El futuro de mis rodillas. (A poupança dos joelhos)
João Régis Magalhães
Tenho andado muito preocupado com o futuro. Não com o futuro, futuro — aquele desconhecido que convencionamos chamar de tempo que ainda não chegou e que nem sabemos se chegará. Porque a única certeza mesmo é o presente. O tal do futuro é só uma possibilidade. O resto é especulação.
Minha preocupação é mais específica: El futuro de mis rodillas, que, na língua pátria, seria “O futuro dos meus joelhos”. (Hoje estou todo metido: tive aula de espanhol. A pessoa faz umas aulinhas no Duolingo e já começa a se achar quase um nativo da língua hispânica… Ah, tenha dó.)
Descobri, meio tarde talvez, que envelhecer não é para amadores. E que o corpo, esse sócio que está conosco desde o nascimento, começa a cobrar a conta de décadas de pequenos descuidos: um elevador no lugar da escada, um “segunda-feira eu começo”, um “só mais esse pedaço”, um “depois eu compenso”.
A gente nunca compensa.
Hoje dedico parte das manhãs aos cuidados com o amanhã. (Desculpe o trocadilho, mas não resisti — e até que soou elegante.) Faço caminhadas longas, dessas em que a gente sai se sentindo um atleta olímpico e volta tentando dar as últimas passadas com o máximo de dignidade ainda disponível. Intercalo com treinos na academia, esse templo moderno onde pessoas comuns tentam convencer o próprio corpo de que ainda existe algum vigor ali — e o corpo finge que acredita.
Nunca fui atleta. Pelo menos nunca cheguei perto de disputar uma Olimpíada. Meu currículo esportivo sempre foi mais esforçado do que competitivo — embora eu já tenha tido carreira respeitável no bafo e resultados promissores no cuspe à distância. Modalidades injustamente ignoradas pelo esporte mundial.
Mas sempre gostei da sensação de me mexer. O corpo agradece. A mente, então, nem se fala. Fica mais leve, mais organizada, e os pensamentos parecem até chegar mais cedo.
Hoje, porém, confesso: não malho só por prazer. Malho como quem faz uma poupança. Um investimento de longo prazo. Cada agachamento é uma aplicação no futuro. Cada caminhada é um PIX para o amanhã. Cada alongamento é uma tentativa de garantir que, lá na frente, eu ainda consiga amarrar o sapato sem precisar de planejamento logístico.
(O parágrafo acima é uma homenagem ao amigo Everton. Ele vai entender.)
Porque a verdade é simples: a gente quer envelhecer com dignidade. Continuar independente, autossuficiente, senhor do próprio nariz — sem depender de seu ninguém.
Parece um desejo simples. Mas não é. Exige disciplina, constância e vontade. Muita vontade.
Tenho reparado que não estou sozinho nessa. Os parques estão cheios de cabeças prateadas em movimento. Gente que trocou o sofá pelo tênis, o controle remoto pela garrafinha de água e o “já deu” pelo “vamos ver até onde ainda dá”.
É uma geração que parece ter feito um acordo silencioso com o tempo:
— Podem até aparecer as rugas — dizem — mas, para me vergar, vão ter que me pegar primeiro.
Recentemente descobri até que existe um nome para isso: NOLT — New Older Living Trend. Confesso que achei chique. Antigamente, isso se chamava simplesmente não querer enferrujar. Ou, em bom português: continuar funcionando.
Mas milagre não existe. O tempo é um escultor teimoso. Vai tirando massa muscular, enfraquecendo os ossos e alterando o metabolismo — e, pior, faz tudo isso sem pedir licença. Uma reforma feita à revelia do morador. Uma transformação permanente e sempre para pior.
Infelizmente.
Por isso, a única rebeldia possível é o movimento. Sair da inércia e se movimentar. Porque ficar parado é como entregar a chave para a gravidade e esperar para ver o que acontece. É apostar no escuro. É acreditar na sorte sem ajudar o destino.
Então, a regra é simples: levantar, mexer, insistir. Mesmo quando a vontade é ficar onde está, sem nem tirar o pijama. Mesmo quando a desculpa parece ótima. Mesmo quando o clima sugere que a melhor atividade física do dia seja apenas virar devagar para o outro lado da cama.
Mas coragem. A vida em movimento pede coragem. Muita coragem. (Adaptei de Guimarães Rosa.)
Nunca é tarde — dizem os NOLTs. A vida pode recomeçar aos 60, aos 70 e, quiçá, aos 80. Ainda haverá futuro pela frente. Ainda haverá lenha para queimar. Nunca é tarde para estudar, mudar, namorar, viajar, empreender ou até escrever um livro. Nunca é tarde nem para começar a gostar de academia… embora, nesse caso, talvez seja prudente começar com alguma cautela. Vai que você descobre que o começo é a parte mais difícil.
E os números confirmam: somos muitos. Uma multidão grisalha movimentando a economia, os parques, os aviões, as ideias e, principalmente, a própria vida. Gente que já entendeu que não é o tempo que envelhece a gente.
O que envelhece a gente:
É parar. É simplesmente se acomodar. É aceitar passivamente os efeitos e as agruras do viver.
No fundo, acho reveladora — e até filosófica — essa fase em que a gente entende que juventude não é apenas uma idade. É uma decisão diária de não desistir de si mesmo.
E assim sigo, fazendo minha modesta poupança corporal. Guardando um pouco de fôlego, um pouco de força e um pouco de equilíbrio a cada dia. Como quem guarda moedas em um cofre, sem saber exatamente quando vai precisar — mas sabendo que vai.
Porque, se tudo der certo, quero chegar bem lá na frente.
Bem mesmo.
De preferência… caminhando com as próprias pernas e com a lucidez para escolher meus próprios caminhos.
Isto é: se as minhas rodillas — ou melhor, os meus joelhos — colaborarem.
(E, se não colaborarem… a gente negocia.)
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João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br.

João Régis Magalhães
Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.
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