Por falar em abóboras…
Os desentendimentos já vinham de longa data. Às vezes, em acaloradas discussões, com gritos e ofensas de parte a parte. Era como se todos os podres de cada um precisassem ser expostos, apregoados ao mundo que, naquele caso, eram apenas os vizinhos mais próximos. E nem precisavam ser coisas tão pavorosas, nem tão importantes para manchar a biografia do outro. Bastava que fosse algum malquerer sem importância, mas que precisava ser desabafado pelo acúmulo de muitas inseguranças, de diversas insônias. Dias sem sonhos, noites sem sono.
Estavam conscientes da ineficácia dos xingamentos para mudar as coisas. Também não havia a exigência de que fossem de verdade toda aquela enxurrada de desaforos, bravatas e ataques dos enunciados.
Outras vezes, sem quaisquer palavras, sem quaisquer gestos rudes, dedos apontados ou ações de modo grosseiro, em que se jogam as coisas ou se caminha pesado como numa marcha militar. E esses eram, provavelmente, os momentos mais tensos, mais intranquilos que toda a falsa passividade impunha aos corações já em frangalhos. Era como a paz que precede ou sucede às guerras. São momentos tão densos que se tem a sensação de que poderiam ser fatiados como uma fruta que se pretende devorar.
Não havia uma culpa personalíssima perceptível. Apenas um desgaste da relação pelas diferenças intransponíveis de pensar, de sentir e de buscar aprender e se desenvolver de cada um. E ficava claro a ambos que o abismo crescia entre eles; no entanto, soltar os já débeis fios prestes à ruptura causava mais medo que a continuidade de uma relação, quase certamente, sem futuro.
Muitas vezes, o estopim para as explosões ou animosidade silenciosa eram detalhes ridículos, quase doentios, criados com o único propósito de impor ao outro uma vontade, um ponto de vista, uma decisão sobre um tema tão importante quanto o “sexo dos anjos”.
Da última vez, não foi diferente. Um grupo de amigos vem para almoçar, para comemorar sabe-se lá o quê e, numa conversa sobre a comida, um diz que não gosta de abobrinha. Um dos convidados comenta que não entende por quê. Afinal, abobrinha refogada com uma carne moída fica uma delícia. Outro observa as qualidades nutricionais da fruta que, observe-se, apesar de ser tratada como legume na culinária, trata-se de um equívoco. É uma fruta.
A comida foi servida, os anfitriões e os convidados terminam o almoço e continuam a conversa informal acompanhada de alguma bebida. É quando um dos anfitriões relata, com orgulho de um vencedor que desdenha o oponente buscando a admiração da plateia, que o purê foi feito com batatas e uma abobrinha encontrada, por acaso, na gaveta da geladeira. E vem acompanhada da provocação de que o outro teria comido e gostado. Então que não falasse a bobagem de que não gostava.
Foi, pensou, um golpe de mestre: acreditou ter provado seu ponto sobre o paladar alheio enquanto o expunha deliberadamente ao grupo. Mesmo que alguns tenham observado, de passagem, que uma porção de purê reinava invencível num dos pratos.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.
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