O Primeiro Passo

João Régis Magalhães

Era sábado, quase meio-dia, e os dois amigos estavam na varanda da casa de Ernesto, em Brasília, esperando o almoço. Uma brisa morna e seca mexia as folhas do jardim quando Oliveira, distraído, comentou:

— Já estamos na primavera! O tempo não para.

— Talvez seja porque você esteja velho. Na sua idade, o tempo parece passar mais rápido — respondeu Ernesto.

— Não seja cretino. Você é só um pouco mais novo.

— Alguns poucos meses fazem muita diferença. E como fazem. É só olhar para a gente…

Oliveira soltou uma gargalhada.

— Deixe de lorota. A idade é só uma referência cronológica. O que importa é gozar de boa saúde e continuar sonhando com o futuro.

— Pode ser… mas você não pode negar que é mais velho. Que parece bem mais velho e que pensa e age como velho.

Oliveira deu um muxoxo, fez uma careta como se estivesse indignado e levantou um pouco a voz:

— Cacete, você parece que não tem outro assunto… Só fala nisso. Para com isso, porra!

— Calma, violência. Estou apenas brincando com o mais velho. Perdeu o senso de humor? Tá irritadinho?

— Ernesto, não enche o saco!

— Já sei. Tá nervosinho porque seu candidato está apertado na disputa. Olha que ele vai perder…

— Não seja idiota! Não é nada disso! E veja que não é bem assim… As pesquisas erram. E como!

— Tá bom, se você está dizendo… Vou fingir que acredito. Vou dar esse crédito ao velhinho.

Os dois riram. Eram amigos havia mais de trinta anos. Tinham se conhecido nos shows de rock de Brasília, nos anos 90: Ernesto era vocalista; Oliveira, baixista, em bandas diferentes. Naquela época, namoravam duas irmãs gêmeas, Isadora e Isabel, e acabaram virando concunhados e melhores amigos.

A amizade sobrevivera às bandas, aos casamentos, às mudanças de vida, às implicâncias mútuas e às diferenças políticas. Essas nunca foram pequenas. Isadora e Isabel também tinham suas preferências, mas raramente transformavam política em motivo de briga.

Oliveira tomou um gole de cerveja. Estava estupendamente gelada.

— Tudo bem que você não queira falar de política. Eu até entendo. Essa história está cada vez mais suja. Mas, porra, estamos a pouco mais de uma semana das eleições. Não dá para fugir desse assunto…

— Verdade. Você tem toda a razão — respondeu Ernesto.

Ficaram alguns segundos em silêncio.

— Mas você acha mesmo que, depois da eleição, alguma coisa vai mudar? — perguntou Oliveira.

— Alguma coisa sempre muda.

— Estou falando de mudança de verdade.

Ernesto deu de ombros.

— Aí já não sei.

— Às vezes tenho a impressão de que essa eleição vai acabar sendo decidida por quem a gente rejeita menos.

— Pode ser. Tem gente que já decidiu em quem não vai votar. O resto vem depois.

— Também não é bem assim. Tem gente olhando as propostas.

— Claro que tem. Mas a rejeição está pesando. E como.

Ernesto olhou para o jardim. Oliveira continuou:

— E depois? Troca presidente, deputado, governador… e os problemas? Bem, eles continuam. Simples assim!

— Porque o problema é maior.

— Maior quanto?

Ernesto não respondeu.

— Às vezes fico pensando por que gente séria, com experiência e alguma coisa a oferecer, não se anima a entrar nessa disputa. Faltam estadistas neste pleito!

— Você entraria?

— Eu? Nem pensar.

— Então está explicado.

Os dois riram.

— Falando sério — disse Oliveira. — Quem tem uma vida resolvida, profissão, família, vai se meter numa encrenca dessas para quê? Se perder, ainda sai marcado.

— Se ganhar, talvez seja pior.

— Por quê?

— Porque aí começa outro entrevero. E esse parece ser bem pior.

Oliveira sorriu.

— Também é verdade.

Ficaram novamente em silêncio, ouvindo os ruídos da casa e o balançar das folhas das árvores do jardim.

— Mas tem uma coisa que me incomoda — disse Ernesto. — A gente fala da eleição para presidente como se fosse a única que importa.

— E não é. Você tem razão. Tem deputado, senador, governador — respondeu Oliveira.

— Pois é. A gente não dá a devida atenção na hora de votar neles e depois passa quatro anos reclamando.

Oliveira recostou-se na cadeira.

— Talvez seja aí que esteja uma parte do problema.

Ernesto sorriu.

— Pode ser.

Ficaram alguns segundos em silêncio.

Ernesto ficou pensativo.

— Mas não é só o Executivo e o Congresso.

Oliveira levantou os olhos.

— Você está falando do Judiciário.

— Estou.

— Lá vem você…

— Não, falando sério. Tem coisa no funcionamento do Judiciário que também precisa ser discutida.

— O quê, por exemplo?

Ernesto pensou antes de responder:

— Não sei exatamente. Mas me incomoda quando tribunal parece governo, quando ministro parece político. E acho que decisões que afetam milhões de pessoas deveriam, sempre que possível, ser discutidas pelo colegiado. Não dá para achar normal que uma decisão individual tenha tamanho alcance.

Oliveira assentiu.

— E deveria haver limite.

— Para todo mundo. Executivo, Congresso e Judiciário.

— Todos. Sem exceção.

Nesse momento, Isadora apareceu na varanda com mais duas cervejas num balde de gelo.

— Vocês estão falando de política outra vez?

— Só um pouquinho — respondeu Oliveira.

— Só um pouquinho? Pelo jeito, vocês já salvaram o Brasil umas três vezes.

— Estamos quase lá — disse Ernesto.

— Então vou chamar a Isabel. Ela não pode perder uma oportunidade dessas.

Isabel veio logo depois e sentou-se ao lado da irmã.

— O que vocês estão resolvendo agora?

— Nada — disse Ernesto. — Chegamos à conclusão de que não sabemos resolver nada.

— Finalmente uma conclusão sensata — disse Isadora.

Todos riram.

Isabel tomou um gole de cerveja e perguntou:

— Mas vocês estão falando dos outros cargos também?

— Estamos — respondeu Ernesto. — Deputado, senador, governador…

— E vocês já sabem em quem vão votar? — perguntou Isadora.

Oliveira fez uma careta.

— Aí você está querendo demais.

— Pois é — disse Isadora. — Para presidente vocês sabem até o que o sujeito falou há três semanas. Para deputado, muitas vezes a gente olha o santinho e decide na hora.

— Não é bem assim — protestou Oliveira.

— É um pouco — respondeu ela.

Ernesto riu.

— Nesse ponto, ela tem razão.

Isabel apoiou o copo sobre a mesa.

— Eu acho que a gente presta pouca atenção justamente onde deveria prestar mais.

Oliveira olhou para ela.

— Está vendo? Agora vocês duas vão começar a resolver o Brasil também.

— Não. Resolver o Brasil é muito trabalho — disse Isabel. — Estou falando só de prestar atenção antes de votar.

— E depois também — acrescentou Isadora. — Não adianta lembrar deles só quando aparece uma eleição.

Ernesto assentiu.

— A gente cobra muito antes da eleição e pouco depois dela.

— Porque depois dá trabalho — disse Oliveira.

— Exatamente — disse Ernesto, sorrindo.

— Não exagera — disse Isadora. — Só estamos dizendo uma coisa simples.

— Qual?

— Que não custa olhar um pouco mais antes de apertar o botão.

Oliveira levantou a sobrancelha.

— E você acha que isso muda alguma coisa?

Isadora deu de ombros.

— Não sei. Mas votar sem prestar atenção também não ajuda.

Houve um breve silêncio.

— E não adianta esperar que a eleição resolva tudo — disse Isabel.

Ernesto olhou para ela.

— Isso é o que mais me preocupa.

— Então não espera — disse Isadora. — Faz o que dá para fazer.

— E o que dá para fazer? — perguntou Oliveira.

Isadora deu de ombros.

— Prestar atenção, escolher com cuidado e cobrar depois.

— Parece pouco — disse Ernesto.

— Pode ser. Mas é o que está na nossa mão.

Ninguém respondeu.

Da cozinha veio o cheiro apetitoso do almoço. Um panelão de cozido fumegava sobre o fogão.

Oliveira respirou profundamente e salivou com satisfação.

— Pelo menos uma coisa vai ser resolvida.

— O quê?

— A minha fome. Ela tá para me matar. E esse cheiro…

Isabel abriu os braços e sorriu.

— Finalmente um assunto sobre o qual nós podemos concordar.

Todos riram.

Levantaram-se em direção à sala. Ernesto ficou mais um instante sentado, olhando o jardim. Era primavera. O tempo continuava passando.

Pensou na conversa daquela manhã. Não tinham encontrado uma solução para o país. Nem sabiam onde ela começava.

Levantou-se e juntou-se aos outros três à mesa de jantar.

E a mudança, talvez, começasse ali: quando o eleitor deixasse de passar pela eleição distraído.

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João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br, e de Ana de Porangaba, atualmente com a edição impressa esgotada.


João Régis Magalhães

Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.

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