A caixa de desenhos que nenhuma mãe consegue jogar fora

Estamos no mês das férias escolares. Enquanto as crianças comemoram a liberdade de acordar um pouco mais tarde, as mães começam outra tradição típica desta época: organizar armários, separar roupas que não servem mais, dar destino aos brinquedos esquecidos… e, inevitavelmente, encontrar aquela caixa de desenhos.

Toda mãe tem uma.

Ela pode estar no alto do guarda-roupa, embaixo da cama ou escondida no fundo do armário. Mas existe. E, dentro dela, repousa um verdadeiro acervo artístico que faria qualquer museu contemporâneo coçar a cabeça.

São milhares de desenhos acumulados ao longo dos anos de atividades escolares.

Rabiscos coloridos, folhas dobradas ao meio, pinturas feitas com tanto entusiasmo que a tinta atravessou para o outro lado. Obras que, convenhamos, só uma mãe consegue interpretar.

Porque qualquer outra pessoa olha e pergunta:
— O que é isso?

A mãe responde sem hesitar:
— É um dinossauro andando de bicicleta com a professora. Não está vendo?

A verdade é que, mesmo depois de virar a folha em todos os ângulos possíveis, aproximar dos olhos, afastar um pouco, colocar contra a luz e até pedir ajuda para outra pessoa, muitas vezes continua impossível descobrir do que se trata.

Mas isso nunca impediu uma mãe de guardar.

Porque ela não arquiva desenhos. Ela arquiva fases.

Ali está o primeiro sol com óculos escuros. A primeira casinha que parecia um quadrado torto. O boneco-palito que ganhou cinco dedos em uma mão e oito na outra. O coração desenhado de cabeça para baixo. A assinatura cheia de letras inventadas.

Cada folha guarda um pedacinho de uma infância que passou depressa demais.

E então começa o dilema.

“Será que agora eu jogo fora?”

A resposta quase sempre é a mesma.

A mãe separa uma pilha para descarte. Olha para o primeiro desenho. Sorri. Lembra da idade da criança. Guarda novamente.

No segundo acontece a mesma coisa.

No terceiro também.

Quando percebe, jogou fora apenas uma propaganda da escola que veio misturada entre os papéis.

O resto voltou para a caixa.

Porque mãe tem uma estranha dificuldade em se desfazer daquilo que já não tem utilidade prática, mas continua transbordando significado.

Talvez porque saiba, mesmo sem admitir, que chegará um dia em que não haverá mais desenhos coloridos espalhados pela mesa da sala. Não haverá mais folhas amassadas na mochila nem pedidos para comprar lápis de cor porque “o azul acabou”.

E quando esse dia chegar, aquela caixa deixará de ocupar espaço no armário para ocupar um lugar ainda maior no coração.

No fim das contas, aquelas folhas nunca foram apenas desenhos.

Sempre foram lembranças que escolheram o papel como endereço.

*Artigo escrito por Julyana Almeida

Jornalista, mãe de 3 crianças lindas e disposta a compartilhar as loucuras e gostosuras da maternidade.

Instagram: https://www.instagram.com/rabiscosdeumamae

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