BENÉVOLO E O PAÍS DAS CERTEZAS
João Régis Magalhães
Benévolo desligou a televisão, mas continuou sentado diante da tela escura. O resultado das urnas havia contrariado as pesquisas, que já vinham errando em eleições anteriores. A diferença fora pequena, mas suficiente para manter Lula na Presidência. O Brasil continuava dividido, cada lado convencido de que o outro era uma ameaça.
Não se sentia representado por nenhum dos candidatos do segundo turno. Desalentado, sentia-se um pato fora d’água.
Na cozinha, o café esfriara sobre a mesa. Levou a xícara ao nariz e fez uma careta.
— Puxa vida! Nem o café salva este dia!
Despejou o café na pia e voltou à sala. Ligou a televisão. Um comentarista atribuía a vitória às redes sociais; outro, à estratégia da campanha; um terceiro, à rejeição do adversário. Benévolo zapeou por alguns canais. Todos pareciam ter previsto o resultado.
— Impressionante! Ontem ninguém previa. Hoje todo mundo explica. Depois, a realidade que se ajuste.
Lembrou-se das coberturas eleitorais e fez uma careta.
— Tem jornalista que parece ter escolhido um lado e esquecido o compromisso de informar. Desde quando militância virou sinônimo de jornalismo?
Desligou a televisão e abriu o celular. Num grupo, um conhecido comemorava a salvação do Brasil; em outro, alguém anunciava uma tragédia nacional.
— Uai, ganharam duas eleições diferentes?
Os grupos de amigos tinham virado centrais de campanha. Vídeos e previsões apocalípticas circulavam sem parar. Quem não repetisse o discurso do próprio lado já era visto com desconfiança.
Abriu a mensagem de um velho amigo, com quem antes conversava sobre futebol, trabalho e família. Agora, o homem só falava de política. Benévolo começou a responder: “Você não acha que está exagerando?”. Acrescentou uma frase mais dura, releu e apagou. Tentou de novo. Apagou outra vez.
— Deixa pra lá. Não adianta dar murro em ponta de faca.
Não queria brigar com alguém de quem gostava. E, para falar a verdade, nem sabia se conseguiria convencê-lo.
Será que o amigo acreditava mesmo naquilo ou só repetia o que ouvia dos companheiros?
— E eu? Quantas vezes dei mais atenção a uma notícia porque confirmava minhas desconfianças?
Lembrou-se de notícias que compartilhara sem conferir e de outras que descartara por contrariar suas convicções. Ficou sem resposta. Uma nova mensagem apareceu, e ele tratou de mudar de assunto.
De um lado, o exército do Lula; de outro, a tropa do Flávio. Dúvida era fraqueza; discordância, traição.
Aquela adesão cega o inquietava. Benévolo se lembrou da Alemanha dos anos 1930. Sabia que as duas épocas não podiam ser comparadas diretamente. O que o assustava era a facilidade com que tanta gente entregava o próprio julgamento ao grupo.
— Parece que tem gente que prefere marchar junto a pensar por conta própria.
Falou com convicção, sem perceber que também se irritava quando alguém contestava uma opinião que considerava evidente.
Lembrou-se de uma conversa recente. Um amigo lhe perguntara em quem votaria. Ao ouvir que não confiava inteiramente em nenhum dos candidatos, o homem franziu a testa.
— Mas você tem que escolher um lado!
Na ocasião, Benévolo mudara de assunto. Agora, a frase lhe voltava à cabeça.
— Escolher um candidato não é assinar procuração pra ele pensar por mim.
Pegou o celular e escreveu num grupo:
“Defender a democracia também é aceitar que o outro pense diferente. Inclusive quando ele perde a eleição.”
Enviou a mensagem e virou o aparelho para baixo. Tinha dúvidas sobre algumas decisões tomadas durante o processo eleitoral. A decisão do ministro Cristiano Zanin de prorrogar por duas horas o horário de votação, até as 19h, após relatos de dificuldades no transporte de eleitores, alimentara suspeitas e acusações. A antiga atuação de Zanin como advogado de Lula só aumentava a desconfiança de Benévolo. Depois, o ministro esclarecera que a medida valeria apenas para as seções cujas urnas ainda não tivessem sido fechadas.
Benévolo leu notícias e encontrou interpretações divergentes.
— Afinal, o que aconteceu?
Não queria acusar ninguém sem provas, mas tampouco aceitava que a autoridade de uma instituição encerrasse qualquer questionamento.
— Se está tudo certo, expliquem direito. Qual é a dificuldade?
Percebeu que falava alto demais e soltou uma risada sem graça. Talvez exigisse explicações de quem já lhe despertava desconfiança com uma impaciência que não demonstrava diante de outras situações. Não estava disposto a dar razão a ninguém naquela noite.
Ligou novamente a televisão, agora sem som. Na tela, as comemorações dos vencedores se alternavam com os rostos abatidos dos derrotados. Desligou-a.
Antes da eleição, Benévolo já decidira que faria oposição ao governo eleito, qualquer que fosse o resultado. Não acreditava no projeto de nenhum dos dois candidatos. Dizia a si mesmo que reconheceria os acertos.
— Se acertar, reconheço. Se errar, cobro. Parece simples, né? Vamos ver se consigo.
Alguns amigos se ofendiam quando ele criticava seus candidatos. Benévolo não queria romper amizades por causa de eleição, mas também não ia fingir concordância.
Na cozinha, pegou as contas e conferiu o vencimento da energia. Abriu o aplicativo do banco, fez uma careta e fechou-o.
— Pelo menos minhas contas não dependem de negociação com o Congresso.
O presidente reeleito teria de negociar com um Congresso conservador, uma oposição expressiva e muitos interesses em disputa. Benévolo conhecia a velha receita: cargos, emendas, favores e concessões.
— Vai ser uma beleza. Todo mundo defendendo o Brasil, cada um com a sua conta pra apresentar.
— Vamos ver quanto vai ser ideologia e quanto vai ser pragmatismo — pra não dizer coisa pior.
Ainda assim, perguntou a si mesmo se daquela vez poderia ser diferente. Queria acreditar nisso.
Abriu o celular e procurou notícias sobre as despesas do governo e os compromissos assumidos na campanha. As estimativas somavam centenas de bilhões de reais em gastos, renúncias de receita e outras promessas. Nem tudo representava despesa efetiva, mas a dimensão dos compromissos o preocupava.
— Eita reeleição cara!
— Na campanha, tudo cabe no orçamento. Depois, o orçamento é que não cabe nas promessas.
Pensou nas famílias que dependiam de programas sociais e nos serviços públicos que precisavam funcionar.
— Não precisa ser economista pra saber que alguém paga a conta.
Sabia que governar era mais complicado do que reclamar do sofá. Queria, porém, mais franqueza dos candidatos sobre os limites de suas propostas e reconhecia que nem sempre tinha paciência para ouvir argumentos contrários aos seus.
— Aí vem a decepção. E a culpa vai ser de quem?
Na manhã seguinte, tomou café com o celular ao lado da xícara. As notícias anunciavam turbulência no mercado financeiro, em meio à surpresa com o resultado eleitoral e às incertezas sobre as contas públicas e a política econômica.
Às 9h57, a B3 interrompera temporariamente as negociações durante o leilão de abertura. Os negócios seriam retomados cerca de meia hora depois. Ao fim do pregão, Benévolo soube que o Ibovespa despencara 13,88% e o dólar subira 8,21%. Algumas ações do varejo haviam perdido mais da metade do valor.
— Caramba! Tudo isso? Tá derretendo!
Benévolo balançou a cabeça.
— O mercado não é dono do país. Também exagera, mas não dá pra ignorar seus sinais.
Não era especialista em bolsa nem em câmbio, mas sabia que dólar alto gerava inflação e acabava pesando no bolso de todo mundo. Ligou para um amigo que acompanhava o mercado financeiro.
— É só susto ou tem coisa mais séria?
O amigo falou das incertezas fiscais e disse que o governo precisaria apresentar medidas, não apenas promessas.
— Então é esperar pra ver?
— É. Mas o mercado não costuma esperar muito.
Benévolo desligou. Não sabia quanto daquela queda era preocupação justificada e quanto era medo. Mais cedo ou mais tarde, porém, alguém pagaria a conta.
Voltou ao mapa eleitoral. O Nordeste dera a Lula uma vantagem expressiva. No Norte, a disputa fora praticamente empatada. No Sudeste, no Sul e no Centro-Oeste, Flávio Bolsonaro levara a melhor.
Benévolo percorreu os estados com o dedo.
— É quase um país contra o outro.
Num grupo de mensagens, alguém atribuía o resultado do Nordeste à ignorância dos eleitores. Outro respondia ofendendo os moradores do Sul. Benévolo escreveu:
“Ninguém tem o monopólio da inteligência nem da virtude.”
Enviou a mensagem e silenciou o grupo. Gostou da própria resposta. Por um instante, perguntou-se se não estaria usando a indignação alheia para se sentir mais sensato do que os outros. Pelo menos, pensou, não tinha insultado ninguém.
Naquela noite, voltou a pensar no futuro. Não queria passar quatro anos esperando que o governo fracassasse, muito menos torcendo para que desse certo só para provar que estava errado. Também não queria uma oposição que se limitasse a apontar erros.
Abriu um documento no celular e digitou: “E 2030?”
Começou a listar o que esperava de uma alternativa política: responsabilidade fiscal, respeito às instituições, serviços públicos funcionando e disposição para governar sem transformar adversários em inimigos.
Apagou duas linhas. Havia anotado mais críticas ao governo do que propostas.
— Assim não dá. Ser contra não é projeto.
Precisava pensar em propostas, preparar lideranças e reconhecer os erros do próprio campo. Era mais fácil dizer o que não queria do que explicar como faria diferente.
Pensou em Tarcísio de Freitas. O nome lhe ocorria quando imaginava a disputa de 2030.
— Quero ver o que ele entrega em São Paulo, como administra e que resultados apresenta. Depois a gente conversa.
Fechou os olhos por um instante.
— Vai ver que esse resultado facilitou o caminho pra Tarcísio. Mas ainda é cedo pra saber.
Voltou ao documento e digitou: “Começar agora.” Sublinhou a frase, embora não tivesse certeza de que levaria o projeto adiante. Já começara outras coisas com entusiasmo e as abandonara alguns dias depois.
Na terça-feira, saiu de casa e encontrou a cidade de sempre. O trânsito estava complicado. Um motorista buzinava porque o carro da frente demorava a arrancar. Duas pessoas discutiam por uma vaga. Um entregador tentava passar entre os veículos, de olho no relógio.
Benévolo teve vontade de buzinar também, mas desistiu. O sinal estava prestes a abrir, e a buzina não faria o carro da frente andar mais depressa.
No sinal seguinte, ouviu duas pessoas discutindo a eleição. Uma reclamava; a outra dizia que era preciso aceitar as urnas. A conversa esquentou, até que cada uma seguiu seu caminho.
— Amanhã, provavelmente, vão discutir a mesma coisa.
O sinal abriu.
Naquela noite, encontrou uma mensagem do amigo a quem escrevera sobre democracia. A resposta era curta: “Você está em cima do muro.”
Benévolo sorriu e digitou:
“Não. Estou tentando não virar torcedor de político.”
Enviou a mensagem e foi preparar alguma coisa para comer. Enquanto cortava um tomate, pensou que talvez o amigo não entendesse. Ou talvez entendesse melhor do que ele gostaria de admitir. Deixou a faca sobre a tábua, voltou à mensagem, mas não escreveu mais nada.
Na quarta-feira, voltava da academia quando ouviu na CBN a notícia que Flávio Bolsonaro havia deixado o país, apesar da ordem judicial que o proibia de viajar para o exterior.
Benévolo prestou atenção. Na noite da eleição, logo após a confirmação do resultado, o ministro Alexandre de Moraes determinara a retenção dos passaportes do senador. A decisão fora tomada sem consulta prévia ao procurador-geral da República.
— Ainda na noite da eleição? E a PGR, nem foi ouvida?
Benévolo não conhecia todos os elementos do processo, mas o momento e a forma da decisão o incomodavam. Na sua avaliação, Moraes agira muito mais como adversário político do que como juiz.
— Justiça não pode ter cara de revanche. Nem quando o sujeito merece ser investigado.
Por outro lado, pensou, deixar o país não parecia a melhor escolha para alguém que recebera quase 60 milhões de votos. Independentemente das circunstâncias, deveria permanecer e liderar a oposição.
— Fujão! O capitão é o último a abandonar o navio! Que papelão!
A saída de Flávio o fez pensar no futuro do bolsonarismo. O movimento poderia perder força e abrir espaço para nomes menos radicais da direita.
Mas e o lulismo? Lula também não havia preparado um sucessor à altura. Se um movimento perdesse força, o outro talvez perdesse parte do combustível que o mantinha vivo.
— Vai ver que um precisa do outro. Um vive dizendo que o outro é uma ameaça, e assim os dois continuam vivos.
Não eram iguais, nem tinham necessariamente as mesmas responsabilidades. Mas talvez tivessem se acostumado a depender do medo que despertavam um no outro. Se essa engrenagem se rompesse, poderia abrir espaço para alternativas. Melhores? Benévolo não sabia.
Em casa, Benévolo abriu de novo o documento “E 2030?”. Acrescentou uma frase:
“Não basta esperar que o outro fracasse. Alguém precisa mostrar que pode fazer melhor.”
Leu e quase apagou. Passara dias cobrando lucidez dos outros. E se, na hora de reconhecer um acerto do adversário, acabasse fazendo o mesmo que tanto criticava?
Fechou o celular. Não tinha resposta. Pelo menos, dessa vez, a dúvida era sua. _
João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br, e de Ana de Porangaba, atualmente com a edição impressa esgotada.

João Régis Magalhães
Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.
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