O silêncio suspeito

Por Julyana Almeida

Existe um momento na maternidade que deveria ser relaxante… mas não é.
O silêncio.

Antes de ter filhos, silêncio era sinônimo de paz.
Era descanso. Era autocuidado. Era até meta de vida.

Hoje, silêncio é investigação.

Eu sou mãe de três meninas. TRÊS.
Então você pode imaginar que, na minha casa, o padrão é barulho. Muito barulho.
É conversa, é risada, é discussão sobre quem pegou o elástico de cabelo de quem (assunto sério), é alguém cantando… geralmente alto e geralmente fora do tom.

Por isso, quando o silêncio aparece… eu desconfio.

Não é um silêncio qualquer.
É aquele silêncio profundo, organizado demais.
Quase respeitoso.
E isso, definitivamente, não combina com três crianças.

No começo, eu até tentei ignorar.
“Ah, que bom… estão brincando tranquilas.”
Cinco segundos depois, meu instinto materno já grita:
calma demais é suspeito demais.

Porque toda mãe sabe: criança quieta não está descansando.
Está planejando.

Ou pior… executando.

Aí começa o dilema:
Aproveito o silêncio ou investigo o silêncio?

Se eu aproveito, sento no sofá, pego o celular, respiro…
exatamente nesse momento minha cabeça começa:
“Por que está tão quieto?”
“O que elas estão fazendo?”
“Será que envolve água?”
“Tesoura?”
“Comida fora da cozinha???”

Quando percebo, já levantei.
Não por opção. Por sobrevivência.

Vou andando devagar, quase em câmera lenta, como se estivesse numa missão secreta.
O coração acelera.
A mente já imagina cenários dignos de filme de desastre doméstico.

E aí eu chego.

Silêncio absoluto.

Abro a porta.

E encontro…

Três meninas lindas. Quietas. Concentradas.

— “O que vocês estão fazendo?”
— “Nada, mãe.”

Nada.

Nunca, na história da humanidade, “nada” significou tantas possibilidades perigosas.

Porque pode ser:

  • maquiagem artística na parede
  • slime no cabelo
  • corte de cabelo experimental (delas… ou uma da outra)
  • ou uma mistura inédita de tudo isso

Mas, às vezes — e isso também acontece —
elas estão só brincando.
Em paz. Em harmonia. Como um comercial de margarina.

E eu fico ali, meio sem saber o que fazer com essa informação.

Volto pro sofá… mas já não é a mesma coisa.
Porque agora eu sei: o silêncio existe, mas não é confiável.

Ser mãe de três meninas me ensinou muitas coisas.
Mas talvez a mais importante seja essa:

Silêncio não é ausência de barulho.
É ausência de controle.

E, sinceramente?
Controle é algo que eu já aceitei que não tenho mesmo.

Então hoje, quando o silêncio chega…
eu faço o que qualquer mãe experiente faz:

Aproveito por exatamente 30 segundos.

E depois vou lá ver.

Só pra garantir. 😄

*Artigo escrito por Julyana Almeida

Jornalista, mãe de 3 crianças lindas e disposta a compartilhar as loucuras e gostosuras da maternidade.

Instagram: https://www.instagram.com/rabiscosdeumamae

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