Excesso de turistas no litoral  provoca reações mundiais

Post original publicado em 30 de setembro de 2025

Se existem duas coisas que não combinam são litoral e excesso de turismo ou, o overturism. O equilíbrio fica ainda mais prejudicado num planeta que passa por um aquecimento fora de controle, com aumento do nível do mar e eventos extremos cada vez mais potentes, como é o caso da Terra,  cujas consequências são dramáticas especialmente para esta sensível faixa de transição entre continentes e oceanos. Mas, como prevenir o excesso num mundo superpopuloso e justamente num dos locais mais procurados por turistas como o litoral? Hoje, o sobreturismo  é um problema mundial. O Mar Sem Fim fez uma curadoria na rede para saber quais medidas estão sendo tomadas mundo afora.

Mas, afinal, o que é o overturism?

Em essência, o overturism se refere ao excesso de pessoas em um mesmo lugar ao mesmo tempo. O fenômeno se configura quando determinado destino recebe um número excessivo de turistas a ponto de causar impactos negativos na qualidade de vida dos residentes, no meio ambiente circundante, e na própria experiência dos visitantes. A superlotação aumenta os preços, pressiona a infraestrutura, ameaça a identidade local, amplia a poluição, o barulho, e a deterioração social, e cultural.

No entanto, quando bem feito, é inegável seu potencial para reduzir a pobreza, gerar emprego, promover a inovação, e manter a sustentabilidade ambiental.

praia de Santos superlotada
Isto é, ou não, excesso de turismo no litoral? Santos. Imagem, Matheus Tagé/Jornal A Tribuna.

Volume de negócios do turismo é igual ao das exportações de petróleo

Segundo a Organização Mundial do Turismo, a agência especializada das Nações Unidas, hoje, o volume de negócios do turismo é igual ou até supera o das exportações de petróleo, produtos alimentícios ou automóveis. O turismo tornou-se um dos principais atores do comércio internacional e representa, ao mesmo tempo, uma das principais fontes de renda para muitos países em desenvolvimento.

O problema são os números crescentes e a falta de controle. Estima-se que em 2024 tenham ocorrido 1,5 bilhão de chegadas de turistas internacionais em todo o mundo, atingindo os níveis pré-pandêmicos e crescendo 11% em relação a 2023. O crescimento continuou no primeiro semestre de 2025, com um aumento de 5% nas chegadas em relação ao mesmo período de 2024, atingindo quase 690 milhões entre janeiro e junho.

As projeções para o futuro são sombrias. A Organização Mundial do Turismo prevê que até 2030 o fluxo internacional de turistas ultrapassará os 2 bilhões.

Europa toma medidas para conter o excesso de turismo no litoral

Segundo a BBC, nos últimos anos, o excesso obrigou muitos dos pontos turísticos mais populares da Europa a tomarem medidas para controlar os danos. Veneza agora cobra dos turistas que fazem passeios de um dia. A cidade também proibiu a entrada de navios em seus canais enquanto Barcelona limitou o número de leitos em hotéis e Amsterdã está restringindo os Airbnbs.

No entanto, nenhuma cidade foi tão longe quanto Dubrovnik, que estabeleceu um limite máximo rígido para o número de pessoas que podem estar dentro de suas muralhas ao mesmo tempo. Além disso, o prefeito de Dubrovnik limitou o número de navios de cruzeiro a dois por dia (em comparação com um pico de cerca de oito) numa atitude que contrasta com as dos alcaides de municípios costeiros de Pindorama que fazem o possível para ter cada vez mais navios de cruzeiro – máquinas de poluição atmosférica e marítima -, em seus terminais.

Navios de cruzeiro agravam o problema

Navios de cruzeiro são criticados por agravar o problema. Os turistas de navios  tendem a desembarcar por apenas algumas horas. Isso significa uma forte pressão sobre a infraestrutura local e contribui relativamente pouco para a economia porque, geralmente, os passageiros são totalmente atendidos a bordo.

Pitangueiras, Guarujá
Pitangueiras, Guarujá, Imagem, Wherter Santana/Estadão Conteúdo.

O jornal Le Monde resume em um parágrafo o problema e a possível solução. ‘Neste verão (2024), sob temperaturas às vezes escaldantes em Atenas, turistas esperaram quase uma hora antes de visitar a Acrópole. O número de visitantes saltou 80% desde 2019, de acordo com o Ministério da Cultura grego. Em julho, até 23 mil pessoas subiram a colina do famoso local, de acordo com a agência que opera sítios arqueológicos. No início de agosto, o ministério decidiu regulamentar as visitas. Um máximo de 20.000 pessoas poderão subir a colina todos os dias.

Até Paris impõe limites

Deutsche Welle revela que Paris passou a limitar o número de dias por ano que os moradores podem alugar sua residência principal através de plataformas como o Airbnb. Enquanto isso, a Tailândia  fechou as populares Ilhas Similan e Surin este ano para permitir que os ecossistemas se recuperem e planeja cobrar taxas de entrada no futuro.

A mesma fonte revela ainda que as emissões do turismo aumentaram 65% entre 1995 e 2019. Hoje a atividade é responsável por 8% a 10% de todas as emissões globais de gases de efeito estufa.

Limitar a entrada não é a única maneira de controlar

Segundo a UNESCO, vários tipos diferentes de medidas estão sendo aplicadas e estão em constante evolução. Seu sucesso ou fracasso terá que ser testado ao longo de várias temporadas  para estabelecer quais soluções são mais eficazes a longo prazo. A maioria das abordagens ainda é nova, dado o ressurgimento do turismo em 2023 e 2024 após a pandemia de Covid-19.

Praia de Boa Viagem, Recife .
Praia de Boa Viagem, Recife. Imagem, Marlon Costa/Pernambuco Press.

Para a UNESCO, uma medida que está se tornando comum em cidades turísticas brasileiras, a cobrança de uma taxa de entrada como determinou Ubatuba, no litoral norte paulista, depois São Sebastião, e agora Angra dos Reis, ‘não tem sido bem sucedida em cidades europeias. Encontrar o equilíbrio é um delicado equilíbrio entre regulação e planejamento efetivos, garantindo o bem-estar da comunidade’.

UNESCO parece estar certa sobre a cobrança de taxas. Apesar dela, este ano durante a Semana Santa turistas levaram 14 horas para chegar em Ubatuba a partir de São Paulo. Alguém merece um suplício destes? E quanto à famosa sustentabilidade tão procurada e almejada?

A falta de discussão do assunto no Brasil

Normalmente, quando o assunto ‘turismo’ entra na pauta da mídia o tema é o baixo número de turistas estrangeiros que nos visitam, apesar das belezas naturais que temos em quantidade.

Contudo, no último ano houve um crescimento. Segundo dados da Secretaria de Comunicação Social, em 2024, o Brasil alcançou um recorde na chegada de turistas internacionais, quando 6.773.619 viajantes escolheram destinos nacionais para viagens. O número superou o marco histórico de 2018, de 6.621.376 estrangeiros, até então a maior marca da série histórica, iniciada em 1970.

praia superlotada em Florianopolis
Florianópolis também com praias superlotadas.

Para efeito de comparação, em 2024 a França, líder do World Tourism Ranking, recebeu 100 milhões de turistas internacionais. Em seguida estão a Espanha, Estados Unidos, Itália, Turquia, México, Reino Unido, Alemanha, Grécia e Áustria. No mesmo ano o Brasil ocupava apenas a 37ª posição.

Excesso de turismo no litoral do Brasil

O que mais nos impressiona é que mesmo estando na rabeira do ranking mundial de turismo, apenas o turismo interno já causa uma série enorme de superlotações no litoral durante o verão e em feriadões ao longo do ano.

Mas, apesar do cenário devastador que as fotos deste posts escancaram, o sobreturismo não é debatido por aqui nem mesmo agora, durante a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, de 2021 a 2030. Não à toa, o litoral do Brasil enfrenta uma implacável decadência.

Praia lotada Ubatuba
Praia lotada, Ubatuba. Imagem, Francisco Trevisan.

Quando a superlotação ocorre, como mostram as imagens, todos os problemas citados nesta matéria acontecem sem que quase ninguém se incomode, ou abra uma discussão sobre o problema. O trânsito se torna infernal, a locomoção  um suplício, a poluição aumenta tremendamente, as praias ficam superlotadas quase sem espaço para as pessoas caminharem, etc.

Este caos já é rotina no verão no litoral norte paulista, nas praias de Santa Catarina, Rio de Janeiro, e um sem-número de destinos no Nordeste como Jericoacoara, no Ceará; Pipa, no Rio Grande do Norte, destruída pelo turismo desordenado; Porto de Galinhas, Pernambuco; Maragogi, Alagoas; Praia do Forte, e sul do Estado, na Bahia, e até mesmo em parques nacionais como Fernando de Noronha, e Lençóis Maranhenses.

E nós, vamos continuar fingindo que não vemos?

*Com informações de marsemfim.com.br e João Lara Mesquita.

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