Na engenharia, transparência é obrigação

Não há obra sem projeto, não há projeto sem premissas claras e não há resultado confiável sem verificação. A engenharia brasileira constrói com base em cálculo, responsabilidade e previsibilidade, e tudo aquilo que constrói precisa poder ser conferido.

No campo técnico, o que não pode ser verificado simplesmente não se sustenta.

Curiosamente, essa lógica parece perder força quando se entra no campo institucional. A transparência, que deveria ser regra elementar, por vezes passa a ser tratada como concessão, quando não como inconveniente.

Mas transparência não é gentileza institucional. É dever.

Conselhos profissionais são autarquias públicas. Administram recursos de natureza pública e exercem funções de interesse coletivo. Por isso, devem prestar contas de forma clara, contínua e acessível, não por escolha, mas por obrigação.

A engenharia não opera com “confie em mim”. Opera com “verifique”.

Projetos são auditáveis, decisões são justificáveis e processos devem ser verificáveis. Esse é o padrão técnico da profissão. É razoável, portanto, que o mesmo padrão seja exigido das estruturas que a regulam.

Quando a transparência é parcial, ela deixa de cumprir sua função e passa a produzir dúvida. E dúvida, na engenharia, não é um detalhe, é risco.

Em um ambiente cada vez mais digital, com processos eletrônicos e decisões mediadas por sistemas, a exigência por transparência se torna ainda mais rigorosa. O que não pode ser auditado dificilmente pode ser plenamente confiável, e o que não é plenamente confiável dificilmente é plenamente legítimo.

Não se trata de desconfiança generalizada. Trata-se de coerência.

A engenharia evoluiu tecnicamente, incorporou tecnologia e ampliou sua capacidade de resposta. Sua governança precisa acompanhar esse movimento, e não correr atrás dele.

Transparência não é um mecanismo de ataque. É um mecanismo de proteção. Protege a instituição, protege os profissionais e protege a própria engenharia.

No fim, a lógica é simples: na engenharia, confiança não se declara, constrói-se com evidência. É essa evidência que sustenta a credibilidade dos processos, a legitimidade das instituições e a confiança dos profissionais e da sociedade. Quando ela falta, não há discurso que a substitua, porque, na engenharia, aquilo que não pode ser demonstrado com clareza dificilmente se sustenta.

Por isso, mais do que um compromisso formal, impõe-se um dever: agir com coerência e assumir, com responsabilidade, o papel de referência na transparência das informações públicas.

Eng. Civil José Ribeiro de Miranda
Presidente da ABRAEI – Associação Brasileira dos Engenheiros Independentes

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1 Comment

  • Um salve a todos os engenheiros civis do nosso país !!!

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