O paradoxo da saúde: tecnologia de ponta, acesso limitado
Especialista explica como desafios regulatórios, custos de incorporação e desigualdades estruturais dificultam a transformação de avanços médicos em soluções acessíveis em larga escala
A medicina atravessa uma das fases mais transformadoras de sua história. Inteligência artificial, robótica, dispositivos conectados, terapias personalizadas e equipamentos de alta precisão estão revolucionando diagnósticos e tratamentos em todo o mundo. No entanto, no Brasil, o avanço tecnológico nem sempre se traduz em acesso rápido e amplo para os pacientes.
Embora muitas soluções já tenham comprovado eficácia clínica e potencial para melhorar a qualidade de vida da população, o caminho entre a inovação e sua adoção em larga escala ainda é marcado por desafios regulatórios, financeiros e estruturais.
O tema ganha relevância diante da expansão acelerada do mercado global de tecnologia médica. Segundo a consultoria Fortune Business Insights, o setor de dispositivos médicos deve superar US$ 1 trilhão em valor de mercado na próxima década, impulsionado pelo envelhecimento populacional, pelo aumento das doenças crônicas e pela busca por tratamentos mais eficientes e menos invasivos.
No Brasil, porém, a velocidade da implementação ainda não acompanha o ritmo dos avanços científicos. Para Pedro Gurgel, fisioterapeuta e head comercial e de negócios em equipamentos e dispositivos médicos, existe uma diferença significativa entre desenvolver uma solução inovadora e fazê-la chegar efetivamente aos pacientes.
“Muitas tecnologias já demonstraram resultados clínicos consistentes e capacidade de melhorar os desfechos dos pacientes. O grande desafio está em transformar inovação em acesso. Entre o desenvolvimento e a adoção em larga escala existe uma jornada complexa, que envolve regulação, capacitação profissional, sustentabilidade financeira e adaptação às diferentes realidades do país”, afirma.
Um dos principais entraves está no processo de incorporação tecnológica. Apesar de o Brasil possuir um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, a inclusão de novos equipamentos, dispositivos e tratamentos exige avaliações rigorosas de segurança, eficácia e custo-benefício. Embora essenciais para garantir qualidade assistencial, essas etapas podem prolongar significativamente o tempo necessário para que uma inovação chegue à rotina dos serviços de saúde.
As desigualdades regionais também contribuem para ampliar a distância entre a tecnologia disponível e o acesso da população. Enquanto grandes centros urbanos costumam incorporar novidades com maior rapidez, regiões mais afastadas frequentemente enfrentam limitações relacionadas à infraestrutura, qualificação técnica e disponibilidade de investimentos.
Outro fator que intensifica esse cenário é o envelhecimento da população brasileira. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o número de pessoas com 60 anos ou mais deverá praticamente dobrar nas próximas décadas, aumentando a demanda por diagnósticos precoces, tratamentos mais eficientes e modelos assistenciais capazes de atender uma população cada vez mais longeva.
Para Pedro Gurgel, superar esses obstáculos exige uma atuação conjunta entre indústria, profissionais de saúde, gestores públicos e iniciativa privada. “A tecnologia, sozinha, não transforma a saúde. É necessário criar condições para que ela seja implementada de forma eficiente, segura e sustentável. Quando inovação, capacitação e acesso caminham juntos, os benefícios deixam de alcançar apenas uma parcela da população e passam a gerar impacto coletivo”, destaca.
A discussão se torna ainda mais relevante em um momento em que a inteligência artificial e a digitalização aceleram o desenvolvimento de novas soluções médicas. Estudo da consultoria McKinsey aponta que a adoção estratégica dessas ferramentas pode gerar ganhos expressivos de produtividade, eficiência operacional e qualidade assistencial nos sistemas de saúde ao redor do mundo.
Para especialistas, o grande desafio dos próximos anos não será apenas desenvolver tecnologias cada vez mais sofisticadas, mas garantir que elas consigam superar barreiras regulatórias, econômicas e estruturais para alcançar quem realmente precisa.
Em um país marcado por contrastes regionais e crescente pressão sobre o sistema de saúde, transformar inovação em acesso pode ser a chave para que os avanços da medicina deixem de representar apenas uma promessa e passem a produzir benefícios concretos para milhões de brasileiros.
Sobre
Pedro Gurgel é fisioterapeuta e head comercial e negócios em equipamentos e dispositivos médicos com mais de 18 anos de atuação no mercado de dispositivos e tecnologias médicas. Especialista em estratégia comercial, expansão de negócios e desenvolvimento de operações na área da saúde, construiu carreira em empresas nacionais e multinacionais do setor médico-hospitalar, com atuação no Brasil e na América Latina. Atualmente, lidera projetos ligados à tecnologia médica, escoliose e dispositivos de alta complexidade, unindo visão clínica, gestão e desenvolvimento de mercado.