Mãe também tem vontade de sumir

Antes que alguém interprete mal: quando uma mãe diz que está com vontade de sumir, ela não está falando em abandonar os filhos, pedir divórcio, vender a casa e fugir para o Caribe.

Calma.

A gente só quer tomar um café quente sem testemunhas.

É pedir demais?

Às vezes, a fantasia é simples: entrar no banheiro, fechar a porta, escovar os dentes em paz e, por três minutos, não ouvir a palavra “mãe”.

Só isso.

Mas parece que a maternidade instala um dispositivo de rastreamento nos filhos.

Você entra no banheiro:

— Mãe?

Silêncio.

— Mãããe?

Você continua escovando os dentes.

— MÃE, CADÊ VOCÊ?

Minha filha, eu estou a aproximadamente dois metros de você.

— O que você está fazendo?

“Escovando os dentes.”

— Por quê?

Pausa.

Porque… aparentemente… eu sou obrigada a justificar minhas atividades dentro da minha própria casa.

E não termina aí.

— Mãe, onde está minha blusa?

— No seu quarto.

— Qual?

— A sua.

— Mas onde?

Nesse momento, você começa a questionar se está criando filhos ou participando de um programa de perguntas e respostas.

E existe uma situação particularmente cruel: quando você finalmente consegue ficar sozinha.

As crianças estão entretidas.

A casa está silenciosa.

Você pega o café.

Senta.

Respira.

Olha para aquela xícara como quem encontrou o amor da sua vida.

O café está quente.

QUENTE!

Você dá o primeiro gole.

— Mãe!

Fecha os olhos.

Respira.

— Mãe!

Você responde:

— Oi.

— O que você está fazendo?

“Tomando café.”

— Posso ver?

Claro.

Porque aparentemente até o café precisa de supervisão materna.

É impressionante como a palavra “mãe” consegue assumir funções diferentes dependendo da entonação.

“Mãe!” pode significar:

Estou com fome.

Estou com sede.

Estou entediada.

Estou com medo.

Estou sem saber onde coloquei meu próprio objeto.

Quero te contar uma coisa que poderia esperar.

Preciso de ajuda.

Quero sua atenção.

Ou simplesmente:

Mãe, você existe?

E você existe.

Você sempre existe.

É justamente esse o problema.

A mãe nunca está realmente fora do expediente.

Pode estar no banheiro.

“Mãe!”

Pode estar trabalhando.

“Mãe!”

Pode estar dormindo.

“Mãe!”

Pode estar no telefone.

“Mãe!”

Pode estar no meio de uma reunião.

“Mãe!”

Pode estar, inclusive, respondendo ao próprio “mãe” de outra criança.

“Mãe, você está me ouvindo?”

Estou.

Infelizmente, estou.

E é aí que nasce aquela vontade secreta de sumir.

Não de desaparecer da vida dos filhos.

Mas de desaparecer da função de mãe por alguns minutos.

Quinze minutos sem ninguém precisar de você.

Sem alguém perguntar onde está alguma coisa.

Sem resolver conflito.

Sem preparar lanche.

Sem lembrar horário.

Sem procurar meia.

Sem responder perguntas filosóficas às sete da manhã.

Sem ouvir:

— Mãe, o que a gente vai fazer hoje?

“Não sei, filha. Talvez sobreviver.”

A verdade é que existe uma diferença enorme entre querer ficar longe dos filhos e querer um pouco de silêncio para conseguir voltar para eles inteira.

Porque ninguém consegue oferecer amor o tempo inteiro sem precisar, em algum momento, recarregar a própria bateria.

Até o celular entra no modo economia de energia.

A mãe também deveria ter esse direito.

Só que nosso modo economia de energia é meio complicado.

A gente tenta tomar banho.

Alguém bate na porta.

Tenta dormir mais cinco minutos.

“Mãe, acorda.”

Tenta assistir a uma série.

“Mãe, o que aconteceu?”

Tenta trabalhar.

“Mãe, olha isso!”

Tenta fazer cocô.

Bom…

Nem preciso explicar.

O banheiro materno é praticamente uma área pública.

E talvez seja por isso que, às vezes, a maior demonstração de amor que uma mãe pode fazer por si mesma seja simplesmente dizer:

“Agora eu preciso de cinco minutos.”

Sem culpa.

Sem explicação.

Sem precisar justificar.

Porque uma mãe cansada não é uma mãe que ama menos.

É uma mãe que também é humana.

E talvez nossos filhos precisem aprender isso.

Que mamãe pode amar muito e, ainda assim, querer ficar sozinha.

Que mamãe pode sentir saudade quando está longe e, cinco minutos depois de chegar em casa, desejar silenciosamente que todo mundo fique quieto.

Que mamãe pode querer um abraço e, logo depois, querer que ninguém encoste nela.

A maternidade é feita desses paradoxos.

A gente passa anos ensinando os filhos a serem independentes e, quando eles finalmente conseguem abrir a geladeira sozinhos, sente uma pontinha de tristeza porque percebe que eles estão crescendo.

A gente quer que durmam a noite inteira.

Mas, quando dormem, vai lá olhar se estão respirando.

A gente quer silêncio.

Mas, quando a casa fica silenciosa demais, pensa:

“Meu Deus. O que essas crianças estão aprontando?”

Então, sim.

Mãe também tem vontade de sumir.

Mas é só por alguns minutos.

Talvez para tomar um café quente.

Talvez para escovar os dentes sem audiência.

Talvez para entrar no carro, fechar a porta e ficar cinco minutos olhando para o nada.

Sem destino.

Sem perguntas.

Sem “mãe”.

Só silêncio.

E depois a gente volta.

Porque a verdade é que, depois de alguns minutos sozinha, começa a bater saudade.

A gente pega o celular para ver uma foto.

Sorri.

Respira fundo.

E volta para casa.

Até porque, se demorar muito, alguém provavelmente já começou:

— Mããããe?

E a gente responde:

— Oi, meu amor.

Porque ser mãe é isso.

Querer fugir por cinco minutos e voltar correndo porque, no fundo, é exatamente ali que a gente queria estar.

Só que, se puderem colaborar…

Hoje eu gostaria de escovar os dentes em paz.

Só isso.

Prometo que amanhã eu volto a responder “mãe” pela 59ª vez em três minutos.

*Artigo escrito por Julyana Almeida

Jornalista, mãe de 3 crianças lindas e disposta a compartilhar as loucuras e gostosuras da maternidade.

Instagram: https://www.instagram.com/rabiscosdeumamae

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