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00/00/0000 Rei da Patifaria

Wagner Borges, mais conhecido como Dj Patife. Sucesso nas rádios e nos eventos mundo afora. Sua paixão é o Drum’n’Bass, estilo de raízes jamaicanas com batidas criadas em Londres, e muito bem adaptada para o território brasileiro. Ele é pioneiro nisso.

Nascido e criado na periferia de São Paulo, mas com sangue baiano – como ele mesmo diz – Patife, recebeu a equipe da Revista Pepper para um bate-papo super descontraído e animado. Contou sobre a parceria com Fernanda Porto e relembrou histórias inusitadas e engraçadas que ele passou ao longo de 18 anos de carreira. Além disso, Patife contou do seu amor por Brasília, e expôs os defeitos da cidade também. Tudo isso no Dudu Bar do Lago, regado muito champanhe e pimenta nas perguntas e respostas! Como não amar o Dj que fez, e ainda faz, a cabeça de milhares de jovens pelo Brasil e pelo mundo? #amo/sou Dj Patife. Confira a entrevista!

Revista Pepper: Você tem alguns traços árabes. Por causa disso, você já teve problema na alfândega?

Patife: Tenho toda vez. De diversos casos o inesquecível foi uma conexão de Monique para Istambul. Eu estava indo pra primeira edição do Rock in Rio Lisboa, e no dia seguinte eu ia pra Istambul. O contratante comprou passagem  de classe executiva. Quando eu subi no avião e coloquei meu case disk no compartimento de bagagem a chefe de cabine já me olhou torto. Eu vi na hora que a mulher pensou “esse maluco tá dando o truque”.  Quando aterrissamos em Monique, assim que eu peguei a mala, eu vi que ela fez um sinal pra quem tava do lado de fora. No caso 2 guardas com um pastor alemão.  Quando eu sai o guarda já me pegou e o cachorro já veio me cheirando. Pediram meu cartão de embarque, me levaram pra uma sala, pediram para eu tirar a roupa, pegaram uma faca e cortaram meu case disk. A primeira pergunta que eles fizeram foi: “onde tá a cocaína?”, falei que não mexia com isso. Aí eu tentei conversar, mas não teve isso não. Me amarraram 40 minutos na sala, me revistaram, me tiraram a roupa, fiquei na posição que Napoleão perdeu a guerra e tudo mais.

RP: E como você se sente com isso?

P: Hoje eu entendo. Passei a entender um pouco mais do que é a vida e como o mundo funciona. Não me machuco mais. Penso que o mundo é feito de aparências. E vamos combinar que a minha aparência... Eu tenho traços árabes. Quando eu aterrisso em qualquer lugar da Europa os caras já ficam ali “Oh, aquele ali é marroquino, é paquistanês”... Então quando eu chego na vistoria do passaporte, eu paro de ser o marroquino e passo a ser o brasileiro traficante. Melhora um pouquinho (risos)... Enquanto eles perdem tempo comigo, o “ponto x” acaba passando despercebido. Teve uma situação parecida também... Um voo de Sp para Paris. Fiquei 4 horas e 40 minutos trancado na sala. Perdi o voo e tudo. E no final, o cara tacou a mala toda revirada em cima de mim... E eu sou daqueles virginianos que tem TOC com arrumação. E eu não falava a língua, então não tinham nem como argumentar...

RP: E quais línguas você fala?

P: Fluente eu falo inglês, me viro no espanhol, não passo fome em italiano, e não passo sede em alemão.

RP: E quando você vai para o Oriente Médio, como você faz?

P: Eu vou tocar pelo menos 3 vezes por ano ali na região de Dubai, Doha, Abu Dhabi... Fui agora pro Líbano, e aí vai no inglês né (risos).

RP: Dizem que naqueles lados é proibido fumar, beber... Na Fórmula 1 não tem nem champanhe né. É assim mesmo?

P: Nos Emirados Árabes é “proibido” mesmo, mas não tem na frente das câmeras né? Não tem boate, nem nada. Mas um DJ vai tocar lá. Então qual é a regra do Shake? Ele imaginou “vamos fazer a Vegas do deserto, porém sem cassino, sem clubs e sem a casa das primas”, aí aceitaram... Mas eu toco nos restaurantes dos hotéis. Eles esparramam as mesas, e a gente toca ali. Não tem bebida abertamente, mas rola, lógico que rola.

RP: Como começou sua carreira e de onde surgiu o seu interesse?

Eu lembro que a minha brincadeira de criança era ficar gravando fita k7. Eu não era muito aquele menino de futebol, soltar pipa etc. Com 11 anos eu fui na primeira matinê na vida. Achava incrível porque lá a música não parava, mas no rádio parava. Achava fantástico. Depois o pessoal começou a ir pro centro da cidade pra dançar break e tal. Nem eu sabia, mas ali tava nascendo o movimento hip hop no Brasil. Logo mais eu me vi envolvido num grupo de rap, mas lá dentro não era o que eu queria ainda. Eu queria aquilo que eu vi com 11 anos. Depois eu comecei a criar uma identidade musical. E eis que com 18 anos eu consegui a primeira porta do sucesso, chamada Arena Music Hall em São Paulo. Um dia toquei lá por 15 minutos, o dono viu, se amarrou e trabalhei lá durante 4 anos. Em 97 deu a louca de conhecer esse som novo, o Drum and Bass. Então fui para a Europa. Eu com 122 dólares no bolso passei 22 dias por lá. Foi pão com pão, com pão e pão (risos). E lá me fez despertar uma curiosidade pela música brasileira. Engraçado, né? Então voltei pro Brasil, e lá na frente rolou a história de misturar a música eletrônica com a música brasileira.

RP: E como foi sua parceria com a Fernanda Porto?

P: Em 99 eu estava no Sesc de São Paulo,  fazendo um sonzinho casual numa recepção, e quando eu terminei veio uma moça falando “Tudo bem? Me chamo Fernanda Porto, trabalho com trilha de filmes e tal, mas tô produzindo um disco solo... Escuta aí meu disco”. E aí ela me ligava toda semana, e eu não lembrava de escutar o disco. Certo dia baixou a dona Amélia em mim, fui fazer uma faxina em casa e botei o disco dela pra escutar. Quando chegou na faixa 4 – não me esqueço disso – era um maracatuzão assim, muito rápido, e de repente escutei a frase “com guitarra e drum and bass”, e me chamou atenção. Pensei “porra, a mulher que toca todos os instrumentos tá falando do estilo de música que eu faço?”. Aí eu fiquei todo feliz. Era o “sambassim”. Na hora eu ouvia uma versão pra pista, bem diferente daquilo. Liguei pra ela. “Adorei! Pensei na possibilidade da gente trabalhar numa versão e tal”, e ela me veio falando que não tinha dinheiro pra me pagar! “Não! Eu só queria saber se você topa a ideia!” (risos). Aí nos encontramos e ficamos no estúdio 11 horas. Aí velho, depois disso foi uma loucura. 

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RP: E por que o apelido “Patife”?

P: Na minha infância tinha um amigo meu, chamado Ricardo, que tinha a mania de chamar todo mundo de patife. Só que tem um detalhe... Eu era daqueles que na hora de descer a ladeira ao invés de descer em pé, descia sentado, andava de carrinho de rolimã e passava as rodinhas em cima do dedo e quebrava a unha...  Aí ele ficava “é um patife mesmo”. E quando começou a história do grupo de rap, lá atrás, precisava de um nome, e eu “Quero DJ Wagner!”. Então quando eu fazia umas festinhas na rua vinha o Ricardo e ficava “Olha o DJ Patife”, eu não gostava, mas ai já era. Pegou.

RP: Fora o trabalho, o que eu te dá prazer?

P: Eu gosto de fazer muita coisa. Por mais paradoxal que pareça, eu gosto muito de sossego. Ficar quieto... Gosto muito de ver gente que eu não vejo há muito tempo... Peguei gosto pela leitura... Voltei na infância depois que tive filho, brinco demais e isso me dá muito prazer. Hoje namoro bem menos, porque com criança já viu né? (risos). Eu tenho um lance com a espiritualidade muito boa também. Eu estou dentro da umbanda, e essa negócio de mediunidade me persegue. Antes tinha medo, depois paixão. Coisa de amor e ódio mesmo. E agora eu entendo. Me dedico a isso também.

RP: Nesses 18 anos de carreira, teve alguma história engraçada, loucura de fã?

P: Eu me lembro de alguns episódios... Eu lembro que teve umas historias de umas minas que queria autógrafo de todo jeito mas não tinha onde assinar. Uma vez a mina tirou o sutiã e me deu, e a outra me de u uma calcinha porque ela tava sem sutiã. Puxou a calcinha e eu rabisquei (risos). Na Sérvia ou na Croácia tinha uma mulher que gritava pra caramba na minha apresentação, mas eu não via de onde vinha o grito. Sei que de repente a mulher levanta a blusa e mostra os air bags (risos). Aí eu vi de onde vinha os gritos. Pensava que eu tava ficando louco. Aconteceu dezenas de vezes em show e tudo, mas aquilo foi meio impactante.

RP: Você está em Brasília há quanto tempo? E sabemos que você toca bastante nos restaurantes Dudu Bar. De onde vem essa amizade com o chef Dudu Camargo?

Há 7 anos eu comecei a trabalhar com uma produtora daqui – já toquei muito em Brasília  e estabeleci um carinho muito grande pela cidade. Foi aí que eu conheci o DJ Luiz Melo, e foi ele que me influenciou a vir morar aqui. Então eu vim! Aí o Luiz falou que tava tocando num restaurante e tal, e um dia o Dudu Camargo me viu tocando na beira do lago, me elogiou, e me convidou para botar um som na unidade da Asa Sul. E aí começou essa história. Quando eu tô aqui, eu faço o som. Eu venho pra tocar o que eu gosto de ouvir. É um lugar onde eu consigo reunir amigos, eu consigo encontrar o pessoal.

RP: Você pode contar pra gente o valor do seu cachê?

P: Não tenho segredo quanto a isso. Eu não gosto de ter valor fechado, então tem evento que pode ser de 5 mil euros ou pode ser de 2 mil euros. Depende. Tem evento no Brasil que pode ser 3 mil ou 5, de repente até mil. Eu ainda mexo com a musica por amor a ela.

RP: Você é um cara que veio de São Paulo, também quis ir pra Recife mas acabou vindo pra Brasília. O que você acha da cidade?

P: Nem eu sei explicar direito. Esse lugar me abraça, me sinto acolhido, me sinto bem. Eu gosto demais daqui. Acho que aqui o povo parece que tem mais calma, mais solidariedade. Eu gosto da mistura desse povo. Mas aqui em Brasília eu abomino o sistema de transporte público. O itinerário não é claro. Londres eu tenho o mapa do transporte na mão. Hoje em dia lá fora tem até um aplicativo falando horários e tal. Hoje eu vim pra entrevista de ônibus porque meu carro está com problema, mas eu curto muito andar de ônibus e metrô, menos aqui em Brasília.

RP: Além desse sistema precário do transporte público em Brasília, o que mais você não gosta na cidade?

P: Não gosto do lance das carteiradas... Vira e mexe chega alguém e “Pô patife, sou da auditoria do não sei o que lá... Filho do Ministro sei lá quem”... Pô, grande bosta! Foda-se – pode botar isso – Foda-se! Chega lá anônimo, não precisa falar isso. Outro dia chegou o cara e foi pegar no peito de uma mulher e usou essa desculpa... Pô, isso é ser sem noção demais. Feio entendeu? Outra coisa que eu não gosto aqui é a especulação imobiliária (risos). Inacreditável. Outra coisa: Pra você comer aqui depois das 23h não tem como! Meu Deus! Que falta que eu sinto do sujinho na rua da Consolação! (risos) Mas resumindo: por vontade própria eu não me vejo saindo daqui não.

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RP: Você acha que a vida cultural de Brasília hoje está fraca? O que pode ser feito para melhorar?

P: O que eu vi de coisas boas e culturais em Brasília são eventos muito caros! Mas eu acho que o recado a gente tem que mandar pra Secretaria da Cultura, pra abrir esse cofre, vê se esse povo seleciona produtores culturais que tenham experiência nesse ramo pra agitar as coisas legais na cidade. Eu lembro que tinha muita coisa bacana e gratuita acontecendo. Tava sempre acontecendo coisa na Funarte, Clube do Choro... Não sei falar o que acontece. Estagnação, falta de dinheiro, acomodação dos governantes... Mas tenho uma pergunta que eu me faço sempre: “Como que uma capital, o ponto G de um país, é tão deficiente de uma série de coisas e inclusive essa?”. Na boa velho...

RP: Você não acha que a gente está privilegiando artistas de fora? Por exemplo, há pouco tempo teve o show do Paul McCartney...

Paul McCartney não encheu o Mané Garrincha ninguém mais enche né? (risos) Pois é, como pode um lugar com tanta riqueza histórica e artística valorizar mais o de fora? Parece que é uma doença da humanidade... Começando por mim... Eu toco 70% lá fora e 30% aqui. O que será isso? Será que a minha própria casa não me aceita? Se é daqui não presta? Vejo o pessoal pagando 300, 400 mil pro David Guetta – tudo bem, existe uma séria de fatores que agrega valores – mas lá fora o cara toca num pub onde ele tá ganhando mil libras. Quando eu vou pra fora tenho grandes apresentações e repercussão, e aqui sou um Zé largado (risos).

 RP: E quais são seus planos pra 2015?

Meu grande plano é acabar de construir minha casa e parar de pagar aluguel (risos). Não aguento mais!!! (risos). E musicalmente falando, acabei de lançar meu próprio selo musical, chamado Baticum Records, digital por enquanto. A ideia é lançar outros DJs, produtores, etc. Pode ser uma casa pra lançar novos nomes. Tenho um projeto de lançar ainda esse ano um cdzinho inteiro, com 12 faixas mais ou menos, mas está tudo bem encaminhado.

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