Eles veem. Elas sentem.

Existe uma coisa curiosa sobre a maternidade: os homens conseguem observar praticamente tudo.
Eles veem a barriga crescer.
Veem a mulher mudar a alimentação, o humor, o sono, o tamanho das roupas e, em alguns casos, até a forma de caminhar.
Veem o bebê nascer.
Veem a mulher passar noites acordada, aprender a trocar fralda, amamentar, dar banho, carregar criança no colo, preparar papinha, organizar mochila e descobrir que é perfeitamente possível fazer almoço enquanto segura um bebê com um braço só.
Eles veem tudo.
Só existe um pequeno detalhe:
eles não sentem nada disso na própria pele.
Um homem pode acompanhar uma gestação inteira e ainda assim jamais saber exatamente o que significa sentir um corpo mudar diariamente sem pedir licença.
Ele pode ver uma barriga crescendo.
Mas não sente o peso dela.
Pode ver os pés inchados.
Mas não sente a dificuldade de encontrar uma posição confortável para dormir.
Pode ouvir:
— Estou cansada.
Mas não sente o cansaço de quem está gerando uma vida enquanto o próprio organismo parece ter decidido trabalhar em regime de plantão 24 horas.
Pode assistir ao parto.
Mas não sente o parto.
Pode segurar o bebê.
Mas não sente aquele momento em que a mulher olha para aquela pequena criatura e percebe, de uma hora para outra, que sua vida acaba de ganhar uma responsabilidade que não cabe em nenhuma planilha.
E talvez seja justamente aí que começa a grande transformação.
Porque a maternidade não muda apenas o corpo.
Ela muda a mulher por dentro.
Muda a maneira de dormir.
A mulher que antes acordava com barulho de chuva passa a despertar com um suspiro de criança no quarto ao lado.
Muda a maneira de comer.
Antes, ela sentava para fazer uma refeição.
Depois, come em pé, frio, rápido e, se bobear, termina comendo o que sobrou no prato dos filhos.
Muda a maneira de sair de casa.
Antes:
“Peguei a bolsa, a chave e o celular.”
Depois:
“Fralda, lenço, água, fruta, troca de roupa, remédio, brinquedo, documento, casaco, lanche, garrafinha, carregador…”
E ainda assim alguma coisa vai ficar em casa.
Muda a relação com o silêncio.
Um homem pode pensar:
“Que paz. As crianças estão quietas.”
Uma mãe pensa:
“Por que estão quietas?”
Porque maternidade também é desenvolver uma espécie de radar.
A mulher passa a reconhecer um choro específico no meio de outros dez.
Sabe quando o filho está realmente doente.
Sabe quando está fazendo drama.
Sabe quando aquele “não aconteceu nada” significa que aconteceu alguma coisa.
E sabe, principalmente, que quando uma criança diz:
“Não fui eu.”
É exatamente nesse momento que começa a investigação.
Mas talvez a mudança mais radical seja outra.
A maternidade muda a relação da mulher com ela mesma.
O corpo que antes era apenas corpo passa a carregar histórias.
A barriga que cresceu.
As marcas que ficaram.
Os seios que mudaram.
Os cabelos que caíram.
As noites sem dormir.
O cansaço acumulado.
E, ao mesmo tempo, uma força que ela provavelmente nem sabia que possuía.
É curioso observar tudo isso do lado de fora.
Para quem olha, pode parecer que a mulher simplesmente “mudou”.
E mudou mesmo.
Só que não foi uma mudança simples.
Não foi como trocar o corte de cabelo ou mudar de emprego.
Foi mais parecido com uma reforma completa, feita com a casa ocupada e sem possibilidade de sair para esperar a obra terminar.
A maternidade derruba algumas paredes, constrói outras, muda os móveis de lugar e ainda coloca três crianças correndo pela sala enquanto a reforma acontece.
E os homens?
Bom…
Eles podem observar.
Podem tentar entender.
Podem se assustar com a velocidade com que uma mulher passa a fazer cinco coisas ao mesmo tempo.
Podem achar impressionante a capacidade de lembrar o horário da escola, da consulta, do ballet, da prova e do aniversário de uma criança enquanto procuram desesperadamente o próprio celular.
Podem até perguntar:
— Como você consegue?
E talvez essa seja uma das perguntas mais curiosas que uma mãe pode ouvir.
Porque, muitas vezes, ela também não sabe.
Ela simplesmente consegue.
Não porque seja super-heroína.
Não porque nasceu preparada.
Não porque tenha algum manual secreto escondido na bolsa.
Mas porque a maternidade vai ensinando enquanto acontece.
É aprender com sono.
Aprender com medo.
Aprender errando.
Aprender acertando.
Aprender que o que funcionou ontem pode não funcionar hoje porque, aparentemente, crianças também recebem atualizações de sistema.
E talvez seja por isso que existe uma diferença tão grande entre observar a maternidade e vivê-la.
Eles veem a transformação.
Elas sentem.
Eles veem a barriga crescer.
Elas sentem o corpo mudar.
Eles veem o bebê nascer.
Elas nascem de novo junto com ele.
Eles veem uma mulher se tornar mãe.
Ela descobre, aos poucos, uma nova versão de si mesma.
Uma versão mais cansada, talvez.
Mais preocupada.
Mais ocupada.
Mais esquecida de algumas coisas e absolutamente incapaz de esquecer outras.
Uma mulher que pode passar horas procurando um brinquedo perdido e, cinco minutos depois, não lembrar onde colocou a própria chave.
Uma mulher que às vezes sente saudade de quem era antes.
E isso não significa amar menos os filhos.
Significa apenas reconhecer que a maternidade não acrescenta somente uma criança à vida de uma mulher.
Ela acrescenta uma nova identidade.
Novas responsabilidades.
Novos medos.
Novos amores.
Novas prioridades.
E uma quantidade inacreditável de coisas para carregar na bolsa.
Talvez os homens nunca consigam sentir exatamente o que a maternidade provoca no corpo e na alma de uma mulher.
E tudo bem.
Nem tudo precisa ser sentido para ser respeitado.
Às vezes, basta olhar com mais atenção.
Porque por trás daquela mulher que parece dar conta de tudo existe alguém que também se cansa, sente medo, sente saudade de si mesma, ri, chora, improvisa, erra, acerta e segue.
E se existe alguma coisa que a maternidade ensina para quem observa de fora é simples:
não é que a mulher tenha deixado de ser quem era.
Ela apenas descobriu que era capaz de ser muito mais.
E talvez essa seja a parte que ninguém consegue enxergar completamente.
Porque algumas transformações não aparecem no espelho.
A gente sente.
E mãe sente tudo.

*Artigo escrito por Julyana Almeida
Jornalista, mãe de 3 crianças lindas e disposta a compartilhar as loucuras e gostosuras da maternidade.
Instagram: https://www.instagram.com/rabiscosdeumamae