O país que estamos criando
Amanhã é dia de eleição.
Graças a Deus.
Depois de meses de campanha, santinhos, promessas, debates, jingles que grudam na cabeça, brigas nas redes sociais e aquele sentimento coletivo de “será que acaba logo?”, finalmente chegou o dia em que cada brasileiro vai diante da urna fazer a sua escolha.
E, como mãe, eu fico pensando que eleição tem tudo a ver com maternidade.
Tudo.
Porque enquanto a gente escolhe quem vai administrar o país nos próximos anos, dentro de casa estamos, todos os dias, ajudando a escolher que tipo de país vai existir daqui a vinte, trinta, quarenta anos.
É que filho não nasce sabendo o que é cidadania.
Não nasce sabendo respeitar o próximo, cumprir regras, ouvir opiniões diferentes, reconhecer um erro ou entender que nem sempre vai ganhar.
Isso tudo a gente ensina.
Ou deveria ensinar.
A gente ensina quando diz que não pode furar fila.
Quando explica que o brinquedo do outro não é dele.
Quando ensina que mentir para conseguir vantagem continua sendo errado, mesmo quando “ninguém vai descobrir”.
Quando cobra responsabilidade por aquilo que fez.
Quando diz que perder faz parte.
Quando ensina que discordar não significa odiar.
E talvez seja aí que esteja uma das maiores responsabilidades de ser mãe e pai.
Porque é muito fácil reclamar da corrupção, da falta de ética, da intolerância, da violência, do desrespeito às instituições, das discussões políticas que parecem mais uma guerra do que um debate.
Difícil é olhar para o filho e perceber que a mudança começa ali.
Na nossa sala.
Na nossa mesa de jantar.
No jeito como falamos das pessoas.
No jeito como tratamos quem pensa diferente.
No exemplo que damos quando erramos.
Porque criança observa.
Observa muito mais do que escuta.
Se dizemos que honestidade é importante, mas damos um jeitinho quando convém, ela aprende.
Se falamos que é preciso respeitar opiniões diferentes, mas chamamos de burro todo mundo que pensa diferente de nós, ela aprende.
Se ensinamos que ganhar não é tudo, mas fazemos qualquer coisa para levar vantagem, ela aprende.
E, quando menos esperamos, aquela criança que hoje pede colo, reclama do banho, espalha brinquedo pela casa e pergunta por que precisa ir para a escola será um adulto tomando decisões.
Talvez esteja dirigindo uma empresa.
Talvez esteja cuidando de um hospital.
Talvez esteja ensinando outras crianças.
Talvez esteja ocupando um cargo público.
Talvez esteja sentado diante de uma urna escolhendo os próximos governantes.
Talvez esteja, quem sabe, governando este país.
É por isso que a educação dos nossos filhos é também uma espécie de política pública particular.
Uma política feita dentro de casa.
Sem palanque.
Sem horário eleitoral.
Sem santinho.
Mas com consequências enormes.
A gente quer um país melhor para os nossos filhos.
Mas talvez precise pensar também em criar filhos melhores para o nosso país.
Filhos que entendam que liberdade vem acompanhada de responsabilidade.
Que direitos caminham junto com deveres.
Que democracia não é só poder escolher quem governa, mas também saber conviver com quem escolheu diferente.
Que política não precisa ser sinônimo de briga.
Que dinheiro público não é dinheiro de ninguém.
É dinheiro de todo mundo.
Que o bem coletivo também importa.
Que caráter não pode depender de quem está olhando.
E que fazer a coisa certa quando ninguém está vendo talvez seja uma das maiores formas de cidadania.
Hoje, enquanto milhões de brasileiros vão às urnas, nossos filhos talvez estejam brincando, estudando, dormindo ou perguntando quando vamos voltar para casa.
Eles ainda não sabem.
Mas o futuro está olhando para eles.
E talvez a nossa maior missão como mães e pais não seja apenas deixar um mundo melhor para os nossos filhos.
Seja também preparar nossos filhos para fazerem do mundo um lugar melhor.
Porque, no fim das contas, a próxima eleição começa muito antes de apertarmos qualquer botão.
Começa quando ensinamos uma criança a respeitar.
A ser honesta.
A ouvir.
A questionar.
A pensar.
A assumir responsabilidades.
A não aceitar o errado como normal.
A não transformar diferenças em inimigos.
E, principalmente, a entender que o futuro não é uma coisa que simplesmente acontece.
O futuro é construído.
Um voto de cada vez.
Uma escolha de cada vez.
Uma atitude de cada vez.
E, dentro de casa, uma criança de cada vez.
Hoje, nós escolhemos quem queremos para o país.
Todos os dias, porém, temos a oportunidade de ajudar a formar quem queremos que esse país seja amanhã.
E essa, talvez, seja a eleição mais importante de todas.
A que acontece dentro de casa.
Todos os dias.
Porque mãe sofre, educa, insiste, repete, respira fundo…
E, no fim, torce.
Torcendo para que nossos filhos cresçam e façam um pouco melhor do que nós fizemos.
Talvez seja essa a nossa verdadeira esperança.
E talvez o Brasil precise, mais do que nunca, de crianças que cresçam sabendo que mudar o país começa muito antes de chegar à urna.

*Artigo escrito por Julyana Almeida
Jornalista, mãe de 3 crianças lindas e disposta a compartilhar as loucuras e gostosuras da maternidade.
Instagram: https://www.instagram.com/rabiscosdeumamae
