Mandato com base na experiência de vida: Jaqueline Silva e suas bandeiras
Com raízes fincadas na saída sul do Distrito Federal, a deputada distrital Jaqueline Silva construiu sua trajetória entre o Gama, onde nasceu, e Santa Maria, cidade em que vive desde a adolescência e que se tornou base de sua atuação política. Eleita em 2018 e reeleita em 2022 como a mais votada da Câmara Legislativa, ela afirma que a experiência de vida nas regiões administrativas molda suas prioridades no mandato, com foco em regularização fundiária, políticas sociais e infraestrutura urbana.
Neta de beneficiária de programa habitacional do ex-governador Joaquim Roriz e ex-comerciante do varejo local, Jaqueline associa sua atuação política a vivências pessoais que, segundo ela, permitem compreender de perto os desafios enfrentados por moradores e empreendedores das cidades satélites. À frente de pautas como o Plano Diretor de Ordenamento Territorial e programas de assistência educacional, a parlamentar também destaca a interlocução com o Executivo, especialmente com o governo de Ibaneis Rocha, na implementação de políticas públicas de alcance social.
Nesta entrevista, a deputada fala sobre origens, prioridades legislativas, impactos de programas sociais, regularização urbana e o cenário político do DF, além de comentar temas recentes envolvendo o sistema financeiro público, como as repercussões relacionadas ao Banco de Brasília.
A deputada Jaqueline Silva tem uma trajetória pessoal ligada ao Gama e a Santa Maria. De que forma essa vivência molda suas prioridades políticas e ações no mandato?
Eu nasci e morei a primeira infância no Gama. Aos 11 anos vim morar em Santa Maria, onde resido até hoje. É natural que tenhamos vontade de melhorar a cidade que vivemos. Foi isso que me impulsionou para a política. Hoje, temos realizações que não cabem no nosso informativo anual. Conheço as duas cidades com muita propriedade. Passei a andar e trabalhar em todo o DF, mas a saída sul conta mais com a nossa presença por viver aqui.
- Sua família foi beneficiada por um lote durante o governo de Joaquim Roriz. Como essa experiência influencia sua atuação na área de regularização fundiária e políticas habitacionais?
É sempre muito importante lembrar do trabalho de Roriz. A minha avó recebeu o cantinho dela das mãos do nosso eterno governador. Antes, nós vivíamos de aluguel. Nossa família era muito humilde e não ter que pagar aluguel representava mais pão na mesa. Isso é importante demais. Hoje, muitas famílias ainda convivem com esse problema. Outras são assombradas pelo fantasma das derrubadas. Como presidente da Comissão de Assuntos Fundiários (CAF) e relatora do Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT) pudemos transformar diversas áreas em passíveis de regularização. É um primeiro passo, mas muito, muito importante para quem vive sob o medo dos tratores.
- Antes da vida pública, a senhora atuou como empreendedora no comércio local. Como essa experiência impacta suas propostas para geração de emprego e fortalecimento da economia no Distrito Federal?
Passei toda a minha vida no balcão. Sou comerciante por vocação. Não estou exercendo, mas tenho imensa gratidão por tudo que aprendi. Hoje, sei o impacto de cada medida tomada nas instâncias de poder, sei a importância de uma infraestrutura na cidade, o custo da distância do poder público de quem produz e faz economia girar. Outro dia mesmo conversava com comerciantes sobre como o estacionamento que fizemos trouxe mais clientes e mudou completamente o movimento da loja. Essa experiência faz toda diferença para quem legisla.
- Após quatro disputas eleitorais, a senhora foi eleita em 2018 e reeleita em 2022 como a deputada distrital mais votada. Quais fatores explicam essa consolidação política junto ao eleitorado?
Nós vínhamos em uma crescente. Chegar à vitória foi uma benção. Acredito que nossos amigos e apoiadores fizeram e fazem toda diferença. Uma pessoa de cidade satélite, de Santa Maria, neta da Dona Joana, filha da Nalvinha… as pessoas se identificam comigo porque eu sou igual a todo mundo. Mas acredito que elas tenham visto uma vontade muito grande de fazer diferente. E nós fizemos. Trabalhamos muito, conquistamos vitórias importantes e fomos reconhecidos pela população.
- Seu mandato é apresentado como compartilhado com a população. Na prática, como funciona esse modelo dentro da Câmara Legislativa do Distrito Federal e quais resultados já foram alcançados?
Nós estamos em todos os lugares que somos chamados. É compartilhado, pois se você tem uma demanda, ela passa a ser nossa até que a gente consiga. Vou te dar um exemplo: antes mesmo de assumir o mandato, as pessoas me diziam, “Jaqueline, quando você ganhar, trabalhe pra gente uns cursinhos de formação aqui em Santa Maria. Pode ser em qualquer canto, mas a gente precisa melhorar a qualificação. A gente precisa e os filhos também”. Hoje, temos uma Escola Técnica que é destaque em todo DF. Não foi tenda, não foi sala emprestada. Foi construído um prédio lindo, com professores maravilhosos, com alunos espetaculares, que me enchem de orgulho. Vou te dar outro exemplo: a rodoviária do Gama era uma vergonha. Os moradores definiram como prioridade. Destinamos o recurso, agilizamos o projeto, acompanhamos e fiscalizamos a obra e, hoje, a rodoviária foi reconstruída e oferece um espaço melhor para passageiros, motoristas, cobradores, comerciantes e todo mundo que circula por ali.
- Programas como Cartão Material Escolar, Cartão Creche e Cartão Uniforme Escolar têm grande alcance social. Quais impactos concretos essas políticas já produziram nas famílias do DF?
É de dar orgulho. O CME e o Cartão Creche já estão consolidados. O cartão Uniforme Escolar ainda está em adaptação, mas já aponta como ferramenta importantíssima para o desenvolvimento econômico do setor de malharias. O CME eu encaro como um filho meu. Brigo por mais recursos todos os anos e o governador Ibaneis é sempre muito sensível. Ele diz que sou a mãe do CME. Eu fico cheia de orgulho. Fui uma criança que não tinha dinheiro para comprar os materiais. Isso coloca a gente em uma situação muito difícil, de vergonha mesmo. Hoje eu fico toda, toda quando entro em uma papelaria e tem beneficiário pagando uma mochila bonita com o CME. A papelaria vende mais, contrata mais, gera emprego, faz a economia girar. O cartão Creche é outra história de amor. Eu trabalhava no nosso sacolão e carregava o Diego, meu filho, comigo. Tirava do berço de madrugada pra levar ao Ceasa. Muitas mães não podem carregar o filho pro trabalho. Os chefes e patrões não aceitam. E aí? O Cartão Creche entra aí. As crianças passam a ser atendidas em instituições de ensino particulares, com infraestrutura. Isso gera tranquilidade para as mães e pais poderem trabalhar. É um avanço gigante.
- A senhora tem defendido investimentos em infraestrutura, especialmente na saída sul, com foco no Gama e em Santa Maria. Quais obras e melhorias estão em andamento ou previstas?
Como disse acima, com a graça de Deus, foram tantas realizações e entregas nesses dois mandatos que fica até difícil a gente conseguir listar e enumerar, mas eu sei que ainda temos muito para fazer. Atualmente, em Santa Maria temos a construção da nova Feira Permanente, um espaço amplo, que entregará muito mais conforto e segurança aos feirantes e clientes, além da conclusão da drenagem do Polo JK; reforma do campo sintético, campo de areia, parquinhos e implantação de pista de caminhada e ciclovia na Praça Central; construção de calçadas com acessibilidade; pavimentação de via marginal na DF 290; instalação de iluminação de LED; ampliação do BRT e estamos transformando um antigo posto policial, na QR 216/316, em uma UBS. Já no Gama, está sendo atendido uma reivindicação da comunidade que é a reforma do campo sintético da Alvorada, a construção de Pontos de Encontro Comunitário e a ampliação de uma entrega que temos realizado desde o primeiro mandato, que é a construção de calçadas em vias residenciais.
- À frente da Comissão de Assuntos Fundiários, quais são hoje os principais desafios da regularização urbana no DF e quais avanços a população já pode perceber?
A regularização, aqui no DF, é um processo desafiador e fundamental para a população e é impressionante o quanto impacta diretamente os moradores de diversas regiões daqui. Não é um processo fácil, porque envolve diretamente muitas questões fundiárias, mas estamos conseguindo dar passos importantes. Inicialmente, já conseguimos beneficiar centenas de pessoas que moram em regiões de Arniqueiras e Vicente Pires e, nesta semana, está sendo sancionado o novo Plano Diretor de Ordenamento Territorial. Um instrumento legal para garantir a qualidade de vida à população, em que nós estudamos e trabalhamos a fundo, por meio de um diálogo amplo com vários segmentos e grupos comunitários. Buscamos atender as mais diversas necessidades de moradia, comércio, infraestrutura e ambiental, e conseguimos aprovar na Câmara Legislativa, no ano passado.
- Diante das repercussões envolvendo o Banco de Brasília e o chamado escândalo do Banco Master, como a senhora avalia os impactos desse episódio para a credibilidade do sistema financeiro público? Quais medidas considera necessárias para garantir transparência e segurança institucional?
Acredito que o sistema financeiro deve se reorganizar em torno de mais transparência e meios de controle para evitar novas situações como essa. A autorização de compra passou pelo CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) antes de seguir para a CLDF. De acordo com os números que tivemos acesso, o banco registrou lucro líquido de 1 bilhão em 2024. Confiamos que o próprio setor se reorganizará após os prejuízos causados ao Fundo Garantidor de Crédito para que não tenhamos novos casos parecidos.
- Diante do cenário político atual, como a senhora analisa o quadro que começa a se desenhar para as próximas eleições ao Governo do Distrito Federal?
Tudo indica que teremos uma eleição de temperatura elevada. O nosso grupo político tem muito o que apresentar. Muitas realizações. Mas é preciso mostrar essas realizações com muita competência. Espero que tenhamos uma disputa limpa e baseada em realizações e propostas. Queremos o melhor para o DF.