Nunca mulher nenhuma…
João Régis Magalhães
Quando Mariza foi embora, Manuel só percebeu quase um dia depois.
Não porque a moça fosse discreta. Muito pelo contrário. Ria alto, cantarolava enquanto cozinhava e transformava o pequeno apartamento de Águas Claras numa festa permanente. O problema era outro. Na noite anterior, Manuel voltara de um porre monumental no bar do Zaqueu e desabara no sofá da sala vestido, calçado e abraçado à própria ressaca. Só abriu os olhos perto das onze da manhã, com a boca seca, a cabeça latejando e a sensação de que um caminhão lhe passara por cima.
Sem sequer erguer as pálpebras, gritou:
— Mariza! Traz um copo d’água gelado… anda logo!
Esperou alguns segundos. Como não ouviu resposta, acabou abrindo os olhos, sentou-se no sofá e a chamou novamente, agora com a impaciência de quem acreditava que sua vontade bastava para mover o mundo.
— Mariza! …Está ouvindo, porra?
Silêncio.
Soltando um palavrão atrás do outro, levantou-se, mas a tontura obrigou-o a fechar os olhos por alguns segundos. Respirou fundo e seguiu para o quarto, disposto a reclamar da demora. Encontrou a cama arrumada, o guarda-roupa entreaberto e um vazio que, aos poucos, foi tomando o apartamento inteiro. Mariza não estava. Nem a mochila, nem as poucas roupas, nem o frasco de perfume barato que costumava impregnar o ambiente.
Preferiu acreditar que a moça tivesse descido à padaria, ido à farmácia ou comprar alguma coisa para comer. Qualquer hipótese lhe parecia mais palatável que admitir que a garota simplesmente resolvera ir embora.
Afinal, nunca mulher nenhuma o largara.
Era o que repetia havia mais de trinta anos.
No dia anterior, Manuel ocupava a mesa de sempre no bar do Zaqueu.
O samba corria solto. O chope descia gelado, a pinga circulava sem cerimônia e os torresmos desapareciam da travessa numa velocidade impressionante. Era exatamente o ambiente onde gostava de estar, cercado pelos amigos de sempre. Ultimamente, porém, andava cansado, como se tivesse acabado de sair de uma maratona.
André foi o primeiro a reparar.
— Porra, Manéo…que olheiras são essas? Parece que faz tempo que você não dorme.
Ele sorriu.
— Dormir é para quem não tem mais o que fazer.
Carlos entrou na conversa.
— Ou então essa menina está sugando tua alma. Como é mesmo o nome dela?
— Mariza.
— Pois pede para ela dar uma aliviada, porque você não é mais nenhum menino.
Os amigos riram. Manuel apenas sorriu desconfiado. Tomou um longo gole de chope, pigarreou antes de responder:
— Vocês estão é com inveja. A Mariza cuida muito bem de mim. É dengosa, fogosa, exatamente do jeito que homem de verdade gosta.
— Homem ou menino? — provocou André.
Mais risos.
Manuel endireitou o corpo na cadeira, mandou uma talagada de pinga, esperou a ardência passar e respondeu:
— Escutem uma coisa. Mulher nova exige vitalidade, disposição e energia. E disso ainda me sobra.
Carlos ergueu o copo.
— Mocotó, Manéo.
— O quê?
— Dizem que mocotó renova as energias do macho.
— Ou fisioterapia — emendou André.
Os amigos gargalharam e dessa vez Manuel acompanhou.
Mas só por fora.
Por dentro, uma dúvida insistia em voltar:
“Será que estou ficando velho?”
Tentou expulsar o pensamento enchendo novamente o copo.
Não conseguiu.
Naquela noite bebeu muito mais do que de costume. Bebia para provar aos amigos que continuava o mesmo de sempre. Principalmente, bebia para convencer a si mesmo.
Quando o samba terminou, já mal conseguia permanecer em pé. André chamou um carro por aplicativo.
— Vá para casa dormir, Manéo. Amanhã você me agradece.
Foi a última lembrança que guardou daquela noite.
Dois dias se passaram desde que Mariza fora embora.
Quase não saiu do apartamento. Tinha medo de que ela voltasse justamente quando ele estivesse fora. Durante toda a vida fizera mulheres esperarem por ele. Agora era ele que esperava. A campainha do vizinho fazia seu coração disparar; o elevador parando no andar o levava imediatamente até a porta; qualquer notificação no celular o fazia acreditar, por um segundo, que finalmente receberia uma explicação.
Nunca vinha.
Na manhã do terceiro dia telefonou para hospitais. À tarde, ligou até para o IML. Chegou a desligar antes que uma das chamadas fosse completada. Se Mariza estivesse morta, sofreria. Mas, se estivesse viva e tivesse ido embora por vontade própria, a dor seria ainda maior.
Começou a suspeitar, pela primeira vez, que o problema não fosse Mariza. Talvez fosse ele.
No quarto dia, ele já não conseguia permanecer dentro do apartamento. Tentou convencer-se de que tudo aquilo tinha uma explicação simples. Talvez Mariza tivesse ido visitar alguém doente na família, perdido o celular ou sido sequestrada. Qualquer hipótese servia. Menos a verdadeira.
Pediu comida por aplicativo mais uma vez. Quando a campainha tocou, correu até a porta acreditando que fosse Mariza. Era apenas o entregador. Aquele apartamento, que poucos dias antes lhe parecera pequeno para tanta alegria, agora era grande demais para tanto silêncio. Sentou-se à mesa sem vontade de comer. Remexeu a comida no prato, largou o garfo e voltou para a sala. No sofá, conferiu o celular pela enésima vez e permaneceu olhando a porta, como se a força da espera pudesse trazê-la de volta.
Quando passava das oito da noite, não suportou mais ficar esperando. Vestiu a primeira roupa que encontrou jogada no chão e voltou ao bar do Zaqueu, onde conhecera Mariza. Mostrou a foto dela aos garçons, ao gerente, e até o músico que afinava o violão durante o intervalo do samba. Ninguém dava notícias. Um dos garçons balançou a cabeça:
— Faz um tempão que ela não dá as caras por aqui.
Voltou para casa mais sorumbático do que saíra. Foi no caminho que percebeu uma verdade humilhante: nunca soubera onde Mariza morava. Nunca perguntara. Nunca quisera saber. Bastava-lhe que ela voltasse para casa. Não conhecia uma amiga, um parente. Nem sequer tinha certeza de que Mariza fosse seu verdadeiro nome. Sabia apenas que tinha um sorriso bonito e um corpo capaz de embaralhar as ideias de qualquer homem.
Nos dias seguintes, fazia suposições sobre o sumiço de Mariza e sempre voltava à hipótese que mais o feria: ela foi embora porque quis. Sem discussão, sem escândalo, sem despedida. Apenas resolvera partir. Se houvesse outro homem, ao menos teria alguém a quem culpar e enfrentar.
Sem saber por quê, caminhou até o banheiro. Parou diante do espelho e não enxergou o conquistador que fazia questão de exibir aos amigos do bar. Enxergou apenas um homem cansado. Pela primeira vez em muitos anos, custou-lhe reconhecer aquele rosto.
Ainda tentou reagir. Xingou Mariza de ingrata, inconsequente e irresponsável. Repetiu para si mesmo que, quando ela voltasse, ouviria poucas e boas. Mas, nem ele acreditava mais nisso. Aos poucos compreendeu que toda aquela raiva escondia uma verdade muito mais difícil de aceitar.
Mariza não lhe devia explicações.
Escolhera deixá-lo.
Com a partida de Mariza, desapareceu também uma certeza cultivada havia mais de trinta anos.
Nunca mulher nenhuma seria capaz de abandoná-lo.
Até aquele dia.
Esta crônica foi inspirada na trajetória de Manuel, personagem do romance É da Natureza Humana, de João Régis Magalhães.

João Régis Magalhães
Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.
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