Mãe de atleta

Ser mãe de atleta é descobrir que sábado de manhã pode começar antes mesmo do sol.

Enquanto boa parte da humanidade está dormindo, você está de pé. Cabelo preso de qualquer jeito, café na mão, mochila conferida umas três vezes e aquela pergunta que ninguém fez, mas você já está respondendo:

— Será que ela levou tudo?

Tênis? Levou. Uniforme? Levou. Garrafinha? Levou. Documento? Levou. Juízo? Esse a gente descobre na quadra.

E lá vamos nós.

Chegamos cedo. Sempre cedo. Porque mãe de atleta não chega no horário. Mãe de atleta chega antes, procura lugar para sentar, organiza as coisas, observa as outras equipes, tenta entender a tabela do campeonato e, quando percebe, já está emocionalmente envolvida com crianças que nem conhece.

Aí começa o jogo.

E começa também o meu sofrimento.

Eu quero que ela entre em quadra.

Mas, quando ela entra, meu coração aperta.

Quero que ela jogue bem.

Mas, quando ela vai para a recepção, eu penso: “Meu Deus, não deixa essa bola cair”.

Ela erra a recepção.

Eu penso: “Tudo bem. Acontece.”

Mas por dentro:

“MEU DEUS, NÃO FICA TRISTE.”

Ela acerta um saque.

Eu comemoro como se tivesse acabado de ganhar uma medalha olímpica.

Ela faz um ponto de ataque.

Eu quase levanto da arquibancada para entrar em quadra e comemorar junto.

Aí vem aquele saque adversário.

Meu coração para.

A bola vem.

Ela recebe.

Eu respiro.

A levantadora levanta.

Ela vai para o ataque.

Eu já estou emocionalmente preparada para qualquer coisa.

E, quando a bola cai do outro lado, eu comemoro como se minha filha tivesse acabado de garantir o ouro olímpico.

Ser mãe de atleta é isso: torcer para ganhar, mas torcer ainda mais para que ela saiba perder.

Torcer para jogar bem, mas torcer para que ela não ache que vale menos quando não joga.

Torcer para que entre em quadra confiante, mas sem colocar sobre aqueles pequenos ombros a obrigação de nos dar orgulho.

Porque, no fundo, o orgulho já está ali.

Antes do primeiro saque.

Antes do primeiro ponto.

Antes mesmo de ela entrar em quadra.

Está no caminho até o campeonato. Nos treinos. No esforço. Na disciplina. No cansaço. Nas vezes em que ela preferiu continuar tentando quando seria muito mais fácil desistir.

E talvez essa seja a parte mais difícil de ser mãe de atleta: aprender a assistir sem querer controlar.

Você quer gritar.

“Vai!”

“Corre!”

“Recebe!”

“Levanta!”

“Ataca!”

“Bloqueia!”

“Não deixa essa bola cair!”

Mas lembra que existe um treinador.

E, principalmente, lembra que existe uma mãe tentando não ser expulsa da arquibancada.

Então você respira.

Aperta as mãos.

Faz promessa silenciosa.

E torce.

Torçe para ela ganhar.

Torçe para ela jogar bem.

Torçe para ela não se machucar.

Torçe para ela não se frustrar.

Torçe para ela não chorar.

E, se chorar, torce para conseguir abraçá-la sem fazer um discurso de 40 minutos sobre resiliência.

Porque mãe é assim.

A gente quer proteger do erro, da derrota, da frustração, da dor.

Só que, aos poucos, percebe que também é nossa função deixá-los viver tudo isso.

Errar uma recepção.

Mandar o saque para fora.

Perder um ponto.

Perder um set.

Perder um jogo.

Tentar de novo.

Aprender.

Cair.

Levantar.

E entender que uma derrota não apaga todo o esforço que veio antes dela.

No fim do jogo, pouco importa o placar.

Se ganhou, a gente comemora.

Se perdeu, a gente abraça.

Se jogou bem, elogia.

Se jogou mal, diz que faz parte.

E se ela perguntar:

— Mãe, você acha que eu fui bem?

A resposta já está pronta.

— Eu acho que você foi incrível.

Porque mãe de atleta pode até sofrer com cada saque, cada recepção errada, cada bola que cai, cada ponto perdido.

Mas, quando olha para a filha ali, em quadra, correndo, tentando, aprendendo e crescendo…

percebe que já ganhou.

E muito.

Agora, se alguém puder inventar um campeonato em que a mãe também possa entrar em quadra para sofrer menos, eu agradeço.

Porque acompanhar filha no vôlei é esporte de alto rendimento.

E, pelo visto, eu já estou classificada para a próxima fase.

*Artigo escrito por Julyana Almeida

Jornalista, mãe de 3 crianças lindas e disposta a compartilhar as loucuras e gostosuras da maternidade.

Instagram: https://www.instagram.com/rabiscosdeumamae

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