Mais que uma vitória
João Régis Magalhães
Não.
Benévolo jamais acreditou que aquilo pudesse acontecer. Pelo menos não agora.
Recém-convertido pelas circunstâncias a devoto de São Tomé, reconhecia o talento precoce do garoto. Enxergava nele uma determinação rara, quase obsessiva, de quem não se contenta apenas em vencer, mas deseja ser melhor a cada dia. Ainda assim, derrotar um dos titãs do esporte mundial parecia um passo grande demais para alguém tão jovem.
Acompanhava aquela trajetória havia pouco mais de um ano. Primeiro por simples curiosidade, depois por admiração. A cada partida, percebia que o menino não parava de evoluir. O saque ficava mais consistente, os golpes mais confiantes, a postura mais madura. Havia uma transformação acontecendo diante dos olhos de todos.
Benévolo, curioso observador do mundo esportivo, também costumava ouvir atentamente as entrevistas do tenista que crescia. Era ali que encontrava algo ainda mais raro que o talento. O jovem falava sem arrogância. Não demonstrava deslumbramento com a fama crescente nem se deixava levar pelos elogios. Em suas palavras havia sempre o mesmo repertório: trabalho, disciplina, aprendizado e evolução. A verdadeira humildade dos vencedores.
Parecia saber exatamente onde queria chegar. E vinha fazendo por onde.
E, mais importante, parecia compreender que o caminho seria longo e difícil. Exigiria renúncias, sacrifícios e dedicação absoluta. E, de forma convincente, deixava transparecer que estava disposto a pagar o preço. Era como se acreditasse, sem jamais dizê-lo dessa forma, que nenhuma conquista relevante fosse obra do acaso.
Ao assistir às suas partidas, Benévolo, apreciador das boas histórias de superação que o esporte costuma produzir de vez em quando, tinha a sensação de estar observando um fenômeno em construção. Não era apenas a velocidade dos movimentos ou a precisão dos golpes. Era a combinação de coragem e serenidade que chamava atenção. Alguns atletas parecem diminuir diante da pressão. Outros crescem dentro dela. O garoto pertencia ao segundo grupo.
Por isso, suas expectativas eram enormes. Benévolo, colecionador contumaz de esperanças esportivas, havia muito tempo que não via surgir alguém capaz de despertar tamanho entusiasmo. A galeria dos grandes heróis nacionais permanecia praticamente intocada havia décadas. Os que ali chegaram conquistaram aquele lugar não apenas pelos títulos, mas pela capacidade de transformar vitórias em orgulho nacional.
E o Brasil sentia falta disso.
Muita falta.
Benévolo também.
Benévolo, sobrevivente de incontáveis decepções nacionais transmitidas ao vivo, ultimamente andava mais cético do que gostaria de admitir. Não necessariamente por causa apenas do esporte. Das outras coisas também. Sentia falta de exemplos. De histórias capazes de despertar admiração sem exigir cinismo. De alguém que lembrasse que talento e esforço ainda podiam caminhar juntos.
Foi então que aconteceu.
João Fonseca, apenas dezenove anos, alcançou o maior feito de sua carreira até ali. Diante de Novak Djokovic, uma das maiores lendas em atividade da história do tênis, o brasileiro parecia destinado à derrota quando viu o adversário abrir dois sets de vantagem.
Era o roteiro esperado. O veterano consagrado impondo sua experiência sobre o jovem desafiante. Mas o esporte, de vez em quando, gosta de reescrever roteiros.
João não se entregou. João se agigantou.
Ponto a ponto, game a game, desmontou as certezas que cercavam a partida. A virada aconteceu de forma implacável. Não por acaso e nem por sorte. Mas pela força e talento de quem se recusou a aceitar o papel de figurante.
— Hip hip hurra!
Benévolo, homem normalmente econômico nas manifestações de entusiasmo, não se conteve. Levantou-se da poltrona e passou a comemorar sozinho na sala de casa, tomado por aquela alegria quase infantil que os adultos costumam esconder sempre que podem. Havia acabado de testemunhar algo que, poucas horas antes, julgara improvável. Muito improvável.
A impressão que ficou quando a partida terminou era curiosa: não parecia um jovem satisfeito por ter realizado um sonho. Parecia alguém que acabara de dar apenas mais um passo na direção de algo ainda maior.
Talvez fosse justamente isso que o tornasse tão especial.
João reunia características que costumam habitar os grandes campeões: humildade para aprender, obsessão por evoluir, resiliência diante das adversidades, ambição sem arrogância e uma fome permanente de superação.
Ainda assim, era cedo para saber até onde João Fonseca chegaria. Quais seriam os seus limites. O esporte costuma ser impiedoso com previsões. Talentos surgem todos os anos. Ídolos consagrados, não.
Mas, naquela tarde inesquecível, Benévolo teve a sensação de estar assistindo a algo maior do que uma simples vitória esportiva. Não era apenas um garoto derrotando uma lenda. Era a confirmação de um caminho. Talvez por isso o resultado tivesse provocado tanta repercussão. Não apenas pelo placar ou pelo adversário do outro lado da rede. Havia algo mais ali. João Fonseca parecia representar uma ideia que andava meio esquecida: a ideia de que o esforço ainda importa. Que é imprescindível nos longos voos.
Pode parecer pouco. Não é.
Sentado novamente na poltrona, enquanto as imagens da comemoração ainda passavam pela televisão, Benévolo percebeu que sua empolgação não vinha apenas do resultado. Talvez viesse também daquilo que o jovem parecia representar. Em tempos de atalhos cada vez mais valorizados, João Fonseca surgia como um lembrete de que certas conquistas continuam sendo construídas da mesma forma de sempre.
Quando desligou a televisão, depois de mais de cinco horas de jogo, Benévolo continuava sem saber se estava diante de um futuro campeão histórico ou apenas de mais um excelente tenista. No fundo, isso já não lhe parecia tão importante. Mais valioso do que qualquer previsão era perceber que milhões de brasileiros haviam parado por algumas horas para admirar exatamente as qualidades que mais precisavam voltar a ser admiradas: disciplina, perseverança, humildade e trabalho.
E ficou com a impressão, cada vez mais rara, de que o esforço ainda era uma boa ideia.
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João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br.

João Régis Magalhães
Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.
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