Quem são, afinal, os heróis?
Toda vez que falo sobre esse episódio de infância, percebo risos e, também,
alguns ares de ironia nos ouvintes. Mas, como também entendo tratar-se de
fato cômico, natural de crianças, relevo.
Para ir à escola primária, onde iniciei meus estudos, na industrial cidade de
João Monlevade, encravada na Mata Atlântica do interior mineiro, quase
sempre usava o ônibus. Um modelo antigo, lento, barulhento e com constante
cheiro de diesel mal queimado. Quando se aproximava do ponto onde deveria
descer, torcia para que algum outro passageiro puxasse a cordinha solicitando
a parada. Para mim, pequeno e com dificuldade para me manter de pé com o
veículo em movimento, era um grande desafio alcançar aquele tirante fixado no
teto do ônibus. Nem havia as atuais teclas, em altura razoável, do transporte
público mais moderno.
Essa dificuldade produzia em mim a grande vontade de ter “superpoderes”,
como os heróis dos raros gibis a que tinha acesso. Imagine poder estar ali
sentado e, sem sequer levantar o braço ou a mão, apenas com um olhar,
movimentar o fio que faria a campainha soar, alertando o condutor de que
“alguém”, no caso, eu, deveria descer na próxima parada. E então, percorreria
com o olhar artístico aquela “nave” e todos saberiam do meu superpoder.
Até mesmo os sonhos e desejos são limitados pelo parco conhecimento.
Um dos nossos ótimos professores, na Escola Técnica Federal, de apelido
“Poeirinha” (desconheço a razão da alcunha), promoveu, certa vez, um
pequeno experimento social em sala de aula. E tais ensaios ainda nem eram
comuns naquele tempo. O mestre pediu a cada um de nós que descrevesse
numa folha, sem se identificar, o que faria se pudesse ficar invisível. A
premissa não incluía voar, atravessar paredes, ter força ou velocidade
descomunais, nem os sentidos ampliados, como visão, olfato ou audição. A
única faculdade extraordinária seria o dom da invisibilidade.
Sem surpresa alguma, obteve como resposta, da quase totalidade dos
rapazes, que frequentaria banheiros femininos para observar jovens nuas. Um
ou outro faria viagens sem pagar. Foi hilário.
Entre os tantos heróis criados pelo mundo do entretenimento, especialmente
nas décadas de 1930 a 1950, como resposta aos anseios por um senso
humano ou por um paladino de justiça num mundo de guerras e crueldades.
Seus criadores imaginavam um poder sobre-humano que vencesse as
iniquidades e devolvesse a paz e segurança aos humanos. O problema
(sempre há um problema!) é que aquelas habilidades transcendentais, por
vezes encontrava seu contraponto monstruoso em anti-heróis. Em 1939 surge
o homem-morcego como um possível alento às expectativas de crianças e
adolescentes. Um herói sem quaisquer poderes especiais que não a
inteligência e a capacidade técnica de produzir máquinas e equipamentos
capazes de fazer a diferença na vida daqueles a quem se dispôs a proteger.
Em 1949, surge Robin, como a reconhecer que trabalho em equipe alcança
resultados mais consistentes em menor tempo. Plausível àqueles que se
dedicam ao autodesenvolvimento, ou seja, um tipo de herói possível.
Quais os seus referenciais de vida? Quem são seus heróis?
