campanha foi importante no sentido de chamar atenção para a questão, para dizer: olha, a sociedade não pode mais tolerar – que não é nem tolerar, não gosto dessa palavra –, não pode mais permitir esse tipo de constrangimento do outro.

– Já é uma visão do novo?

Sim. Para mim é a visão do novo. As pessoas eram discriminadas antigamente, mas não entravam em processo de judicialização. Aí se pensa: ah, mas a sociedade judicializou tudo. Sim, porque foi o caminho possível. O lugar onde se permitiu que pelo menos as coisas fossem colocadas para serem refletidas, a exemplo do que não pode acontecer. Não é suficiente, mas nesse momento é necessário.

– A sociedade muda muito quando um negro assume uma posição de poder, como o ex-ministro Joaquim Barbosa e o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama?

O poder na política. A questão étnico-racial não é só a cor da pele, ela pesa por tudo aquilo que representa a cor da pele simbolicamente. Pelos seus artefatos, estilo de vida, visão de mundo. Então, muitas vezes a gente vê um cara negro, como o presidente dos Estados Unidos. No entanto, ele teve a constituição da sua sujeitividade como homem branco. Penso que tem de ser levado em conta, como o sujeito se constitui como sujeito. Como ele foi se assujeitando a um modelo social, do belo, de regra, do que é a norma.

– O poder na política influencia? Ter um negro à frente de uma sociedade. Minorias à frente de uma sociedade?

Não só o negro. Pense numa mulher, que na verdade não é minoria. Mulher representa 51% da população brasileira, mas no poder se torna. É por isso que ao discutir essa questão no Brasil você não pode descolar a discussão de raça à de classe. Mas é só você localizar, do ponto de vista da matemática, onde está o negro no país? Na construção da própria brasilidade, do que é ser negro no país, do que é ser brasileiro. Se a gente pegar na história, quando se teve a noção de que eu não sou mais nem índio, nem branco, nem negro. Mas sou brasileiro. Como foi a mestiçagem. É preciso recuperar a história para descobrir onde a gente perdeu o bonde na democracia.

– E onde a gente perdeu o bonde?

Várias escolhas que o Brasil fez em se alinhar na política econômica, ou a princípios, de que os meios justificam os fins. De que o dinheiro define quem você é. Sempre foi importante justificar economicamente certas vantagens para grupos sociais a partir da transformação da diferença em desigualdade. Precisava justificar. Precisava ser aceito do ponto de vista moral de que escravizar negro era importante. Quer dizer, quem teve a oportunidade de acessar as políticas de inclusão e integração social? Quantas políticas o país não teve de apartheid mesmo, inclusive em processos migratórios para branquear a população brasileira? Getulio Vargas mesmo fez isso.

– O que pode acontecer daqui para a frente?

Pensando Durkheim, é uma completa anomia. Nós estamos vivendo em estado patológico. Estado anômico. Não tem lei, não tem mais regra. Agora, o que nos segura é o instinto de sobrevivência. Eu cuido do outro, porque eu sei que sem o outro eu não vivo. É o individualismo negativo. Eu cuido do outro, não porque ele é um reflexo de mim, mas porque eu estou centrado em mim mesmo. É autofágico.

Enquanto conversávamos, um tipo de gavião, carcará, planava em minha direção. Não entendi nada. Por que ele chegaria tão perto de seres humanos? Tinha um pardal ciscando o chão, no máximo a 5 metros de onde estávamos.

Ele pousa com toda a calma do mundo, uma plenitude, como quem não quer nada e... pá! Ataca. Pega o passarinho na maior sutileza. Parecendo se impor como rei da situação. Fiquei, primeiramente, perplexa com a cena e interrompi a conversa.

– Desculpa, professora, mas um carcará acabou de matar um passarinho e comê-lo na nossa frente. Olha que loucura...

Mas é a lei, né. Interessante. Estamos falando de sobrevivência.

– É, não dá para ter dó. É a cadeia...

Incrível, se você olhar o ato em si não vai compreender mesmo. É por isso que você tem que ver as coisas no seu encadeamento, na sua teia e dentro da teia isso é possível.

– Isso! Normal, natural, né?

É natural, porque não desequilibra. Nós desequilibramos. Somos a única espécie que desequilibramos uns aos outros e desequilibramos as outras espécies. 

No fim de todo o bate-papo profundo, sem ideologias extrapoladas, com seriedade e serenidade, pergunto a ela se tem algo mais a acrescentar que eu não havia perguntado. E ela me responde com clareza: “Tem uma menina cheia de sangue nos olhos ali que você deveria entrevistar”.

A professora a chamou e nos apresentou.

– Então... me conta seu nome, idade, o que faz aqui?

Eu me chamo Ana Beatriz Leite, tenho 22 anos, sou estudante de serviço social, sou uma mulher negra, periférica, entrei na Universidade de Brasília em 2010 através do sistema de cotas raciais. Participo também do programa Afroatitude, no qual eu faço estágio na Diretoria da Diversidade.

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– E o que é diversidade para você?

Eu acho que a diversidade é uma nomenclatura para abordar todas essas questões, que são individuais, particulares, que para mim não é só uma questão ou um trabalho, é minha própria vivência. E eu, enquanto mulher, negra e periférica, é uma questão de vida, de consciência diária.

– O que você acha dos casos de abuso nas mídias sociais?

Acho que estamos vivenciando a comercialização dos casos de racismo, do sofrimento, angústias. Enfim, o próprio comércio. É para falar que estamos numa nova era onde o racismo, as injúrias e o preconceito estão mais evidentes. Mas no Brasil o racismo é velado. Não é tratado de forma profunda e séria, como deveria.

– O caso da banana lançada em campo para o jogador Daniel Alves, o que achou da campanha que veio em seguida? Você viu como uma tentativa de combate ao racismo, mesmo com a imagem negativa criada posteriormente?

Não. Não achei. Tornar o ser humano em animal irracional ou postar uma foto com uma banana não está combatendo o racismo, não, você está fortificando a raiz deste. Nós não somos macacos. Podemos até ter uma relação, mas não somos. É racismo mesmo, estampado. Não vejo essas campanhas como ferramentas de debate para o racismo.

– Você acha que tem solução para acabar com o racismo?

Aqui no Brasil, seria ingenuidade minha falar que dá para acabar com o racismo. Primeiro precisamos nos assumir que não nos reconhecemos como brasileiros, enquanto América Latina, nem como uma população afro-brasileira. Então é difícil falar que o racismo vai acabar, se o país ainda não assumiu que é racista. Como trabalhar uma questão encoberta?! Tem que dar espaços, inclusive na mídia. A própria universidade é um espaço eurocêntrico de aprendizado. A gente está muito longe. O sistema de cotas raciais tem apenas 10 anos. E uma mídia muito branca, que sempre torna as nossas questões em folclore. Você não vai debater seriamente se você transforma em folclore. Nós vivenciamos, dia após dia, questões muitos sérias, para se brincar de uma forma tão... tão perversa.

O fim da nossa entrevista deu a partida para uma chuva. Não era chuvisco. Chuva de verdade. Ar fresco. Umidade aumentando. Natureza que não julga, que vem para equilibrar. Tão natural quanto a vida aparecendo novamente nas cores de nossa Brasília.

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