Galinha dos ovos de ouro

Pensando sobre a situação atual, com outro escândalo de corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes praticados por um banqueiro, não vejo tanta gente perplexa. Apesar de se tratar de bilhões de reais em prejuízos a muitos, em favor de alguns. Há fortes indícios de participação de políticos e do judiciário nesse butim que, mais uma vez, espolia aquele que trabalha. É muito triste perceber
que isso está se tornando corriqueiro, natural, portanto, que nos adaptemos, à força, a esse tempo em que coisas deploráveis passam a ser “normais”. Algumas pessoas, no entanto, sofrem com a sensação de incapacidade para enfrentar a tragédia que, como é quase certo, tornará a vida de nossos descendentes mais dura, penosa e triste.

Os nascidos há 40 anos ou mais puderam experimentar a ideia de que trabalho dignifica, construir a própria história satisfaz e viver num mundo de respeito e oportunidades engrandece. Tive esse privilégio, apesar da condição modesta de minha família, de trabalhar desde muito cedo, mesmo sendo PcD. Engraxate, vendedor de loterias, balconista, datilógrafo e outras atividades que já estão em extinção. Mas valeu cada instante daquelas atividades para formar o que me orgulho de ser hoje. Estudar sem bolsa, sem internet, sem tablet ou IA, porém com muito mais proximidade de pessoas também lutadoras, íntegras. Algumas dessas amizades já duram mais de meio século e isso é uma honra.

Hoje me ponho a pensar nas razões pelas quais tão poucas pessoas conseguem pensar analiticamente sobre as discrepâncias que ocorrem ao seu redor. E me lembro de um documentário que apresentava razões para que as pessoas perseguidas na Alemanha nazista não saíssem dali, expondo-se a um risco
elevado, muitas delas sendo, afinal, assassinadas depois de terem seus bens saqueados e corpos massacrados. Segundo os relatos, poucos acreditavam que aquilo duraria, que bastaria aguardar que as coisas iriam melhorar poresgotamento do modelo.

Fazendo uma analogia com o que vivemos hoje, lembro-me de um conto de fadas infantil, escrito por Benjamin Tabart, um inglês que o publicou em 1.807: João e o Pé de Feijão. Na trama envolvente que incluía extrema pobreza, mas também sorte e coragem, um garoto recebe alguns grãos de feijão em troca dos itens que sua mãe lhe confiou para negociar por alimentos. A mãe, desesperada, atirou pela janela as sementes leguminosas. Como eram “mágicas”, no outro dia já haviam brotado e se transformado em árvores enormes. João escalou-a e chegou a um castelo localizado além das nuvens, onde certo gigante mantinha uma galinha que punha ovos de ouro.

O fim da história, nesse contexto, não é relevante. Basta avaliar que seria de vital importância preservar a pobre ave, uma vez que o poder de seu proprietário reside exatamente no que ela produz: os ovos de ouro.

A ovípara entrega, de bom grado, sua liberdade, sua vida, sua produção a troco dos farelos, das migalhas que a alimentam. Então, se a miséria produz votos, qual político, em sã consciência, se disporia seriamente a eliminá-la?

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.

Whatsapp: (61) 99286-6236

Instagram: Mario S R Ananias (@mariosrananias) • Fotos e vídeos do Instagram

Linkedin: (34) Mário Sérgio Rodrigues Ananias | LinkedIn

Site: Mário S. R. Ananias – Sobre Viver com Pólio (mariosrananias.com.br)

Related post

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *