O tempo à mesa: Gaggiarone revela a força dos vinhos de identidade

Em um jantar no Piselli Brasília, quatro safras de um vinho da Lombardia mostraram como o tempo pode mudar a experiência de uma taça.

Alguns vinhos ficam na memória pelo que oferecem no primeiro gole. Outros nos surpreendem justamente pelo que o tempo fez com eles.

Foi o que aconteceu no jantar realizado no dia 14 de outubro, no Piselli Brasília, quando a Due Vinhos apresentou quatro safras do Gaggiarone, vinho produzido pela Alziati Annibale, na Lombardia, norte da Itália.

Tive a oportunidade de provar as quatro safras e achei interessante perceber como um mesmo vinho pode se mostrar de maneiras diferentes ao longo dos anos. Entre elas, a de 2005 foi a minha favorita. Gostei muito desse vinho, que me chamou a atenção pela maneira como se apresentou na taça depois de tantos anos.

Provar safras diferentes lado a lado é uma oportunidade que nem sempre temos. Mais do que comparar datas, é uma forma de perceber o que muda, o que permanece e como cada garrafa conta um pouco da história daquele vinho.

As raízes de um vinho italiano

O Gaggiarone vem de Rovescala, na região de Oltrepò Pavese, na Lombardia. A Alziati Annibale trabalha com vinhedos antigos, colheita manual e uma proposta de produção que busca respeitar as características das uvas e do lugar onde são cultivadas.

A Bonarda é a variedade destacada na história do vinho e tem forte ligação com a tradição vitivinícola da região. O trabalho começa no vinhedo, com rendimentos naturalmente baixos e cuidado com o ciclo da videira, e continua na adega, onde o vinho amadurece em tanques de cimento e segue evoluindo na garrafa.

Gosto de conhecer produtores que mantêm essa relação próxima com a origem de seus vinhos. Existe um cuidado que vai além da elaboração: é preciso conhecer a terra, acompanhar a uva e entender que nem tudo depende de interferir no processo. Às vezes, o trabalho também está em saber respeitar o tempo.

À mesa, com ossobuco

O jantar também teve seu momento especial na gastronomia. O ossobuco foi um dos destaques para mim, tanto pelo sabor quanto pela combinação com o vinho.

É um prato que pede tempo no preparo. O cozimento lento deixa a carne macia e concentra os sabores, características que podem encontrar nos tintos estruturados uma boa companhia. Quando o vinho tem acidez e taninos capazes de acompanhar a riqueza do prato, a combinação ganha equilíbrio.

É nessas horas que gosto de observar o que acontece entre a taça e o prato. A comida pode destacar características do vinho que antes não percebíamos, assim como o vinho pode mudar nossa percepção de um ingrediente. Não é preciso transformar a harmonização em uma fórmula: o prazer está justamente em experimentar e perceber o que funciona.

Naquela noite, a gastronomia fez parte da experiência de provar as safras e deu ao encontro um sentido que ia além da degustação.

O que fica na memória

A apresentação foi conduzida por Rogério Santos, da Due Vinhos, que compartilhou informações sobre a Alziati Annibale e o trabalho desenvolvido pela propriedade. Ele havia acabado de voltar de uma imersão na Itália, onde conheceu mais de perto a produção da vinícola.

Para quem aprecia vinho no Brasil, conhecer produtores como esse é também uma maneira de ampliar o olhar sobre a Itália, para além das regiões e dos rótulos mais conhecidos. Cada descoberta traz novas histórias e nos ajuda a entender a diversidade que existe dentro de um país com uma tradição tão rica na produção de vinhos.

Voltei para casa com a safra de 2005 como minha grande lembrança da noite. Mas também fiquei pensando em como é interessante acompanhar a trajetória de um vinho e perceber que cada safra tem algo próprio a mostrar.

No fim, é isso que me encanta na cultura do vinho: a possibilidade de conhecer lugares, pessoas e histórias por meio de uma taça. E, quando tudo isso acontece ao redor de uma boa mesa, a lembrança fica ainda melhor.

Serviço

@duebrasiliaoficial
@pisellibrasilia





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Chef Leninha Camargo
Sommelier & Consultora em negócios da gastronomia
Da escolha do ponto à inauguração
@leninha.camargo

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