ANTES DO VOTO
João Régis Magalhães
Quinta-feira, fim de expediente, os quatro colegas de trabalho tinham um compromisso que nenhum deles ousaria chamar de compromisso. Toda semana, depois do trabalho, encontravam-se no mesmo bar, na mesma mesa, diante dos mesmos chopes e, quase sempre, das mesmas opiniões.
Era época de eleição, o que tornava o encontro ainda mais indispensável. Naquela mesa, Brasília parecia caber inteira. Ou quase. Governo, oposição, candidatos, pesquisas, Supremo, economia, corrupção e, sobretudo, certezas. Muitas certezas. Algumas antigas, outras recém-adquiridas. Em ano de eleição, elas costumavam se multiplicar com uma rapidez impressionante — principalmente depois do segundo chope.
Ali, entre um gole e outro, cada um tinha sua própria explicação para o país, seu candidato e, naturalmente, a convicção de que os outros três ainda não tinham entendido nada.
Duda chegava sempre primeiro e preferia a mesa mais afastada da televisão. Não porque não gostasse de notícia. Gostava. O problema era ouvir alguém explicando o que acabara de acontecer antes de ter tempo de pensar sobre o acontecido. Mônica chegava logo depois e examinava a mesa como quem conferia uma lista invisível. Naquela quinta-feira, sentou-se, levantou-se, trocou de cadeira e só então se acomodou.
— Essa estava torta.
— Você percebe isso de longe? — perguntou Duda.
— Eu percebo muita coisa de longe.
— Deve ser cansativo.
— Mais para quem convive comigo.
Chicão chegou em seguida e sentou-se na primeira cadeira que encontrou.
— Essa não é a sua cadeira — observou Mônica.
— Desde quando cadeira tem dono?
— Desde que você passa três anos sentando na mesma.
Chicão olhou para a cadeira.
— Continua sendo uma cadeira.
— Não para você. Para você é uma instituição.
Duda riu.
— Pronto — disse Chicão. — Começou.
Fátima chegou por último, desculpando-se pelo trânsito. Sentou-se, ajeitou a bolsa no colo e pediu o chope de sempre. Havia coisas que não precisavam ser discutidas naquela mesa. O chope era uma delas. A cadeira de Chicão, outra. E, naquela época do ano, todos tinham uma opinião sobre a eleição. O que variava era apenas o grau de certeza.
Na televisão, Alexandre de Moraes ocupava a tela. O sigilo do relatório da Polícia Federal sobre o caso Banco Master havia sido retirado no dia anterior, e o material trazia mensagens recuperadas do celular de Daniel Vorcaro, encontros com o ministro, contratos entre o banco e o escritório da esposa de Moraes, além de pedidos para que as investigações não avançassem contra o banqueiro. As respostas de Moraes não haviam sido recuperadas em parte das conversas, e o caso já provocava novas reações políticas e jurídicas.
Chicão apontou para a televisão.
— É disso que eu estou falando.
Mônica olhou para ele.
— Do Moraes eu entendi. O que exatamente você está dizendo?
— Que a coisa está ficando cada vez pior.
— “A coisa”?
— A situação.
— Qual situação?
— A do Moraes. Do Xandão!
— Isso eu já sei. Quero saber o que você está afirmando.
Chicão respirou fundo.
— Que tem coisa errada. Muito errada. Como pode um ministro do Supremo…
— Isso é uma conclusão ou uma suspeita?
— É uma constatação. São fatos. É preto no branco.
— Baseado em quê?
— Nas notícias.
— Quais notícias?
— Nessas aí.
— Então você não está afirmando. Está repetindo.
Chicão virou-se para Duda.
— Você está vendo isso?
Duda levantou o copo.
— Estou vendo vocês.
Fátima riu.
Chicão voltou-se para Mônica.
— Você não consegue simplesmente ouvir uma coisa e achar grave?
— Consigo.
— Então?
— Estou achando grave. Só não sei ainda exatamente o que é grave. Tudo parece muito grave até surgir alguma coisa ainda mais grave.
Chicão fez uma expressão de impaciência.
— Você consegue complicar até o que está na televisão.
— E você consegue simplificar até o que está na investigação.
Duda baixou a cabeça. Fátima já sorria.
Na televisão, a reportagem avançava para as reações políticas. O caso parecia ter se multiplicado em poucos minutos: mensagens, encontros, contratos, versões, acusações, respostas e interpretações. Cada informação trazia outra, e cada outra parecia exigir mais uma.
Duda observou a tela.
— Época de eleição é assim mesmo: um suspiro e pronto — uma denúncia, uma revelação, uma nova versão. O que prevalece é o império da novidade. O velho entra na estatística de crime não resolvido. E a vida segue. Essa é a regra. Ato contínuo. Estilingue e vidraça. Às vezes um, às vezes outro. Sempre sobra para alguém. Nada passa incólume.
Mônica assentiu.
— Ninguém sai igual a como entrou.
— A disputa quebra arestas, molda, aperfeiçoa — continuou Duda —, mas também danifica, esmaga, destrói. Para ser escolhido, cada um paga um preço. E não é barato. Deixa cicatrizes.
Chicão tomou um gole de chope.
— Vocês estão falando da eleição ou de uma guerra?
— Dependendo do candidato — respondeu Mônica —, dá no mesmo.
Fátima riu.
Na televisão, Moraes desapareceu. Entrou uma pesquisa eleitoral.
Os números apareceram na tela:
2%. 11%. Terceiro lugar. Augusto Cury.
Fátima se inclinou para a frente.
— Mas ele não estava com dois?
— Estava.
— Agora está com onze?
— Onze.
Chicão olhou para a televisão.
— Esse homem apareceu de repente.
Duda continuou olhando para os números.
— Não. Ele apareceu para a gente. Já estava por aí.
— É a mesma coisa.
— Não é.
Mônica aproveitou a deixa.
— É justamente esse o problema.
Chicão olhou para ela.
— Qual?
— Você acha que aparecer e existir são a mesma coisa.
— E não são?
— Não necessariamente.
— Então me explica.
Mônica respirou, satisfeita por ter oportunidade de explicar.
— Uma coisa é crescer. Outra é começar a ocupar espaço. Pesquisa mostra o movimento, não o caminho até ele.
Chicão levantou um dedo.
— Mas subiu ou não subiu?
— Subiu.
— Quanto?
— De dois para onze.
— Então pronto.
— Não é tão simples.
— Para você nada é simples.
— Não. Algumas coisas são apenas complicadas.
— Isso é a mesma coisa.
— Não é.
— É.
— Não é.
Duda interrompeu:
— Vocês pretendem chegar a algum lugar?
— Eu já cheguei — disse Chicão.
— Onde?
— Na conclusão.
Mônica sorriu.
— Eu sabia.
Fátima, que continuava olhando para a televisão, comentou:
— Semana passada quase ninguém falava dele. Agora está em terceiro.
Duda tomou um gole.
— A dinâmica dos acontecimentos é que define o alvo do dia ou da semana. Um movimento diferente, uma alteração qualquer que coloque em risco o equilíbrio das forças antagônicas, ameaçando a manutenção da situação, já é suficiente para deslocar a atenção.
Chicão fez uma careta.
— Traduz.
— Quem mexe no equilíbrio vira notícia.
— Agora entendi.
— E quem vira notícia entra na cabeça das pessoas.
Mônica olhou para a televisão.
— É sempre assim. Um sobrepõe o anterior. Manchete de hoje enterra a de ontem. A indignação tem prazo de validade, e a memória, curta, muito curta. No noticiário de vinte e quatro horas, tudo vira espuma: agita, brilha um instante e se desfaz.
Fátima ficou olhando para a tela.
— E o eleitor?
Duda recostou-se.
— Fica cada dia mais descrente. Ou continua com o antolho.
— Antolho? — perguntou Fátima.
— Só enxerga o que deixam.
Mônica fez uma careta.
— Isso é um pouco exagerado.
— É?
— É. O problema é achar que todo mundo usa o mesmo antolho.
Fátima sorriu.
— E tem quem use sem perceber.
Chicão apontou para si mesmo.
— Eu não uso.
Mônica nem olhou para ele.
— Você acabou de provar.
— Como?
— Porque você nem perguntou o que era.
Fátima riu. Duda também.
Na televisão, Moraes voltou a aparecer. O Cury desapareceu do gráfico. Mais uma vez, um assunto empurrava o outro para fora da tela.
Fátima apontou para a televisão.
— Olha.
— O quê? — perguntou Chicão.
— O Cury sumiu.
— Não sumiu — disse Duda. — Só saiu da televisão.
Fátima ficou pensando.
— Para quem está vendo, não dá no mesmo?
Mônica guardou o celular.
— É aí que está.
— Onde? — perguntou Chicão.
— A atenção virou moeda.
Chicão franziu a testa.
— Moeda?
— Das mais valiosas — disse Mônica. — Quem tem mais compra a melhor vitrine.
Duda completou:
— E decide o que fica fora dela.
Chicão balançou a cabeça.
— Eu continuo escolhendo sozinho.
— Claro — disse Mônica.
— E não mudo de opinião.
— Ninguém pediu.
— Só estou avisando.
Fátima olhou para a televisão.
— Talvez a questão não seja mudar de opinião.
Duda olhou para ela.
— Qual é?
— Mudar aquilo para que a gente está olhando.
Duda sorriu.
Chicão levantou a mão para o garçom.
— Mais uma rodada.
Mônica olhou para ele.
— Você vai dirigir.
— Eu sei.
— Então não peça.
— Eu quero.
— Isso não é argumento.
— Para mim é.
Duda riu.
— Coerente.
A televisão continuava falando de Alexandre de Moraes. Outra análise, outra opinião, outra reação, outra resposta. Chicão acompanhou durante alguns minutos. Primeiro atento. Depois inquieto. Finalmente irritado.
Levantou a mão.
— Garçom.
— Pois não?
— Dá para abaixar um pouco o volume?
Os três olharam para ele.
Mônica sorriu.
— Você não queria ouvir?
Chicão olhou para a televisão.
— Queria.
Fez uma pausa.
— Agora não aguento mais.
Na tela, a notícia mudou outra vez.
Outro nome. Outra denúncia. Outra versão.
Fátima terminou o chope e pegou a bolsa.
— Amanhã aparece outra coisa.
Chicão levantou-se.
— E o Cury?
Duda olhou para a televisão.
— Continua com onze.
Saíram.
Na mesa, ficaram os quatro copos vazios e a televisão falando sozinha.
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João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br, e de Ana de Porangaba, atualmente com a edição impressa esgotada.

João Régis Magalhães
Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.
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