Ainda Não.
João Régis Magalhães
Terminou a Copa.
Para alívio de Benévolo a Espanha venceu. O pior dos mundos, para ele, depois da vergonhosa desclassificação do Brasil, seria se los hermanos del sur vencessem. Ele não suportaria tamanha desilusão.
— Ufa, mesmo contra todos os meus princípios, desta vez eu torci pelo colonizador e contra o colonizado. Não teria estômago para aguentar os argentinos tricampeões nos xingando de macaquitos com aquela arrogância platina. Seria melhor ir direto para o inferno! Oh, glória!
Virada a página da Copa. Benévolo tratou de ocupar a cabeça. O pior remédio para o cérebro, ensinava, era o alheamento. Uma tentativa de manter longe um alemão muito mais desastroso do que qualquer eventual façanha portenha.
— Mente ativa não é pouso para o Alzheimer! — repetia para si mesmo — enquanto avaliava a conjuntura e elocubrava sobre o futuro.
— Novos tempos. Daqui até outubro só vai dar eleição. Pode até aparecer um escandalozinho aqui outro acolá… mas tudo com cheiro e jeito eleitoreiro.
Sentado no sofá da sala, com ar de preocupação e uma das mãos apoiada no queixo, Benévolo refletia em voz alta:
— Faltam pouco mais de setenta dias para o pleito e ainda não decidi em quem votar. Está difícil demais decidir. Não está fácil, não!
Foi lembrando dos candidatos a presidente e ato contínuo foi traçando mentalmente o perfil de cada um.
— Esse parece ser uma bananeira que já deu cacho. Não entrega mais nada.
Passou para outro nome.
— Quer herdar um trono que nem existe.
Fez uma careta.
— Esse parece vendedor de shopping. Convence qualquer um. O problema é que ninguém sabe exatamente o que ele de fato vai entregar. E a que preço.
Coçou a cabeça.
— Esse é da velha guarda. Dizem que os bandidos mudam de calçada quando o encontram na rua. Mas parece se importar mais com as cabeças de gado do que com o SUS.
Soltou um suspiro.
— Esse fala muito, viraliza mais ainda, mas quando termina o vídeo ninguém lembra exatamente o que ele disse. É muito gogó para pouca substância.
Benévolo balançou fortemente a cabeça.
— O problema é que, na hora do voto, a gente sonha com o ótimo e acaba tendo que decidir entre o ruim e o pior. É complicado. É muita responsabilidade colocar um cara lá para ficar quatro anos naquela cadeira para tomar decisões que vão mexer e muito com nossas vidas.
Levantou-se do sofá e começou a andar em círculos pela sala. Queria oxigenar o cérebro e organizar as ideias.
Parou diante do relógio pedestal e ficou observando o movimento do ponteiro dos segundos. De repente, lhe pareceu ter tido uma boa ideia. Listaria o nome dos candidatos em uma planilha. Daria notas para honestidade, preparo, respeito às instituições, compromisso com a democracia… Somaria tudo e pronto: chegaria ao nome do seu candidato.
Antes mesmo de procurar papel e caneta, desistiu.
— Não vai dar certo.
Pensativo, exclamou:
— Se eu fizer isso com o rigor necessário, vou continuar sem candidato. Todos serão reprovados. Que lástima! Não escapa nenhum.
Um pouco irritado, sentou-se em um dos braços do sofá. Coçou o queixo:
— Talvez a solução mais fácil seja deixar a escolha por conta das forças do universo. Colocar o nome dos candidatos em um pedacinho de papel, dobrar, e escolher aleatoriamente um deles.
Saiu de onde estava e, de pé, resmungou, aborrecido consigo mesmo:
— Isso seria muita irresponsabilidade. Não posso escolher na sorte em quem vou votar. É o cúmulo da leviandade. Não poderia ser tão tolo!
Ficou alguns segundos em silêncio e voltou a sentar no sofá.
— Acho que vou esperar os debates, as campanhas na televisão, no rádio e as pesquisas…
Pensou mais um pouco.
— Talvez o melhor seja decidir só depois do último debate.
Levantou-se resignado e voltou a caminhar na sala.
Em todos os candidatos encontrava motivos para votar e ainda mais motivos para desistir.
Foi então que percebeu uma coisa curiosa: passara a tarde inteira julgando os candidatos. Ainda não tinha julgado os fatos que estavam por vir.
Faltavam ainda mais de setenta dias para o primeiro turno.
Setenta dias de debates, entrevistas, alianças improváveis, promessas, escorregões, desmentidos, escândalos e, quem sabe, boas surpresas.
— Talvez eu esteja querendo decidir cedo demais… Creio que eleitor apressado costuma se arrepender mais.
Benévolo sorriu consigo mesmo.
Ainda não é hora.
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João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br.

João Régis Magalhães
Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.
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