Quando a IA vira confidente, crianças e adolescentes passam a recorrer a chatbots para falar sobre saúde mental

Uso de inteligência artificial para compartilhar sentimentos e problemas pessoais cresce entre jovens; psicóloga alerta para o risco de substituir relações de confiança por respostas de máquinas

A inteligência artificial já ocupa um espaço que vai além das pesquisas, tarefas escolares e entretenimento entre crianças e adolescentes. Jovens também estão recorrendo a chatbots para falar sobre sentimentos, relacionamentos, inseguranças, solidão e problemas pessoais, criando uma nova questão para pais e educadores: o que significa quando um adolescente prefere contar para uma máquina aquilo que não consegue contar para as pessoas próximas?

Um estudo publicado em 2026 no JAMA Pediatrics, com adolescentes e jovens adultos de 12 a 21 anos nos Estados Unidos, identificou que 19,2% dos participantes já haviam utilizado chatbots para buscar aconselhamento relacionado à saúde mental. Entre os que recorriam à tecnologia para essa finalidade, 42,8% faziam isso pelo menos uma vez por mês. Mais de seis em cada dez, porém, disseram não ter contado a ninguém que utilizavam chatbots para esse tipo de aconselhamento.

Outro levantamento, realizado pela Common Sense Media com crianças e adolescentes de 9 a 17 anos, mostrou que mais de um terço dos jovens que utilizam inteligência artificial já recorreu à tecnologia para conversar sobre sentimentos ou problemas pessoais. O comportamento aparece com maior frequência entre aqueles que relatam solidão ou dificuldade para fazer amigos.

Para a psicóloga e psicopedagoga Roberta Passos, algumas características das ferramentas ajudam a explicar por que elas podem ganhar espaço como confidentes dos mais jovens.

Para um adolescente, conversar com uma ferramenta que responde imediatamente, não demonstra julgamento e está disponível a qualquer momento pode gerar uma sensação de segurança. Principalmente quando ele tem medo da reação que receberia ao contar aquele mesmo problema para um adulto”, explica.

A questão, segundo a especialista, não está simplesmente no fato de crianças e adolescentes conversarem com inteligência artificial, mas no momento em que a ferramenta passa a ocupar de forma recorrente o espaço das relações pessoais ou do acompanhamento profissional.

A IA pode produzir uma resposta acolhedora e até ajudar alguém a organizar aquilo que está sentindo, mas isso não significa que exista ali uma relação terapêutica. Um profissional acompanha uma história e considera fatores que vão muito além daquilo que foi escrito em uma conversa”, afirma Roberta.

A diferença ganha importância durante a infância e a adolescência, períodos em que habilidades emocionais e sociais ainda estão em construção. Aprender a reconhecer sentimentos, lidar com frustrações, explicar o que está acontecendo e procurar ajuda também depende das relações estabelecidas com outras pessoas.

Nem sempre receber uma resposta imediatamente é aquilo de que uma criança ou adolescente precisa. Muitas habilidades emocionais são desenvolvidas no contato com outras pessoas, inclusive quando é necessário conversar sobre algo difícil ou lidar com uma resposta diferente daquela que se esperava”, observa.

Para Roberta, simplesmente proibir o contato com ferramentas de inteligência artificial não resolve a questão. Pais e responsáveis precisam conversar com os jovens sobre como esses recursos funcionam, compreender seus limites e criar espaço para que dúvidas, inseguranças e experiências vividas também nos ambientes digitais possam ser compartilhadas.

Mais do que descobrir apenas o que o filho está contando para um chatbot, portanto, os adultos precisam observar o que pode estar levando aquele jovem a procurar uma máquina para falar sobre aquilo que não consegue compartilhar com pessoas próximas.

Talvez a pergunta mais importante para os pais não seja apenas ‘o que meu filho está falando para o ChatGPT?’, mas ‘por que ele sente que consegue falar sobre isso com uma máquina e não comigo?’. Essa resposta pode revelar muito sobre a relação e sobre o espaço que esse jovem encontra para falar do que sente”, destaca.

A psicóloga reforça que a inteligência artificial pode fazer parte da rotina de crianças e adolescentes, mas não deve substituir vínculos humanos nem o cuidado profissional quando necessário.

A inteligência artificial pode estar disponível 24 horas e responder em poucos segundos, mas não conhece aquela criança ou adolescente como as pessoas que convivem com ela. Quando algo não está bem, é importante que o jovem saiba que existe alguém a quem pode recorrer e que será ouvido”, conclui.

Sobre a especialista:
Roberta Passos atua há mais de 14 anos como Psicóloga Clínica e Psicopedagoga, com especialização em Neuropsicologia pelo IPQ-FMUSP. Atende crianças, adolescentes e adultos em diversas queixas, entre elas dificuldades de aprendizagem.

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