Que mundo maravilhoso

A Copa do Mundo de Futebol coordenada pela FIFA (Federação Internacional de Futebol Associado) é um dos mais importantes espetáculos esportivos, cujo impacto econômico alcança valores astronômicos: entre 15 e 70 bilhões de dólares. É muito dinheiro.

Se levarmos em conta ainda que o orçamento, as receitas, da entidade FIFA, responsável pelos eventos, ultrapassa, em 2026, o valor total do Produto Interno Bruto, o famoso PIB, de, pelo menos, 35 nações ao redor do planeta, podemos avaliar o gigantismo que envolve esse grande espetáculo. Os meandros dessa atividade superam em muito a superfície esportiva, o futebol propriamente dito.

Coincidentemente, diversos fenômenos climáticos desastrosos concorrem para a atenção da mídia e das pessoas comuns. Terremotos na Venezuela, Japão e Estados Unidos têm efeitos distintos em cada um desses países. Aqueles que estão mais preparados em termos de finanças, desenvolvimento social e econômico, respondem com celeridade e eficiência. Isso não elimina, mas reduz significativamente os danos e o sofrimento das pessoas e entidades afetadas. Não é o caso de nossos vizinhos venezuelanos. O governo corrupto, populista e ditador que se instalou por longo período nessa bela nação caribenha a reduziu a escombros antes mesmo do cataclismo natural atingi-la. A força dos dois terremotos maiores, de magnitude 7,2 seguido de um 7,5 na escala Richter, tem números assustadores e ainda não definitivos, pois há ainda mais de 50 mil desaparecidos. Já foi superada a marca de 3.600 mortos e de 16.500 feridos. Houve mais de 940 tremores secundários, de magnitude inferior. Usando uma metáfora popular, “quando a pele está dilacerada, qualquer carinho é tortura.” Deve ser esse o sentimento de muitos de nossos irmãos venezuelanos que perderam pessoas queridas e bens nessa tragédia.

E segue a Copa do Mundo, incluindo a homenagem do “minuto de silêncio”, pelas vítimas no país de belas praias banhadas pelo Atlântico em que quase duzentos edifícios desmoronaram e quase 900 tiveram sua estrutura gravemente afetada.

Ao retornar do trabalho, ouço a famosa canção, quase um hino à vida, composta por Bob Thiele (George Douglas) e George David Weiss. Lançada originalmente no final de 1967, quando eu tinha apenas 10 anos, na belíssima voz inconfundível do fantástico músico Louis Armstrong, “What a Wonderful World”, se tornou uma referência para milhões de pessoas em todo o mundo. Percorro em paz as largas avenidas de Brasília, onde se veem poucas pessoas nas ruas neste mês de férias escolares e de recessos em algumas repartições públicas da República, enquanto penso nas disparidades entre os dois eventos: Copa e Terremotos. E me lembro dos traumas ortopédicos que vários jogadores sofreram, como, entre muitos, o famoso Reynaldo, do Atlético Mineiro. E ocorre também que no infortúnio dos sismos nas caraíbas restarão, infelizmente, inúmeros sequelados que precisarão se adaptar a um novo contexto vital, transformados em PcD temporária ou definitivamente.

Com certeza não se poderia evitar o desastre natural, mas suas consequências poderiam ser muito amenizadas por uma gestão digna, honrada e voltada para os interesses daqueles que, em última análise, representam.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.

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