SALVADORES DA PÁTRIA

— Uai! Né que o homem tá vivo!

Benévolo conferiu o nome na tela do celular. Era um conhecido de quem não tinha notícias havia mais de um ano. O sujeito, por encanto, dera o ar das graças com um vídeo e um alerta urgente sobre o destino do Brasil.

— Mais de ano sem dar notícia e, de repente, resolveu salvar o Brasil! Oxalá!

O vídeo anunciava uma catástrofe caso vencesse um dos candidatos à Presidência. No final, o remetente pedia que fosse compartilhado imediatamente.

Benévolo assistiu a alguns trechos. Muita ameaça, pouca explicação.

Desde o início da campanha do segundo turno, o celular andava assim. Amigos e conhecidos que raramente apareciam nas redes sociais tinham voltado à ativa. Alguns só davam notícias no Natal. Agora, pareciam ter descoberto uma missão urgente.

— Estou começando a desconfiar que meu telefone estava com defeito. Há muito tempo não recebia notícias dessa turma. Agora virou central de campanha!

Riu. O celular vibrou novamente.

Era uma velha amiga. Depois de uma saudação carinhosa, foi direto ao assunto: o país não sobreviveria a mais quatro anos sob o comando do candidato X. Era preciso impedir aquela tragédia. Benévolo deveria pensar bem antes de votar.

Ele releu a mensagem. Conhecia a remetente havia muitos anos, mas não se lembrava da última vez em que tinham conversado sobre política.

Ensaiou uma resposta em voz alta:

— Minha querida, eu penso. Só não entendi por que você me diz apenas em quem não devo votar, sem explicar por que deveria votar no seu candidato.

Começou a escrever. Apagou. Tentou outra, mais direta. Apagou também.

— Se eu disser o que estou pensando, posso perder a amiga. Se não responder, ela talvez ache que concordei. Ou talvez não. E, se perguntar alguma coisa, ainda corro o risco de receber mais cinco vídeos!

Deixou o celular sobre a mesa e ficou alguns instantes em silêncio.

— Também não posso me achar mais esclarecido só porque fiquei calado.

Chegou outra mensagem, agora de um conhecido que defendia o candidato oposto. O texto era quase um espelho do anterior. Mudavam o candidato e a catástrofe anunciada. A conclusão era a mesma: votar no adversário seria uma irresponsabilidade imperdoável.

— Ah, não! Agora os dois vão acabar comigo!

Leu as mensagens lado a lado. Uma anunciava o fim da democracia; a outra, a destruição do país. Os dois remetentes pareciam igualmente certos de que o Brasil dependia do voto alheio — desde que fosse o voto certo.

— Curioso. Todo mundo sabe quem vai destruir o país. Saber o que o próprio candidato pretende fazer já parece mais difícil.

Benévolo se levantou para buscar água. Ao passar pelo espelho do corredor, deteve-se.

— Calma, meu caro. Você também não tem resposta para tudo.

Resolveu conferir uma das afirmações mais graves. Procurou a origem, comparou a mensagem com as informações disponíveis e não encontrou elementos suficientes para sustentar a conclusão.

— Pode até haver alguma coisa verdadeira aí. Mas uma coisa é haver um fundo de verdade; outra é chegar a essa conclusão!

O celular vibrou de novo. Desta vez, a mensagem vinha de alguém por quem tinha especial consideração. O texto defendia o candidato que lhe parecia mais razoável. Benévolo começou a ler com simpatia. Algumas críticas ao adversário coincidiam com suas próprias preocupações.

Gostou tanto do que leu que quase encaminhou a mensagem a um grupo de amigos. O dedo já pairava sobre a seta de compartilhamento quando parou.

— Opa! Eu conferi isso ou gostei porque diz o que eu já estava pensando?

Voltou ao texto. Uma das afirmações não tinha sustentação suficiente. Desistiu de encaminhá-lo.

— Bonito, hein, seu Benévolo! Fiscal dos exageros alheios e quase distribuidor dos próprios.

Ficou contrariado. Era fácil exigir provas quando a mensagem desagradava; bem mais difícil quando confirmava o que ele já pensava.

O celular vibrou mais uma vez:

“Compartilhe antes que tirem do ar!”

Benévolo soltou uma gargalhada.

— Mas que democracia frágil é essa que depende de eu apertar um botão antes do jantar?

Aos poucos, o riso deu lugar a outra preocupação. Gostaria de conversar com aquelas pessoas, saber o que as inquietava, ouvir seus argumentos. Não precisava concordar com todas elas. Talvez até mudasse de opinião diante de uma boa razão.

Mas fazia tempo que não recebia notícias de algumas dessas pessoas. Agora que reapareciam, quase nenhuma perguntava como ele estava. Vinham direto ao assunto, como se a amizade pudesse ser colocada entre parênteses até que o perigo anunciado fosse afastado.

Será que tinham voltado para conversar ou apenas para convencê-lo?

Benévolo olhou a lista de mensagens. Talvez por trás de cada alerta houvesse um medo sincero. Isso não o obrigava a aceitar todas as conclusões, muito menos a repassá-las. Tampouco lhe dava o direito de tratar os remetentes como tolos. Ele próprio quase caíra na mesma armadilha.

A eleição era séria, e Benévolo não considerava necessariamente equivalentes os candidatos nem os riscos de suas vitórias. Mas uma coisa era ter razões para temer determinado resultado; outra, bem diferente, era acreditar que esse temor dispensava a obrigação de argumentar e ouvir.

Ainda assim, uma dúvida o incomodava: depois de tanto esforço para impedir a vitória do adversário, sobraria disposição para conversar sobre o que deveria ser feito pelo país?

Olhou novamente o celular. As mensagens continuavam chegando, cada qual com seu plano de salvação nacional.

Benévolo decidiu que não responderia naquela noite. Não por considerar inútil conversar, mas porque não queria transformar uma amizade em mais uma disputa de campanha. As mensagens poderiam esperar; suas dúvidas, não.

Levantou-se para jantar. No caminho, lembrou-se da mensagem que quase compartilhara. Por pouco, não fizera exatamente aquilo que criticava nos outros.

Antes de se sentar, pegou o celular mais uma vez. Havia novas mensagens. Não abriu nenhuma.

— Meus amigos, passei anos sem notícias de vocês. Agora, se me dão licença, vou jantar.

O celular vibrou novamente.

Benévolo olhou para a tela.

— Se for para salvar o Brasil, esperem a sobremesa.

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João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br, e de Ana de Porangaba, atualmente com a edição impressa esgotada.


João Régis Magalhães

Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.

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