Engenharia sem Voz: quem representa o engenheiro brasileiro?
A engenharia brasileira constrói mais do que pontes, cidades, sistemas e soluções. Constrói caminhos para o desenvolvimento, sustenta a vida moderna e materializa, em concreto, aço, cálculo e inteligência, as bases do futuro nacional. Ainda assim, de forma paradoxal, o engenheiro parece cada vez mais afastado das decisões que moldam os rumos da própria profissão.
Essa contradição não surgiu por acaso. Ela decorre de um modelo institucional que, ao longo do tempo, foi se distanciando da base profissional e se fechando em estruturas pouco permeáveis ao debate amplo, transparente e verdadeiramente representativo.
O Sistema Confea/Crea, instituído sob a égide da Lei nº 5.194/66, exerce papel relevante na regulamentação e na fiscalização do exercício profissional. Não se pode ignorar essa função. Mas também não se deve ignorar que o modelo vigente dá sinais evidentes de desgaste diante das exigências contemporâneas da engenharia e das transformações da sociedade brasileira.
A recente discussão em torno do processo eleitoral do sistema lança luz sobre esse distanciamento. Alterações de calendário, insuficiência de diálogo com a base e preocupações relacionadas à transparência do processo reforçam entre muitos profissionais uma percepção inquietante: a de que as decisões mais importantes nem sempre são construídas com a participação de quem vive, na prática, os desafios da engenharia.
Mais do que uma crítica circunstancial, trata-se de uma reflexão de natureza estrutural.
A engenharia é, por essência, técnica, racional e orientada por resultados. Seu compromisso é com a realidade, com a segurança, com o planejamento e com o interesse coletivo. Não pode, portanto, estar submetida a dinâmicas que enfraqueçam sua governança, reduzam sua credibilidade institucional ou comprometam a confiança que a sociedade nela deposita.
Outro ponto sensível diz respeito à utilização de recursos públicos. Conselhos profissionais são autarquias e, como tal, devem obediência rigorosa aos princípios constitucionais da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da publicidade e da eficiência. Sempre que essa finalidade se torna nebulosa, não se fragiliza apenas a instituição: fragiliza-se também a confiança pública que justifica sua existência.
É nesse contexto que emerge uma pergunta incontornável: quem representa, de fato, o engenheiro brasileiro?
A resposta, hoje, está longe de ser simples.
Há, entre muitos profissionais, um sentimento crescente de desconexão entre a base e as estruturas formais de representação. Não são poucos os que já não se sentem ouvidos, contemplados ou legitimamente integrados às decisões estratégicas que impactam suas carreiras e o futuro da profissão.
Essa lacuna precisa ser enfrentada com seriedade, lucidez e coragem institucional.
É necessário avançar em direção a um modelo mais transparente, mais participativo e mais afinado com os desafios do presente e do futuro. Um modelo que valorize o mérito técnico, estimule a inovação, respeite a pluralidade da categoria e assegure efetiva representatividade.
Nesse cenário, ganha densidade o debate em torno da criação da OEB – Ordem dos Engenheiros do Brasil, como alternativa capaz de reorganizar a representação profissional em bases mais modernas, independentes e conectadas com a realidade contemporânea da engenharia.
Não se trata de romper por inconformismo. Trata-se de evoluir por necessidade.
A engenharia brasileira precisa voltar a pensar a si mesma. Precisa recuperar sua voz, sua autonomia e seu protagonismo. Precisa, sobretudo, reassumir o direito de participar da definição do seu próprio destino.
Porque, ao fim e ao cabo, permanece uma pergunta simples, mas decisiva:
quem fala pela engenharia no Brasil?

Eng. Civil José Ribeiro de Miranda
Presidente da ABRAEI – Associação Brasileira dos Engenheiros Independentes
