Na expectativa, ninguém fracassara ainda

João Régis Magalhães

Enfim chegara o dia.

Benévolo, homem ansioso por vocação e otimista por teimosia, acordou cedo. Foi ao banheiro, encarou o espelho e arregalou os olhos para se enxergar melhor. Admirou, com certo orgulho mórbido, as olheiras profundas que há dias insistiam em compor sua expressão cansada. Dormir bem, ultimamente, vinha sendo apenas uma mera hipótese que não se confirmava.

Na véspera, planejara tudo com disciplina de concurseiro em semana de prova. Resolveria as obrigações daquele dia ainda na parte da manhã. Queria estar com a tarde livre — completamente livre — para o grande anúncio que aguardava havia tempos. Não queria que nada distraísse sua atenção. Havia ocasiões em que a ansiedade exigia dedicação exclusiva.

Benévolo, sujeito que sempre cultivara intimidade excessiva com as expectativas, fora assim desde menino. Desconfiava que a felicidade morava muito mais na antessala das coisas do que propriamente dentro delas. Preferia aquele instante anterior, quando as possibilidades ainda estavam abertas e a realidade continuava distante o suficiente para não estragar nada.

Era assim nas viagens. Divertia-se mais enquanto pesquisava roteiros e passagens, escolhia hotéis e definia a programação, do que durante a própria viagem. Porque o planejamento ainda era um território livre de filas, chuvas inesperadas, preços exorbitantes e mau atendimento. Na imaginação, tudo funciona perfeitamente.

Também era assim quando a Mega-Sena acumulava. Benévolo, apostador persistente apesar do retrospecto desalentador, fazia três apostas mínimas. Jogava as mesmas dezenas havia anos — uma combinação de datas representativas — e passava os dias e as horas que antecediam o sorteio planejando como gastaria o dinheiro do prêmio. Enquanto o resultado não saía, sentia-se milionário sem precisar prestar contas à realidade. Depois vinham os números oficiais, a derrota habitual e a vida retomando sua forma miseravelmente normal. A realidade tem o péssimo hábito de encerrar as possibilidades.

Na verdade, Benévolo desconfiava que poucas sensações eram tão agradáveis quanto aquela fase em que o sonho ainda não precisara enfrentar os fatos.

E justamente naquela tarde, sentia-se otimista. Pressentia que o anúncio confirmaria seus desejos, suas apostas e suas secretas convicções. Talvez um ou outro nome não fosse exatamente o que queria, mas acreditava que, no geral, sairia satisfeito.

Passou as horas anteriores ao anúncio em estado de ansiedade pura. Atualizava páginas esportivas na internet com a frequência de um corretor da bolsa em dia de crise. Levantava da poltrona sem necessidade, abria a geladeira sem fome e voltava para a sala como quem aguardava resultado de exame. Sobre o braço do sofá, a camisa amarela já estava separada desde cedo — superstição antiga que ele fingia não levar muito a sério.

Até que finalmente chegou a hora.

Benévolo, torcedor veterano acostumado a alternar euforia e sofrimento em ciclos de quatro anos, respirou fundo. Sentou-se diante da televisão como se aguardasse uma notícia capaz de alterar o rumo da própria vida. Pigarreou. Cruzou e descruzou as pernas. Mudou de posição no sofá duas vezes em menos de um minuto. Suas mãos estavam frias.

O anúncio demorou. Houve suspense, vinheta, show, comentários, expectativa profissionalmente fabricada. O país parecia temporariamente suspenso diante da televisão.

E Benévolo sofria como se estivesse pessoalmente envolvido naquilo.

Então Carlo Ancelotti começou a revelar, um a um, os 26 convocados para a Copa do Mundo. Goleiros. Defensores. Meio-campistas. Atacantes.

A cada nome, os jornalistas reagiam com entusiasmo variável. Até que Ancelotti pronunciou: Neymar.

A sala explodiu em aplausos.

Enfim terminava a novela nacional: o menino Ney voltaria a vestir a camisa canarinha.

Benévolo afundou um pouco mais no sofá. Não sabia exatamente o que pensar. Ao assistir aos últimos jogos do Santos, parecera-lhe evidente que Neymar já não conseguia jogar em alto nível com a mesma intensidade de antes. Mas também parecia arriscado demais abrir mão do maior jogador brasileiro do século XXI. Talvez ainda resolvesse. Talvez jogador desse tamanho nunca deixasse completamente de ser decisivo.

Nos dias que antecederam o anúncio, a convocação ou não de Neymar transformara-se em um dos assuntos mais discutidos do país. Nas redes sociais, nos programas esportivos, nas mesas de bar e até nos grupos de família.

Era curioso: o brasileiro já não confiava em quase nada — política, instituições, promessas econômicas — mas bastava surgir uma Copa do Mundo para milhões voltarem a discutir felicidade como se ela pudesse ser decidida por onze homens correndo atrás de uma bola.

E, racionalmente falando, havia motivos de sobra para desconfiar.

Neymar já carregava tempo demais nas pernas e expectativa demais nas costas.

Ainda assim, bastara Ancelotti pronunciar seu nome para o país inteiro voltar a discutir futebol com a intensidade de quem debate o destino da humanidade.

E Benévolo, cronista involuntário das esperanças nacionais, compreendia perfeitamente aquilo.

Talvez porque guardasse dentro de si uma lembrança antiga das Copas. O barulho distante das buzinas. As ruas decoradas. O pai diante da televisão reclamando da escalação como se pudesse alterar pessoalmente os rumos da Seleção. Havia algo de infantil e constrangedor naquela esperança coletiva — e talvez exatamente por isso ela fosse tão difícil de abandonar.

Afinal, Copa do Mundo nunca fora apenas futebol. Era uma espécie de suspensão temporária da realidade. Um armistício emocional. Durante algumas semanas, o país fingia esquecer inflação, corrupção, violência, filas, impostos e boletos. O brasileiro voltava a decorar ruas, vestir camisa amarela e discutir escalação com a autoridade tática de um comentarista esportivo experiente.

O problema era justamente o depois.

Porque o futebol brasileiro opera sempre nos extremos. Não existe meio-termo possível. Se a Seleção fosse eliminada ainda na fase de grupos — hipótese que, secretamente, já assombrava parte da torcida — começaria imediatamente o ritual nacional das execrações públicas. Neymar seria chamado de ex-jogador em atividade. Ancelotti viraria “um italiano que nunca entendeu o futebol brasileiro”. Os comentaristas descobririam, com impressionante atraso analítico, que “já dava sinais”.

O país, que naquela tarde ainda vibrava com a convocação, viraria as costas aos próprios ídolos sem a menor cerimônia. O brasileiro possui um raro talento para fabricar heróis e depois sacrificá-los em praça pública.

Mas havia também o outro lado.

E se desse certo?

E se Neymar, contrariando médicos, cronistas esportivos, fisioterapeutas pessimistas e torcedores do contra, resolvesse jogar justamente a Copa da vida? E se os veteranos reencontrassem subitamente o futebol perdido? E se Ancelotti, com sua sobrancelha imóvel e aparência de gerente de banco, levantasse a taça do hexa?

Ah… aí tudo mudaria.

As críticas virariam perseguição injusta. As lesões seriam reinterpretadas como capítulos épicos de superação. Neymar voltaria a ser tratado como gênio nacional. Os mesmos programas esportivos que hoje discutiam uma seleção envelhecida passariam semanas exibindo especiais emocionados sobre “a experiência decisiva dos veteranos”.

O futebol brasileiro possui essa extraordinária capacidade de reorganizar o passado conforme a conveniência do resultado.

Benévolo sabia disso. Talvez por isso gostasse tanto daquele instante anterior à estreia. Antes da tragédia ou da glória. Antes das buzinas madrugada adentro ou do constrangimento coletivo que costuma vir depois. Enquanto a bola ainda não rolara, ninguém precisava admitir que talvez estivesse sonhando alto demais.

Na expectativa, ninguém fracassara ainda.

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João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br.

João Régis Magalhães

Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.

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