Heróis, Vilões e Vítimas
Em meados dos anos 1960, apesar do clima revolucionário instalado, havia uma expectativa grande em relação ao futuro do país. A nova Capital Federal, Brasília, havia sido inaugurada recentemente; surtos de poliomielite entraram em declínio; o estado de São Paulo iniciava um ciclo de crescimento industrial muito importante; a educação básica, até o antigo ginasial, atualmente 1ª à 8ª séries, estava em um nível altamente competitivo. O Sistema “S” já apresentava resultados excelentes em termos de ensino técnico, preparando os alunos para o mercado de trabalho em franca expansão.
Nesse período, o cinema americano, em especial, se empenhava em difundir a cultura de valorização do trabalho, da honestidade e do valor da palavra empenhada. As películas, em sua esmagadora maioria, mostravam heróis que defendiam pessoas em risco contra vilões diversos. Até se criou uma brincadeira entre os jovens de então, dizendo que os heróis defendiam os “frascos e comprimidos”, num processo de paronomásia com “fracos e oprimidos”. Cumpre fazer a observação de que esta figura de linguagem era ensinada no ginásio.
Pouco depois, no início da década de 1970, instalou-se um período de abundância em quase todos os campos da vida. Indústria a pleno vapor; comércio pujante; melhorias significativas na produção agrícola e na qualidade de vida, tanto no campo quanto nas cidades. Ficou conhecido como o Milagre Brasileiro. Foi, na verdade, um conjunto de fatores em todo o mundo que concorreu para um período de tanto desenvolvimento. Entre eles, a reconstrução da Europa, destroçada pela Segunda Guerra; a demanda por acessibilidade, tanto das pessoas com deficiência por sequelas de combate, quanto por sequelas de acidentes diversos e doenças como a poliomielite. O mundo, por seus heróis, começou a entender melhor a necessidade de cuidar dessas Pessoas com Deficiência. Muitas delas, com capacidade intelectual plenamente preservada, conservavam ainda a capacidade de produzir e contribuir de diversas formas para uma sociedade mais justa e participativa.
As lutas – e conquistas – sociais transformaram a vida de muitas pessoas. Deram sentido ao viver que, até então, era quase sempre isolado, segregado ou tratado com uma piedade que serve mais ao piedoso como bandeira da própria suposta bondade do que ao assistido marginalizado.
A autopiedade e a acomodação de um grupo, fisicamente apto para o trabalho, mas desinteressado do esforço de atender à demanda de produzir, se ampliou de tal forma que criou uma distorção social dolorosa. O sonho de crescer e se desenvolver tem sido ofuscado pela excrescência de esmolas de um governo paternalista que não geram autonomia. Pelo contrário, vem criando um exército de dependentes dos “favores do estado” e, com isso, se alinham àquelas pessoas que, por razões reconhecidamente adversas, estão incapacitadas de prover o próprio sustento. Desta forma, aqueles que poderiam demonstrar seu heroísmo, sua capacidade produtiva, sua honradez, tem optado por se fazer de vítimas que, em verdade, nunca foram. E essa conduta se aproxima mais à de vilão do que propriamente de vítimas. Já nem é sem tempo de buscarmos o resgate de nossa dignidade.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.
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