CHAMPAGNE NÃO É SINÔNIMO DE ESPUMANTE

Entre bolhas, tradição e território: o que realmente existe dentro de uma garrafa de Champagne

“Vamos tomar um champanhe?”

A frase é tão comum que quase ninguém para para pensar no que está dizendo.

No Brasil, muitas vezes usamos a palavra champanhe para falar de qualquer vinho cheio de borbulhas. Mas existe uma diferença importante — e ela começa muito antes de a rolha estourar.

Champagne é um lugar. E também é uma denominação de origem.

Champagne é uma região da França, localizada a cerca de 150 quilômetros a nordeste de Paris. É ali, dentro de uma área delimitada e seguindo regras bastante específicas, que nasce o Champagne.

Ou seja: todo Champagne é um espumante. Mas nem todo espumante é Champagne.

E talvez seja justamente aí que começa a ficar interessante.

A bolha também tem história

Para ser Champagne, não basta produzir um vinho espumante na França. Existe um método de elaboração que faz parte da identidade da bebida.

Depois de produzido o vinho-base, acontece uma segunda fermentação dentro da própria garrafa. É nesse momento que o vinho ganha o gás carbônico responsável pelas famosas borbulhas.

A garrafa, portanto, não é apenas o lugar onde o Champagne será servido. Ela participa de uma parte fundamental da sua construção.

Depois vem o tempo.

E Champagne é uma bebida que sabe esperar.

O período mínimo de envelhecimento é de 15 meses para os Champagnes sem indicação de safra e de três anos para os safrados. Na prática, muitos passam ainda mais tempo em contato com as leveduras, desenvolvendo aromas e sabores que vão muito além da simples sensação de frescor.

É por isso que, quando colocamos uma taça de Champagne diante de nós, estamos colocando na mesa um pouco de território, técnica e tempo.

E quais uvas estão ali?

Três variedades dominam a região e aparecem na maior parte dos Champagnes: Chardonnay, Pinot Noir e Meunier.

Cada uma contribui de uma maneira.

O Chardonnay costuma trazer frescor, elegância e notas mais delicadas. Pinot Noir acrescenta estrutura, corpo e presença. Já a Meunier pode trazer fruta e uma personalidade muito própria aos cortes.

E aqui existe uma curiosidade que muita gente não sabe: apesar de Champagne ser conhecido principalmente por essas três variedades, existem outras uvas autorizadas na denominação.

É também por isso que duas garrafas de Champagne podem ser completamente diferentes entre si.

Branco de uvas tintas?

Sim.

Parece estranho, mas faz sentido.

Pinot Noir e Meunier são uvas de casca escura. Porém, quando são prensadas com cuidado, o suco obtido é claro.

É daí que vem o Blanc de Noirs, um Champagne branco elaborado exclusivamente com uvas tintas.

Já o Blanc de Blancs é produzido exclusivamente com uvas brancas — tradicionalmente, Chardonnay.

Uma simples expressão no rótulo já pode nos contar bastante sobre o que encontraremos na taça.

E o tal do Brut?

Outra confusão bastante comum.

Brut não é uma uva, nem um tipo de Champagne definido pelo método. É uma indicação relacionada à quantidade de açúcar após a etapa de dosagem.

É por isso que podemos encontrar Brut, Extra Brut, Brut Nature, Demi-Sec e outros estilos.

No Brut, por exemplo, o limite é de até 12 gramas de açúcar por litro.

Já o Brut Nature tem uma quantidade ainda menor e não recebe adição de açúcar na dosagem.

E isso muda a percepção do vinho na boca.

Mais seco, mais macio, mais doce… são estilos diferentes e podem acompanhar momentos e pratos diferentes.

Safra ou sem safra?

Você provavelmente já reparou que algumas garrafas trazem um ano estampado no rótulo e outras não.

Não é por acaso.

Um Champagne safrado, ou Millésime, é produzido a partir de uvas de uma única colheita. É uma maneira de registrar a personalidade daquela safra específica.

Já o Champagne não safrado pode reunir vinhos de diferentes anos, incluindo vinhos de reserva. Essa possibilidade permite às casas manterem um determinado estilo ao longo do tempo.

É quase como uma assinatura.

O objetivo não é simplesmente dizer qual é “melhor”. São propostas diferentes.

Cinco nomes que você provavelmente já ouviu

Quando falamos de Champagne, alguns nomes ganharam reconhecimento internacional e se tornaram referências para consumidores do mundo inteiro.

Entre eles estão:

Moët & Chandon
Uma das casas mais conhecidas mundialmente e responsável por alguns dos rótulos mais presentes em celebrações.

Veuve Clicquot
Reconhecida pela identidade marcante e pela história de uma das mulheres mais importantes da trajetória da casa.

Ruinart
Uma das mais antigas casas de Champagne, conhecida também pela sua tradição e pela elegância de seus vinhos.

Bollinger
Uma casa associada a Champagnes de personalidade, estrutura e presença gastronômica.

Dom Pérignon
Uma das marcas mais emblemáticas do universo do Champagne, dedicada exclusivamente a vinhos safrados de prestígio.

Mas vale uma ressalva: fama não é sinônimo de qualidade absoluta.

O universo de Champagne é enorme e vai muito além das grandes casas. Existem pequenos produtores, famílias e diferentes estilos que podem proporcionar descobertas incríveis para quem se dispõe a sair dos nomes mais conhecidos.

E é justamente aí que a bebida começa a ficar ainda mais interessante.

Champagne também pode sentar à mesa

Talvez essa seja uma das coisas que mais gosto de lembrar.

Champagne não precisa esperar uma comemoração.

Ele pode acompanhar uma refeição inteira.

O frescor pode conversar com pratos mais gordurosos. A acidez pode trazer equilíbrio. Diferentes estilos podem acompanhar frutos do mar, queijos, preparações delicadas e até pratos mais complexos.

A escolha depende do Champagne, mas também do prato, da ocasião e, claro, de quem está sentado à mesa.

Porque vinho, no fim das contas, também é sobre contexto.

Uma taça pode marcar uma conquista.

Mas também pode simplesmente acompanhar uma terça-feira qualquer.

Então, qual Champagne escolher?

Talvez essa seja a pergunta que fique depois de conhecer um pouco mais sobre o assunto.

E a resposta não está necessariamente na garrafa mais cara ou no nome mais famoso.

Está em entender o que existe dentro dela.

De onde veio. Quais uvas foram utilizadas. Quanto tempo descansou. Qual estilo foi escolhido. E com quem vamos dividir aquela garrafa.

Porque quando a gente conhece melhor o que está bebendo, a experiência muda.

A bolha deixa de ser apenas uma bolha.

Ela passa a contar uma história.

NA PRÓXIMA EDIÇÃO…

As bolhas continuam por aqui.

Depois de entender por que Champagne não é sinônimo de espumante, vamos atravessar a fronteira e conhecer outra tradição que também conquistou o mundo: a Cava.

De onde ela vem? Como é produzida? Quais uvas entram na garrafa? E, afinal, o que faz uma Cava ser Cava?

Na próxima Conexão Enogastronômica, a gente abre essa garrafa juntos.

Até lá. E, se puder, deixe uma taça esperando.

VAMOS CONVERSAR?

A Conexão Enogastronômica também está aberta a novas histórias, encontros e experiências.

Para convites para coberturas, eventos, pautas, ações especiais, publis ou projetos de consultoria em gastronomia, entre em contato:
chefleninhacamargo@gmail.com

Boas histórias também começam quando alguém nos convida para sentar à mesa.

Chef Leninha Camargo
Sommelier & Consultora em negócios da gastronomia
Da escolha do ponto à inauguração
@leninha.camargo

Related post

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *