No OFF

A maternidade sem telas é um esporte radical. Não está nas Olimpíadas ainda porque ninguém sobrevive tempo suficiente pra treinar direito, mas deveria.

Criar filhos sem celular, tablet ou TV ligada 24 horas é escolher viver no modo hard. É acordar todos os dias pensando: “Hoje eu só preciso manter esse ser humano vivo. Se aprender alguma coisa no caminho, ótimo.”

Porque a verdade é que criança sem tela não fica entediada. Ela fica criativa. E criatividade infantil é basicamente um convite ao pronto-socorro.

Sem telas, eles descobrem que o sofá pode virar trampolim olímpico, a cadeira serve perfeitamente como escada e aquela tomada ali… bom, aquela tomada claramente foi colocada ali pra ser explorada. A gente passa o dia repetindo frases que jamais imaginou dizer:
— Desce daí.
— Não, isso não é um brinquedo.
— Por que você está sem roupa?
— NÃO COLOCA ISSO NA BOCA.

A maternidade sem telas nos transforma em vigilantes profissionais. A gente desenvolve um sexto sentido que detecta silêncio a quilômetros de distância. Porque criança quieta demais não está “brincando”. Está planejando. E normalmente o plano envolve água, altura ou fogo. Às vezes os três.

Mas, ironicamente, é nessa loucura toda que moram as gostosuras. Sem telas, eles inventam histórias improváveis, criam mundos com caixas de papelão, fazem amizade com formigas e têm diálogos profundos com bonecos que claramente precisam de terapia. A imaginação deles corre solta… e a nossa pressão arterial também.

A gente reclama, claro. Ironiza, suspira, conta até dez, perde a paciência e depois se sente culpada por ter perdido a paciência. Mas também ri. Ri quando vê o filho explicando com absoluta convicção que o chão é lava, que a meia é capa de super-herói e que aquela panela é um capacete espacial.

Criar filhos sem telas é viver no limite entre o amor incondicional e o desejo secreto de cinco minutos de silêncio. É exaustivo, caótico, às vezes beira a insanidade. Mas também é barulhento de risadas, sujo de histórias e cheio de memórias que nenhuma tela consegue substituir.

No fim do dia, quando eles dormem — finalmente — a gente olha praquele rostinho tranquilo e pensa: “Sobreviveu. Eu também.”
E isso, convenhamos, já é uma grande vitória.

*Artigo escrito por Julyana Almeida

Jornalista, mãe de 3 crianças lindas e disposta a compartilhar as loucuras e gostosuras da maternidade.

Instagram: https://www.instagram.com/rabiscosdeumamae

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